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domingo, 30 de novembro de 2014

História dos povoados de Poço Verde

Como fruto de um trabalho de pesquisa desenvolvido pelos alunos do curso de Redação do Colégio Estadual Professor João de Oliveira, em Poço Verde – Estado de Sergipe – publicaremos uma série de reportagens sobre temas previamente escolhidos. Ministradas pelo professor Landisvalth Lima, as aulas de Redação foram realizadas aos sábados e o final do curso ocorreu no último dia 29 de novembro, quando as equipes entregaram os respectivos trabalhos. Os trabalhos apresentam duas partes, uma escrita e outra em vídeo.
O tema inicial de hoje será a História dos povoados de Poço Verde. A equipe coletou informações com os moradores e com autoridades para se chegar o mais próximo possível da construção da história real. O leitor mais informado pode ajudar o trabalho de pesquisa com alguma informação complementar ou corrigir eventuais problemas. Basta enviar e-mail para landisvalth@oi.com.br.
Participaram deste trabalho os alunos:
Ana Paula Santos de Sousa
Geovania Santos Ribeiro
Jaqueline Oliveira dos Santos
Ligia Santos Oliveira
Maria Eduarda Dantas Santana
Ranielle de Jesus Souza
Raiane de Jesus Santos
Valdilene de Jesus Gama

A história da formação dos povoados de Poço Verde

Saco do Camisa

Escola em Saco do Camisa

Não se sabe ao certo a data de origem do povoado Saco do Camisa, popularmente conhecido como Ventoso. Sabe-se que foi por volta dos meados do século XX que os primeiros moradores começaram a edificar suas casas. O nome popular de Ventoso se consolidou porque os moradores afirmam que venta muito no povoado. Mas a história do nome Saco do Camisa é bem mais interessante.
Conta-se que havia um boi que nenhum vaqueiro conseguia domar. Era uma espécie de desafio para os vaqueiros da localidade. Com o passar do tempo, um vaqueiro muito esperto conseguiu domar o boi. Capturado, o animal foi sacrificado ali mesmo e dividido entre as pessoas do lugar.
O Mercado Municipal
Mas e o nome Saco do Camisa? O nome do boi era Camisa e ele chegou a entrar numa espécie de saco. Daí surgiu o nome. Mas um missionário que esteve no local resolveu dar outro nome ao povoado que nascia. Por volta dos anos sessenta do século passado, o religioso denominou o local de Vera Cruz. O nome não pegou. Continua até hoje com os dois nomes iniciais. Saco do Camisa é o oficial. Ventoso é o nome popular.
Escola reunida em ato cultural
A história do povoado é contada na ponta língua por José Ozélio Santos Souza, conhecido popularmente como Zeinha, morador orgânico do local. Quem também não poderia faltar é a Dona Valdete. Ela nasceu no povoado e é filha de um dos seus primeiros moradores. Em Saco do Camisa, há muitas artesãs. Uma das mais conhecidas é Dona Neta.
O crescimento do povoado ocorreu muito dos anos setenta para cá. Hoje já há quadra poliesportiva, escola, calçamento das principais ruas e um comércio que serve muito satisfatoriamente à comunidade local. As pessoas, como em toda região, vivem da agricultura e dos benefícios sociais do governo.

São José

Imagem de São José na entrada do povoado
A história do povoado São José, segundo a moradora Marina Bispo dos Reis, do alto dos seus 85 anos bem vividos, começa quando ainda era denominado de Cachimbo Vermelho. O nome curioso deu-se por causa de um homem que apareceu no local usando um cachimbo vermelho. Dona Marina nasceu e sempre morou no povoado São José, portanto a povoação do local teve início nas primeiras décadas do século XX. E quem construiu a capela foi a moradora e devota Inácia Maria de Jesus. Ela era casada com Marcionílio Rodrigues de Souza. O casal construiu a primeira casa no local.
São José é um dos mais antigos de Poço Verde
Dona Marina Bispo não lembra a data exata da construção das primeiras casas porque ela nasceu depois e não havia preocupação do povo com estas coisas, mas na avenida Francisco Rollemberg Leite está situada a Escola Estadual São José, que foi construída em 1948. A escola funciona em prédio próprio com duas salas de aula permanentes, sendo uma delas inadequada, pois o acesso à secretaria e à cozinha é feito por dentro da sala de aula. Outra sala da mesma escola está localizada fora dela numa extensão doada por uma cooperativa. A Escola Estadual oferece ensino fundamental do 1° ao 5° ano.
Escola de educação infantil
Um ponto interessante da Escola Estadual São José é que, embora a estrutura não seja adequada, composta de um sanitário, uma cozinha, despensa, um pátio coberto que serve como refeitório e uma área disponível, o quadro de funcionários encontra-se completo. Todos os professores são efetivos e com nível superior completo. O corpo diretivo é formado apenas por uma secretária, que desempenha suas funções com bastante eficácia junto à comunidade escolar. Desde o ano de 2006, a escola tem PROFIN e PDDE, o que está permitindo, neste ano de 2014, a reforma e ampliação da instituição.
São José tem comércio bem desenvolvido
O povoado São José tem boa estrutura para servir à população e fica localizado a 12 quilômetros de Poço Verde, às margens da SE-361, que liga o município a Simão Dias. Há ainda uma escola municipal, posto médico, várias igrejas e um comércio bem desenvolvido. É o povoado que disputa com Tabuleirinho a hegemonia na produção milho e feijão.

