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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Crônica: Alvorada e os 'cambuêro' de setembro

Prof. Marcos José
Era alta madrugada os fogos anunciavam a alvorada qual alvorada Ah sei anunciaram antes em alto e bom som eis a voz do locutor no carro de som bem posta e altissimamente forçada para o grave VEM AÍ A ALVORADA GRANDE MOMENTO DO NOSSO FEIIJÃÃÃÃÃÃÃOOOO FESTIIIIIIIIIIIIIIIII entendi tratava-se da abertura da Festa do Feijão ops, do Feijão Fest esqueci que alvorada nesses tempos de novo século tem outro significado acho que muitas outras palavras e hábitos mudaram também portanto a noite madrugada estava perdida não dormiríamos o que prestasse mas eis que ouço uma boa voz uma boa música desculpe-me não lembrar o nome do cantador aboiador mas como vivo do que sei e continuo aprendendo atualmente aboio pode ser ouvido em qualquer hora qualquer local é alvorada a propósito o que significa alvorada tanto no dicionário quanto na tradição fico somente por aqui com a tradição é um ritual religioso no momento da madrugada aproximando-se do nascer do dia que após o foguetório leram direitinho foguetório estou repetindo que é o ato de soltar foguetes após esse instante temos os louvores alguns cantados naquele momento somente e em procissão os fiéis mas voltando à nossa alvorada não hesitamos eu e minha parceira dissemos quase em uníssono vamos descer e lembrei do velho e atualíssimo ditado popular recheadíssimo de sabedoria SE TE DEREM UM LIMAO FAÇA DELE UM LIMONADA!!!! FIZEMOS deixamos o pequeno em casa cuidando do grande hehehehehehe e descemos a ladeira mas como estamos em tempos de mudanças de hábitos em plena luz do dia das nove horas da manhã inicio da missa eis que um cabra bota seu bilau pra fora na grade Sujeito pica o pau a mijá vixe maria esqueça o que escrevi o moço começou o ato de micção andestende pois é com aquela visão moderna atual a companheira do escrevinhador desse texto disse valei-me marcos o rapaz vai.....corre mulé vamu seguir nosso caminho ói a festa já cantavam o nosso amigo Alain Brasil e uma moça que não sei o nome e novamente peço desculpas vozes boas afinadas e uma banda alinhadíssima aliviavam nossas oiças pense numa banda boa e animada entretanto o que se via no chão da praça era muita gente bêbada sem falso moralismo viu minha gente não estou julgando somente descrevendo o que vi afinal festejar e beber e namorar e dançar é uma delicia mas a festa desse modo não era somente alegria mas muita sujeira e o que vimos de mais grave menores de todas as idades bença padinho Deus te abençoe bença madinha Deus te abençoe né que nos deparamos com afilhados menores acompanhados de seus amores também menores era a alvorada  será o anúncio de um novo tempo que chegou Zé Alain opa Alain Brasil foi embora chegou Pedro Costa vou dar um alô ao professor Marcos diz o locutor da festa aquele da empostação gravíssima ex-aluno e repete e repete grande figura da nossa cidade tive que levantar o braço feito aquele personagem que dizia me achou aqui carcará sanguinolento o que fazer... levantei e dei um tchauzinho deve ter sido minha roupa toda amarela e a testa reluzente que ajudaram na minha localização no meu achamento fomos nos escondendo da chuva era alta manhã setembrina da alvorada e o som continua dessa vez novos tempos novas práticas ao som de a muriçoca pica pica a muriçoca soca soca mãe e filha isso mesmo na boa ao som da muriçoca a menor com cerca de 05 aninhos sorridente e na moral marrenta só no molejo.
O lixo na alvorada sim alvorada feito pelos festeiros e pelas festeiras o mijo e o lixo a muriçoca faziam parte era da alvorada do Feijão Fest dois mil e quinze...
Ah, quase ia esquecendo os meninos e as meninas vestidas talequale garotos e garotas de programa nos tempos em que o professorescrevinhador tinha a mesma idade deles e delas outros tempos profi se liga véio
Ah.... o aboiador Alain Brasil a moça os meninos na alvorada

         MARCOS JOSÉ DE SOUZA, em dia de aula que os meninos e as meninas não compareceram à escola pois segundo eles e elas o Feijão Fest começou 
Fátima vinte e dois de setembro de dois mil e quinze

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Os seis mitos sobre a Independência do Brasil

                                        Hugo Araújo – do UOL
A figura imponente de Dom Pedro 1º em trajes militares, montado em um cavalo alazão e cercado por um grande número de guardas, eternizada no quadro "O brado do Ipiranga", de Pedro Américo, ainda permanece no nosso imaginário quando pensamos no 7 de setembro.
No entanto, a obra, encomendada por Dom Pedro 2º, quando os ideais republicanos já ameaçavam a monarquia brasileira, apresenta uma série de mitos em relação à cena, conforme afirma o jornalista Laurentino Gomes. Segundo ele, a cena real é "bucólica e mais brasileira do que a retratada por Pedro Américo".

O UOL listou alguns mitos e curiosidades deste episódio da história do Brasil. Confira abaixo:

1 O brado do Ipiranga aconteceu exatamente como no quadro de Pedro Américo?

Mito. "Nada daquilo é verdadeiro. O próprio Pedro Américo reconheceu que havia mudado elementos", afirma Laurentino Gomes. Segundo o jornalista, Dom Pedro não estava vestido como um príncipe real e sim como um tropeiro. Ele também não montava um cavalo alazão, como a pintura mostra, e sim um animal de carga, provavelmente uma mula. "A guarda de honra, que faz um semicírculo ao redor de Dom Pedro no quadro, não existia na época", afirma Laurentino.

2 Dom Pedro estava com dor de barriga no momento do grito de independência?

"Segundo uma testemunha da cena [o coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, subcomandante da guarda de honra e futuro Barão de Pindamonhangaba], Dom Pedro estava com dor de barriga", conta Laurentino. O príncipe-regente provavelmente comeu algum alimento estragado no dia anterior, em Santos, ou bebeu água contaminada das bicas que abasteciam as tropas. O fato é que, neste momento histórico, Dom Pedro estava com disenteria.

3 Professor ganhava menos que um feitor de escravos.

O lucro dos feitores de escravos era maior que o salário dos professores no ano de 1822. "Este dado é muito simbólico porque mostra qual era a situação social que a gente herdava da Coroa portuguesa. O Brasil tinha cerca de quatro milhões de habitantes e mais de 90% deles eram analfabetos. Isso demonstra a completa ausência de prioridade na educação", afirma Laurentino.

4 A independência sempre foi comemorada em 7 de setembro?

Não. Segundo Laurentino, na época, a grande discussão era se a independência do Brasil deveria ser comemorada em 7 de setembro, 12 de outubro (dia da aclamação de Dom Pedro 1º) ou 1º de dezembro (dia da coroação de Dom Pedro 1º).

5 Dom Pedro compôs o Hino da Independência no dia 7 de setembro de 1822?

Mito. "Isso não aconteceu. Você imagina um jovem príncipe cavalgando numa mula, empoeirado, cansado e quando chega a seu destino ainda é capaz de compor um hino de composição elaborada, como o Hino da Independência", afirma Laurentino. Segundo ele, o hino já estava pronto e Dom Pedro já teria partido do Rio de Janeiro com a música que seria executada àquela noite.

6 A independência trouxe profundas mudanças ao Brasil?


Mito. A realidade social do Brasil continua a mesma do período colonial. "A aristocracia rural escravagista decidiu embarcar em um projeto de manter Dom Pedro no trono, manter a monarquia, impedir que o Brasil se tornasse uma república e não abolir a escravidão. A estrutura social se mantém inalterada, nada aconteceu [após a independência]", explica Laurentino.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Currículo escolar do Ensino Médio na Bahia: implicações político-administrativas e intenções político-filosóficas.