Rio Real

Igreja do povoado Rio Real
O povoado Rio Real teve sua origem em 1940, quando todos os comerciantes da Baixa Grande – região de Ribeira do Amparo, Estado da Bahia - começaram a sofrer com a cobrança de altos impostos, realizada pelo então Exator do Município de Cipó/BA, João de Matos. Três comerciantes: Anastácio, Edgar e Josa se reuniram e tiveram a ideia de transferir seus negócios para o vizinho Estado de Sergipe. Lá não seriam alcançados pelo cruel exator. Certo dia saíram da Baixa Grande e atravessaram o Rio Real, naquela época era bastante fundo.
Rio Real
Foi Anastácio quem encontrou um local onde havia um umbuzeiro e achou que ali era ideal para recomeçar sua vida. Chamou os amigos e se alojaram debaixo da sombra generosa da árvore. Passados alguns dias, com ajuda de amigos, desmataram ao redor da árvore algo em torno de uma tarefa. Logo após iniciaram a comercialização de seus produtos embaixo do umbuzeiro ao longo daquele ano de 1940.  
Há rica produção de artesanato em Rio Real
Naquela época só existia uma pequena estrada que nascia na Baixa Grande e seguia em direção a Poço Verde. Construíram em seguida um galpão de madeira e depois surgiu outra estrada que dava acesso à localidade Cabeça do Boi. Os comerciantes, após se instalarem no local, começaram a pensar em construir as suas primeiras moradias. Para isso tinham que comprar as terras. Sendo assim, compraram uma faixa de terra a Virgínio e Bilinha, iniciando assim a construção da primeira casa comercial, que foi a de Edgar. Depois foi a vez de Zé Fiel e Anastácio construírem suas casas. Segundo seu Francisquinho, morador do local, o primeiro nome dado ao local foi Pau torto, devido à estrutura do umbuzeiro. Mais tarde. Começaram a chamar o local de Feira Nova. Foi então que os próprios comerciantes decidiram dar um nome definitivo ao local escolhido: Rio Real, afinal estavam instalados à margem esquerda do mesmo rio.

Lagoa do Junco

Lagoa do Junco
A primeira casa construída no povoado Lagoa do Junco foi feita por Dona Juviniana em 1972, exatamente no lugar onde hoje está a igreja da localidade. Só ela morava ali. Era uma passagem, um corredor, com roça de um lado e de outro. Com a eleição de Everaldo Oliveira, a prefeitura de Poço Verde adquiriu uma área de quatro tarefas e começaram as construir casas. Rapidamente o povoado cresceu e as coisas começaram a chegar aos poucos. O posto de saúde, por exemplo, foi fundado em setembro de 2010. As primeiras construções foram a igreja e a escola. Hoje, Lagoa do Junco tem cerca de 300 moradores, ruas calçadas e uma estrutura urbana em formação.

Tabuleirinho

Praça central em Tabuleirinho
Tabuleirinho é o mais jovem povoado de Poço Verde e o que mais cresce. A origem do povoado data por volta de 1979, com o primeiro morador, Manoel de Dedé, que atualmente mora na cidade de Poço Verde. Havia, na verdade, o Tabulerinho de Baixo e o de Cima. Como a povoação cresceu muito, as duas localidades acabaram por formar o mais novo núcleo urbano do município, beneficiado pela localização na rodovia SE-361. No início havia apenas um bar e uma casa de taipa. O bar era de Manoel de Dedé e a casa era de uma parteira. A rodovia que corta o povoado era de cascalho. Com o asfaltamento, o povoado cresceu de forma vertiginosa. 
Quadra polivalente coberta em Tabuleirinho
Hoje, Tabuleirinho é o maior produtor de grãos do município de Poço Verde e já dispõe de quadra poliesportiva coberta, centro de formação digital, escola de ensino fundamental, posto de abastecimento, comércio bem desenvolvido, uma bela praça e várias igrejas. A renda per capita é uma das mais altas e o estilo de vida dos moradores não fica muito distante dos grandes centros. Além disso, com a quantidade de casas que está sendo construída do Minha Casa Minha Vida, Tabuleirinho se candidata a buscar o título de maior povoado de Poço Verde. (Dê um clique nas fotos para ampliá-las)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Exposição lembra os cem anos da morte de Augusto dos Anjos

                           RAQUEL COZER – da Ilustrada - Folha de São Paulo
O poeta paraibano Augusto dos Anjos
Para um poeta com um só livro —"Eu", de 1912, ampliado oito anos depois no póstumo "Eu e Outras Poesias"—, pode-se dizer que o paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) chega multiplicado ao centenário de sua morte: entre boas edições impressas e caça-níqueis digitais, mais de dez casas mantêm hoje o poeta em seus catálogos.
Mas não é com entusiasmo que o meio editorial lembra hoje um dos maiores e mais inclassificáveis poetas do país, autor de versos célebres como "um urubu pousou em minha sorte" e "escarra nessa boca que te beija!".
Publicado em 1994 pela Nova Aguilar e reimpresso até 2004, o mais cuidadoso volume em torno da obra do poeta, "Augusto dos Anjos - Obra Completa", organizado por Alexei Bueno, está disponível só para quem der a sorte de encontrar algum remanescente à venda nas livrarias.
Neste ano, a Nova Aguilar passou da Nova Fronteira para a Global, que planeja recolocar o título no mercado apenas em 2016. A mesma Global tem uma das boas edições à disposição hoje, "Melhores Poemas", com seleção de José Paulo Paes. Outras, como a da José Olympio, com estudo crítico de Ferreira Gullar, seguem em catálogo, segundo a editora, embora estejam indisponíveis em praticamente todas as livrarias virtuais.
Nesse cenário, coube à Casa das Rosas, em São Paulo, a maior homenagem à data, com a mostra "Esdrúxulo: 100 Anos da Morte de Augusto dos Anjos", aberta ao público nesta quarta (12). O título refere-se ao crítico Anatol Rosenfeld, que definiu seu trabalho como "paroxítono, esdrúxulo, dissonante".
Com 29 poemas, diversos manuscritos e documentos, além de vídeos sobre o poeta, a mostra busca resgatar sua obra centenária a partir de três grandes temas: a morte, as ciências e a transformação permanente da vida.
"A dificuldade de sua poesia está associada aos temas escatológicos, ao vocabulário denso, com termos técnicos e científicos, e à linguagem estranha, incomum na poesia brasileira", diz o curador, Julio Mendonça.
Um dos documentos, uma declaração de 1977 assinada pelos filhos, encerra uma disputa de décadas entre a Cruz do Espírito Santo (PB) natal de Augusto dos Anjos e a mineira Leopoldina (MG), onde morreu aos 30 anos. O termo determina que fiquem nesta última os restos mortais do poeta.
A casa onde Augusto dos Anjos viveu os últimos cinco meses de vida, em Leopoldina, é hoje um pequeno museu onde ficam seus manuscritos –e um único objeto pessoal, uma colher, que segundo a filha pertenceu a ele. 
Sem direito aos restos mortais, a paraibana Cruz do Espírito Santo cuida da parte que lhe cabe. Há pouco, iniciou a poda e revitalização do pé de tamarindo eternizado em versos como "no tempo de meu Pai, sob estes galhos/ como uma vela fúnebre de cera/ chorei bilhões de vezes com a canseira/ de inexorabilíssimos trabalhos".

sábado, 25 de outubro de 2014

Pagu: a última combatente do modernismo

METRALHADORA
As 23 prisões não foram suficientes para cessar a crítica da 
escritora ao sistema capitalista, às mulheres e aos 
colegas do movimento modernista, que representou 
em sua fase mais radical