Prof. Marcos retratado no Jorro
                                                        Marcos José de Souza
A educação em tempo integral volta à tona em minhas reflexões
Nesta oportunidade início uma análise do Programa Educacional do Governo do Estado da Bahia tendo como objeto, para o texto aqui em construção, a reportagem publicada no Jornal Correio, Caderno Mais, seção Educação Bahia, com título “Desempenho de escolas vai render bonificação”, p.37-7, de 31 de março de 2015, escrita por Thais Borges. O próprio plano será objeto de análise posterior servindo este momento para conhecer o modo como um jornal impresso, conhecido e tido como de oposição ao atual comando político do Estado da Bahia, expõe uma divulgação de um programa de política pública – de governo ou de Estado!
A matéria apresenta-se com o subtítulo “Governo premiará professores e gestores que melhorarem notas”, A autora ainda “subdivide” o texto com os seguintes itens - após 03 (três) parágrafos introdutórios: CONCORRÊNCIA, METAS, EIXOS. Em meio à exposição das colunas do texto vê-se um quadro com números sobre informações desenvolvidas, duas citações e uma foto com um momento do evento de lançamento do Programa. A conclusão da reportagem dá-se com o registro da fala de prefeitos de diversos partidos que participaram do evento, acontecimento do qual o texto tem a sua razão de existir.
    O assunto da reportagem aparece no final do 1º parágrafo, trata-se do programa Educar para Transformar: Um pacto pela Educação, lançado na sede do SENAI, no bairro de Piatã, na capital baiana. A iniciativa governamental visa a melhoria substancial da Educação na Bahia (uma das piores do Brasil, para um Estado dentre os mais ricos da Federação, a despeito de tantos pobres, analfabetos e desprovidos de centros de arte e cultura como cinema, museu, biblioteca e teatro).
    O programa tem a duração de 04 (quatro) anos – a reportagem não explica por que esse tempo tão curto – e tem a participação efetiva dos demais gestores municipais, dos outros envolvidos diretamente com as escolas e também com as universidades baianas. Segundo a autora do texto o foco do programa é a premiação.
    No 1º item “Concorrência” destaca-se a presença considerável dos municípios, dos 417, 309 tiveram representantes no lançamento do Programa. Outro destaque desse item é a supervalorização à premiação dos melhores, não somente as escolas e municípios que alcançarem os melhores índices e taxas, mas também aqueles que apresentarem progresso, isto é, ascendência nos índices e taxas, mesmo que não fiquem entre as melhores.
    O texto não apresenta o que o governo do Estado fará com aqueles que estagnarem, entre os que descerem, ou os que permanecerem com defasagem nos aspectos avaliados e que servirão de parâmetros para as premiações. Isto é, premiação para os melhores e nada para os não-melhores? O mesmo tratamento para os desiguais?
    Para o item “Metas” é apresentada a principal delas que “é fazer com que todas as crianças com idades (sic) até 8 anos estejam alfabetizadas, ao final do período” (p.36). Ora essa meta é do Pacto Nacional para a alfabetização na idade certa, o PNAIC, que é um programa/iniciativa do Ministério da Educação, já em vigor e em pleno funcionamento desde o ano de 2013. A reportagem ilustra essa preocupação/anseio do governador com números, citando alguns dados de avaliações oficiais, os quais demonstravam grandes necessidades dos nossos estudantes nas áreas de Matemática, leitura e escrita.
O ponto principal do Programa e o Terceiro item do texto é denominado “Eixos”, onde em 04(quatro) parágrafos, a autora propõe-se a elencar e discorrer um pouco sobre os 05(cinco) eixos, os quais são também denominados de “ações” e “pontos” – não consegui visualizar todos, pois a autora, para o terceiro eixo, confunde o leitor, não destacando-o, como faz com os demais, ao utilizar o substantivo mais recorrente e que dá nome ao item do texto, EIXO.
As ações, por eixo são as seguintes:
1ª. “Formação continuada de professores e coordenadores, “distribuição de livros,” assessoramento técnico e transferência de tecnologia”. (p.37)
2ª. “... Valorização de profissionais, bem como promoção da diversidade e inclusão...”(ibidem)
3ª. “... o crescimento da oferta de vagas de educação integral.” (ibidem).
4ª. “... aumento de vagas na educação profissional...” (ibidem).
5ª. “... integração com as famílias.” (ibidem).
    À guisa de conclusão a reportagem apresenta pequenos trechos de falas de alguns prefeitos e prefeitas que participaram do evento, iniciando por Antônio Carlos Magalhães Neto democratas (DEM), capital, Ivan Cedraz e Maria Quitéria, respectivamente dos municípios de Piritiba e Cardeal da Silva, ambos do PSB, o Socialista Brasileiro e, por Santa Maria da Vitória, pelo Partidos dos Trabalhadores, Omário dos Santos. Quanto aos destaques nas falas, o prefeito da capital ressaltou a importância do programa e que sua implantação independe das diferenças partidárias, enquanto os demais reforçaram tanto o discurso, quanto o desejo e a necessidade de mais investimentos dos governos federal e estadual nesta área, a educação.
Para dar um pouco mais de “tempero” ao texto, leia-se, choque de realidade, vamos destacar alguns elementos do cotidiano da escola pública baiana e tentando relacionar com os eixos elencados acima.