Ana Weiss - do portal da revista ISTOÉ

Em pesquisa que traz textos inéditos de Pagu, Augusto de Campos defende a musa da antropofagia como a mais combativa artista do movimento modernista brasileiro
Patrícia Redher Galvão traduzia Kafka e Ionesco quando quase ninguém os conhecia no Brasil. Era cartunista, crítica, colaborou e fundou periódicos revolucionários e escreveu uma das mais importantes obras proletárias do modernismo, “Parque Industrial”. Mas o olhar lânguido e a boca sempre retinta de Pagu colocaram-na no panteão diferente de seus pares e ela entrou para a história como musa modernista, ou musa antropofágica, como defendeu Décio Pignatari em uma das primeiras ações de resgate da obra da escritora, nos anos 1970. Dito, portanto, como um elogio.
Pagu, alcunha dada por Raul Bopp, era mais jovem e, pelo que mostra o levantamento de Augusto de Campos, ampliado em edição que sai pela Companhia das Letras, a mais entusiasmada integrante do grupo de modernistas brasileiros de segunda geração, a “segunda dentição da antropofagia”. Seu compromisso com o projeto de revolução estética e social a levou a colocar o dedo na cara de parceiros e mestres, como Mário de Andrade, a quem acusou de abandonar o movimento de 22 em artigo polêmico publicado em 1948 na revista “Clima”, assinado em conjunto com o intempestivo e irrefreável Oswald de Andrade. Mas, além da coragem de se opor aos movimentos que abraçava – o modernismo e o socialismo –, Pagu tinha o hábito de seguir seu coração. Com pouco mais de 20 anos, se envolveu com Oswald, que deixou a pintora Tarsila Amaral para ficar com a muito mais nova ex-normalista.
“A exuberante beleza pessoal talvez tenha contribuído para vitimizá-la, antes que para promovê-la”, escreve Augusto de Campos na edição de “Pagu Vida-Obra”, agora acrescido de textos inéditos da colunista de “A Mulher do Povo”, publicado pelo jornal fundado por ela e por Oswald de Andrade e fechado depois de oito números pela polícia, diante da pressão de estudantes de direito da Universidade de São Paulo. “Ela era autora de artigos (sob diversos pseudônimos) e das ilustrações, charges, vinhetas, títulos e legendas, como comprova a comparação com desenhos de ‘Álbum de Pagu’, da ‘Revista de Antropofagia’ e outras fontes”, escreve o autor. Na coluna anônima que Campos republica agora, Pagu não poupava nem mesmo a ala da sociedade que poderia ter lhe dado, em vida, algum abrigo.
Em “O Retiro Social”, ela alveja, com ironia cortante, as novas feministas brasileiras, que imitavam sem muita verdade um modelo importado dos países anglófonos. “Agora que nós caminhamos para uma época sem recalque e de moral biológica racionalizada, onde não existirão nem desvios sexuais nem retiros físicos, Freud e o Padre Manfredo podem pedir demissão.” Pelo destemor, pela inteligência e, mais que tudo, pela coerência com que vivia os princípios de liberdade na sua vida profissional e particular, o autor considera Patrícia Galvão – que não conheceu em vida – “a primeira mulher nova brasileira”.
“Nenhuma correu os riscos, nenhuma defendeu com tanto ardor a arte de vanguarda, nenhuma se pode comparar, em termos de atuação ética e estética, com ela. De um modo ou de outro, todas acabaram cedendo, menos ela.”

Pagu foi presa 23 vezes na vida. A primeira prisão, pelo governo Vargas durante a greve dos estivadores de Santos, é, de acordo com Geraldo Ferraz, seu segundo companheiro, o primeiro encarceramento político de uma mulher no País. Expatriada da França, onde foi detida como comunista, voltou para trás das grades por cinco anos, mais uma vez pela polícia varguista. Teve dois filhos, o cineasta Rudá de Andrade, com o primeiro marido, e o jornalista Geraldo Galvão Ferraz, com o segundo. Mesmo sequelada pelas torturas sofridas na prisão, a escritora continuou produzindo, tendo sido autora das críticas mais contundentes escritas na ocasião da Primeira Bienal de São Paulo, em 1951. “Quando eu morrer, não quero que chorem a minha morte. Deixarei o meu corpo pra vocês”, diz em uma das charges reproduzidas pelo livro de Augusto de Campos, que traz ainda um belo caderno de retratos cedidos pela irmã da modernista, Sidéria Rehder Galvão. Pagu deixou o corpo em 1962, aos 52 anos, depois da tentativa frustrada de curar um câncer e outra de se suicidar, na casa de sua família paterna em Santos, litoral de São Paulo.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Conto: Além do Flerte

                                     Landisvalth Lima
           
     Não havia nada para fazer naquela tarde. Os filhos estavam com os respectivos padrinhos na Bahia, a mulher cuidava da mãe que fizera uma cirurgia plástica nos seios. Andava pelo calçadão da Rua da Frente e imaginava, irônico, que jeito poderia ser dado em seios de oitenta anos. Mas... bem... todos têm o direito de sonhar com o impossível. O sonho sustenta o ser, alimenta o nosso estômago de futuro. O calçadão da rua era novo. Sentado ao banco recém pintado, percebi que tudo continuava velho. Na ponte do Imperador uma mulher jazia em profundo sono. Ao lado, uma criança feia de fome e de maltratos ressonava no pleno sol das quinze horas. Entretanto, as luminárias, o calçadão, os bancos... tudo feito para que pessoas como eu pudessem caminhar sob rígida orientação médica. Os miseráveis insistiam em manchar as grandes inaugurações. 
     Tomei clara decisão: que dormissem os miseráveis! Eu não poderia resolver os problemas do mundo. Era hora de aproveitar o final da tarde de sexta-feira. Era aniversário de Aracaju. Iria, então, vivê-la um pouco distante do automóvel com ar refrigerado. Viveria a cidade de ônibus. No terminal da Rua da Frente peguei o Lourival Batista e desci no antigo Cine Plaza, no bairro Siqueira Campos. Um pastor grandiloqüente insistia na necessidade de se buscar Deus. Enquanto ele implorava pela oração dos seus irmãos, segui em direção à praça. Adiante uma multidão impedia a passagem dos carros. Um zunzunzum se formava. Aproximei-me. Uma mulher de vestido vermelho, cabelos ligeiramente oxigenados. O batom avermelhava os lábios já vermelhos do sangue no asfalto. O sapato de salto alto já quebrado era vermelho sem sangue e a pele morena das pernas já não mais permitia depilação. Na face já não mais vislumbrava a esperança de encontrar o endereço que a mão segurava: Rua Carlos Correia, n.º 103. Olhei fixo para aquele corpo sem alma. Nem percebi o desespero do atropelador. Só vozes e gritos:
-       Você tem seguro, companheiro!
-       Fuja, seu burro. A mulher tá morta!
Pensava comigo que a morte era algo insano, inaceitável, enquanto um policial chegava para registrar o fato já sem a presença do infeliz motorista sem seguro.
Resolvi continuar minha viagem e peguei o ônibus para o Augusto Franco. Estava lotado. Para onde iria tanta gente?
-       É um comício que vai ter na praça do Augusto Franco. Não viu não anunciar na
TV Sergipe? O Governador vai iniciar o término das obras. Vai ter show com Amorosa e Patrícia Polaine.
A informação me foi passada com requinte pelo cobrador que ostentava uma camisa de propaganda do Governador. Agradeci-lhe e desci no ponto com a multidão.
O locutor bradava frases preparadas pelas agências de publicidade e anunciava o comício para instantes. Começou uma hora depois. Políticos massacravam microfones e acariciavam o ego ferido do povo desatento ao evento. Após duas intermináveis horas, Amorosa sobe ao palco. Depois de um parabéns para a cidade e dois bons forrós, a voz desaparece. O locutor anuncia o fim do show e o lamentável incidente. Mas ainda tem Patrícia Polaine. Meia hora depois, após um insistente Harmonia eletrônico, chega a notícia da impossibilidade de a cantora realizar o evento. Não deram maiores explicações, mas informação extra-oficial circulava comunicando que ela se negava a cantar porque não recebera pagamento dos shows anteriores.
Já era muito tarde para continuar andando por aí. Pensei num lugar em que encontraria mais música. Atalaia! Sim. Caminhei decidido para a avenida Heráclito Rolemberg. Lá já vinha o Bugio/Atalaia. Na orla senti a noite branda e a brisa que forrava o asfalto esburacado da areia da praia.
Andei um pouco pela calçada habitada e percebi que havia música ao vivo num bar. Não verifiquei o nome. Estava quase lotado. Luiza Lu poetava Chico Queiroga e afins. Um garçom fatigado me trazia uma cerveja gelada com cardápio de caldinho de sururu. Quando o forró imperou sob o balançado tímido de Luiza, muitos dançaram. Percebi que uma moça pernoitava solitária por entre doses de vodka. Nossos olhares... bem, foi inevitável. É de se compreender que eu estava momentaneamente solteiro, livre, desimpedido, carente. Minha consciência era compreensiva. Minha mulher não! Mas ela estava tão preocupada com a mãe e nunca fui de cometer tais atos. Mas ali estava uma mulher bonita  dos diabos a encarar apaixonadamente um reles senhor de seus cinqüenta anos. Eu ainda despedaçava corações! Por um momento passou pela minha cabeça que tudo aquilo era canalhice. Minha mulher não merecia aquilo! Claro que não. Mas e eu? Eu não merecia? Talvez não, mas isso não importava naquele momento. Eu estava vivendo um flerte. Um flerte aos cinqüenta anos! O último que eu vivera aconteceu quando o Itabaiana venceu o Internacional em pleno Beira Rio. Foi lá que eu conheci minha mulher.
Enquanto eu pensava nos prós e nos contras, ela já pousava diante de mim com turbinas e tudo o mais. Era belíssima, com ar soberano, corpo atlético e jeito absolutamente insinuante. Não poderia ser verdade. Era bonita demais:
-       Posso sentar?
-       Sinta-se em casa.
A voz era meio grave mas denotava meiguice. Não quero aqui detalhar diálogos e pormenores desses encontros. Normalmente são recheados de conversas banais. Ambos ficam esperando a hora certa de dar o golpe fatal e fazer a proposta indecente. Ambos também fingem que são caçadores e não caçados. Quando se me dei, já estava envolvido nos braços dela. Bebi vodka  em sua boca e os beijos e abraços foram temperados com a areia da praia de Atalaia. Estávamos quase nus. Iniciei o processo antropofágico e minha mão foi além do habitual. Fui buscar os pequenos e grandes lábios de uma boca murmurejante de lamentos lascivos. No encontrei o que queria.
-       Seu desgraçado!
Com um murro certeiro, coloquei-o onde ele se encontrava: na areia. Sai catando minhas roupas e correndo desesperado. Ouvi apenas gritar:
-       Volte aqui. Estava tão bom !
O desgraçado era um eunuco. Eunuco e gay! Pequei o primeiro táxi que encontrei e paguei corrida dobrada. Em casa, já pela madrugada que se ia, liguei para minha mulher.
-       Flora, Eu te amo. Estou morrendo de saudades.
Nunca essas palavras foram ditas de forma tão sinceramente profunda.                                                               (In: Contos levemente amarosinédito)

sábado, 5 de abril de 2014

Morre o ator José Wilker

Ele estava em casa com a namorada quando se sentiu mal; a causa da morte foi uma parada cardíaca
Roberta Pennafort - O Estado de S.Paulo
O ator José Wilker tinha 66 anos
Ator, diretor, crítico de cinema, José Wilker morreu hoje, no Rio, aos 66 anos. Ele estava em casa com a namorada, a jornalista Claudia Montenegro, quando se sentiu mal – não teve tempo de ser hospitalizado. A causa da morte foi uma parada cardíaca. Cearense radicado no Rio desde a juventude, Wilker tem duas filhas, Isabel, com a atriz Mônica Torres, e Mariana, com a atriz Renée de Vielmond.
José Wilker nasceu em Juazeiro do Norte. Ele começou a carreira de ator como membro do Movimento de Cultura Popular no Recife. Já radicado no Rio de Janeiro, seu primeiro papel no cinema foi no filme 'A Falecida' ao lado de Fernanda Montenegro, mas obteve grande destaque ao lado de Sônia Braga em 'Dona Flor e seus dois maridos' de 1976.
Ele deu vida também a personagens memoráveis na televisão, como Rodrigo, que era protagonista de 'Anjo Mau', e Roque Santeiro na novela de mesmo nome de 1985. Sua estreia em novelas foi em 'Bandeira 2' de Dias Gomes em 1971. Ele foi convidado para atuar na novela depois de vencer o Prêmio Molière pelo espetáculo 'O Arquiteto e o Imperador da Assíria'.
Como ator chegou a participar de produções internacionais, atuando até ao lado de Sean Connery no filme 'O curandeiro da Selva'. Frequente comentarista do Oscar na TV, ele também era crítico de cinema. Em 1996 ele lançou um livro chamado 'Como Deixar um Relógio Emocionado', que compilou várias de suas críticas. 
Em 2004 ele interpretou o ex-bicheiro Giovanni Improtta em 'Senhora do Destino'. O personagem que depois seria levado ao cinema no último filme dirigido por Wilker, ficou conhecido pelos bordões: "felomenal" e "o tempo ruge e a Sapucaí é grande". Sua última participação em novelas foi em 2013, em "Amor à Vida", de Walcyr Carrasco.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

¨¨¨Landisvalth Blog: O dia em que Lampião assaltou Cansanção e fez jorr...

¨¨¨Landisvalth Blog: O dia em que Lampião assaltou Cansanção e fez jorr...:                                                               Oleone Coelho Fontes Lampião Antevéspera do Natal 1929. A data estigmat...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Rodrigo Santoro está em sete filmes internacionais, mas ganha pouco

                       MARCO AURÉLIO CANÔNICO – da Serafina Folha de São Paulo
Rodrigo Santoro
Sempre chega aquele momento na vida em que o sujeito precisa decidir se vai se casar, ter um filho e comprar "um pedaço de terra, com água, umas árvores, uma horta", ou se vai para a Califórnia (para Hollywood, mais precisamente), viver a vida sobre as ondas, ser artista de cinema, ser star.
Não que o ator esteja cogitando uma aposentadoria aos 38 anos. Na verdade, começou 2014 divulgando o último blockbuster de que participou, "300: A Ascensão do Império" (estreia em 7 de março), está filmando "The 33", sobre o caso dos trabalhadores que ficaram presos em uma mina, no Chile, e tem ao menos mais três filmes internacionais já rodados: o desenho "Rio 2", um faroeste com Natalie Portman e uma comédia com Will Smith.
Mas, com duas décadas de carreira nas telas –inicialmente nas de TV e, desde 1998, nas de cinema– e mais da metade desse tempo vivendo na ponte aérea entre os Estados Unidos e o Brasil, Santoro começou a sentir a balança profissional pender para o lado estrangeiro e ficou em dúvida sobre como equilibrar a instável rotina de ator internacional com seus projetos pessoais que exigem mais estabilidade.
"Acho que em toda a minha vida nunca questionei tanto onde estou, o que estou fazendo. Foram muitos anos que passei fora, trabalhando, e agora sinto um movimento um pouco mais aquecido, mais coisas chegando", diz, no estúdio carioca em que foi fotografado para a Serafina.
"Estou num momento delicado, tentando encontrar soluções para me estabilizar mais, dividir as viagens de forma melhor, passar mais tempo num lugar só. A questão é mais abrangente: a família, as vontades de qualquer homem. É hora de entender do que vou precisar abrir mão. Em 12 anos nesse vai e volta, tive muito tempo para pensar sozinho."
O que Santoro pondera é a diferença entre viver em sua terra natal, onde já é um astro -e onde estão sua família, seus amigos e sua namorada, a atriz Mel Fronckowiak-, e seguir batalhando nos Estados Unidos, onde sua carreira progrediu muito desde a tão criticada ponta (sem fala) em "As Panteras Detonando" (2003), mas não o suficiente para garantir que ele será algo mais do que um cometa fugaz.
"Uma coisa que é importante e que eu tenho feito cada vez mais é tentar avaliar as experiências que eu vou ter, as pessoas com quem vou trabalhar, o quanto aquilo vai me amadurecer", diz o ator.
"Minha trajetória tem me ensinado que isso é o que fica. Quando olho para trás, lembro dos exemplos, do que pude aprender enquanto estava filmando. Não exatamente o resultado do filme, não exatamente minha performance."
Essa filosofia explica desde sua participação em projetos de diretores como David Mamet (em "Cinturão Vermelho") e Steven Soderbergh (nos dois "Che", em que viveu Raúl Castro) até sua recente incursão por gêneros novos para ele, como o faroeste -no ano passado, filmou "Jane Got a Gun", que tem Natalie Portman e Ewan McGregor como protagonistas e estreia prevista para agosto.
No longa, o brasileiro interpreta pela primeira vez um personagem americano, outro sinal de progresso da carreira no exterior.
"Ele tem um nome irlandês, inclusive, Fitchum. Não mudaram para Juan ou José. E fiz um sotaque, do sul dos Estados Unidos. É um figuraço, um bandido todo esquisito, parte de uma gangue do Velho Oeste. Vamos ver o que virou."
O filme também foi uma aula sobre a instabilidade que volta e meia acomete produções hollywoodianas.
"A diretora [Lynne Ramsay] foi embora no começo da filmagem [substituída por Gavin O'Connor]. Alguns atores, como o Jude Law, que faria o antagonista, saíram. O roteiro foi modificado. Foi um processo muito complicado, de muita tensão e espera. Nunca tinha passado por isso. Até meu personagem, que era uma coisa, se transformou em outra."
Ainda na seara das novas experiências, o ator também rodou no ano passado a comédia "Focus", onde voltou a trabalhar com os diretores Glenn Ficarra e John Requa, os mesmos de "O Golpista do Ano" (2009), em que fez o namorado de Jim Carrey.
No novo filme, contracenou com mais uma das superestrelas de Hollywood, Will Smith, para quem só tem elogios."Sen-sa-ci-o-nal, em todos os sentidos. Acessível, gente fina, generoso, um grande companheiro de trabalho. Sem a menor dúvida, um dos caras mais legais com quem já trabalhei."
NÃO É PELA GRANA, BICHO
Mas Santoro ainda não consegue fazer tudo o que quer. "Já recebi vários 'nãos' em filmes que eu era a fim de fazer, coisas com que sonhei alto", diz, citando como exemplo "Diário de um Jornalista Bêbado" (2011), com Johnny Depp.
Quando traça os rumos de sua carreira, Santoro diz não atribuir muito peso ao fator grana. "Cara, é claro que o pagamento é importante, mas nunca foi minha prioridade. Até porque o salário que ganho lá fora está muito aquém do imaginário coletivo."
Membro do Screen Actors Guild (SAG), sindicato de atores dos EUA, na maior parte dos filmes, ele recebe o piso pela tabela da entidade -cerca de US$ 3.000 por semana, para filmes com orçamento a partir de US$ 2,5 milhões.
Santoro também considera que, dos 21 projetos internacionais de que participou (dois deles telefilmes), "os únicos mais comerciais foram o '300' [2006] e o 'Rio' [2011]", ambos blockbusters de estúdio, com continuações que estreiam em março.
E nem mesmo em "300 - A Ascensão do Império", sequência na qual seu personagem, o vilão Xerxes, tem mais destaque (e chegou a ser cogitado como protagonista), seu salário ganhou grandes acréscimos.
Sem entrar em detalhes, diz que a produção lhe valeu o maior pagamento nos EUA até agora. "E, mesmo assim, eu recebo mais para trabalhar em coisas aqui no Brasil, até em publicidade, do que nesses trabalhos que faço fora, mesmo em filmes grandes. Não é pela grana, bicho", diz, rindo.
O fato de receber o piso da tabela do sindicato dos atores é um indicativo do tamanho de sua fama no exterior. O relativo anonimato, por outro lado, traz a liberdade de poder circular sem ser reconhecido.
"Enquanto artista, é importante observar sem ser observado, para ver as pessoas se comportando de forma natural. O ator é um estudante de comportamento. Meus personagens são um mosaico das pessoas que eu já vi, já ouvi, e que me deixaram tocado, intrigado."
No Brasil, é claro, esse cenário não é possível há quase 20 anos, logo depois que Santoro saiu de sua Petrópolis (RJ) natal para fazer faculdade no Rio e acabou entrando na Globo e se tornando um dos galãs das novelas do canal. Tampouco ajudou o fato de ele ter colecionado namoradas famosas, como Luana Piovani e Ellen Jabour.
"Com público e fãs nunca tive problemas, sempre entendi isso como parte da equação. A maior questão foi a coisa da exposição da minha vida mesmo, dos paparazzi que te pegam quando você está em um jantar e não quer ser exposto. Às vezes, você ainda está conhecendo alguém e não dá nem tempo, bicho. Já saiu, já é."
Foi também para aprender a lidar com isso que Santoro entrou na terapia aos 20 e poucos anos e segue nela até hoje.
"Faço na medida do possível, mas é importante para mim. É a coisa do espelho, gosto de colocar para fora, de me entender um pouco."
Hoje é mais relaxado, respira mais, se atropela menos. "No começo sentia uma urgência em falar, em fazer, em planejar. Isso mudou. Acho que vem com o amadurecimento. Não sei se sou um melhor ator, mas sou um ator mais calmo. Amadureci."
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