O primeiro e o segundo eixos incidem sobre o profissional da educação, notadamente o professor/a professora que durante os 08(oito) anos da gestão de Jaques Wagner não mudou em nada o cotidiano deste profissional. Quando faço referência a este aspecto, me refiro muito mais à carga horária de trabalho, excessiva, e muito menos ao salário, que não anima ninguém a seguir esta carreira profissional, o magistério. Sei das nossas obrigações que do caminho de 23(vinte e três) anos de trabalho, um Mestrado e duas Especializações, sempre em instituição pública, vi o poder salarial cair vertiginosamente. Entendo que herdamos um Estado dilapidado – para usar uma expressão às avessas aos ourives, mas também não precisava ignorar uma iniciativa dos “estragadores”. Faço referência à certificação ocupacional, realizada a cada 03 anos e que nos dava um direito de aumento no vencimento, aliado a um documento, a certificação. Substituída por uma formação on line, em acordo assumido pelo sindicato da categoria, o qual ainda não acabou, com um agravante: curso ofertado após uma greve histórica de 100 dias para que um aumento legal fosse praticado.
Sobre a educação integral, tão cantada em verso e prosa pelos arautos da educação contemporânea, peço licença para usar esse termo aqui para dar-lhe o sentido de aquilo que é realizado nos dias atuais: o governante assume desconhecer os prédios, o quantitativo de funcionários de todos os setores de uma escola, o quantitativo de professores e de professoras, enfim, DESCONHECE o que seja educação integral. Não dá para realizar um projeto dessa envergadura com nossa paisagem escolar. Uma das grandes ausências no texto é a referência ao Pacto do Ensino Médio, o qual incide diretamente no nível de ensino de responsabilidade do governo do estadual, o Médio. Também de iniciativa do governo federal, assim como o da Alfabetização na idade certa, ambos têm seus parceiros com os demais entes federados: o ensino médio com os Estados e a alfabetização com os municípios
Por fim quero destacar o “lema” do Programa, EDUCAR PARA TRANSFORMAR, que deveria ser EDUCAR PARA HUMANIZAR, pois a ideia de transformação veiculada pelos órgãos oficiais de imprensa está relacionada à de ascensão profissional. Uma tese que privilegia a concorrência, prática que desumaniza, pois quem concorre vê sempre no outro um adversário. Portanto, tem o desejo de vencê-lo, até mesmo de eliminá-lo.
Sei que o mundo ocidental exige um indivíduo dotado de saberes, mas este potencial não pode servir para uma disputa, muito pelo contrário, deve servir para a comunhão, a multiplicação, para a humanização.
Pensando nisso, proponho que o governo do Estado canalize seu programa para o currículo, inclusive fazendo uma mudança paulatina e de convivência com práticas atuais, principalmente no tocante às matérias de estudo ofertadas no Ensino Médio, onde o estudante “estude” temas, de livre escolha, mas com critérios mínimos de estudo já estabelecidos tanto pela legislação, quanto pelas Diretrizes e Parâmetros Curriculares, a saber: quantidade de horas/dias letivos; conhecimentos mínimos – por área; entre outros.
Basicamente nossa ideia de reformulação curricular assentada no ensino por temas é a seguinte, cujo cerne já está em funcionamento dentro do âmbito de 03(três) matérias curriculares, a saber: LINGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA, REDAÇAO E SOCIOLOGIA. Elas formam o projeto de estudo denominado NA TRILHA D’OS SERTÕES. Neste projeto de estudos, cujo ponto de partida é o livro OS SERTÕES, de Euclides da Cunha. São desenvolvidas leituras do livro, em casa e na classe, com discussão sobre a linguagem e as informações que ele apresenta; produção de textos, do tipo resumo, dissertação, poema, entre outros; exibição de filmes, desde clássicos como DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Rocha, ao mais recente como o curta-metragem NA TERRA DO SOL, de Lula Oliveira; viagens aos locais do conflito que deram origem ao livro; o papel político-social de Antônio Conselheiro; a religiosidade do povo sertanejo; o cenário político do período em que o livro foi escrito; dentre outras atividades.
Um curso como esse, deve ser discutido com os pares e demais interessados na escola e ofertados na matricula do estudante. Com carga-horária indicada, tanto de horas-aula semanais, quanto a de semanas letivas. Como podemos observar, o referido curso, contempla duas grandes áreas de estudo, a de LINGUAGENS e a de CIENCIAS HUMANAS e, dentro delas, as disciplinas mencionadas (inclusive outras poderão ser contempladas como, Biologia, Geografia, Filosofia, etc.). Outros cursos devem ser ofertados para que o estudante contemple o mínimo de horas estabelecido por lei, atualmente com 25 horas semanais, sendo 05 diárias. Esses cursos podem ser conduzidos por um ou mais professores, dependendo da organização e orientação de cada unidade escolar.
Texto não revisado pelo autor

Fatima, Bahia, julho de 2015, chuva fina, muito frio.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Conto: O preço da digestão noturna

                                                                                          Natã Santana
Já acordou incontrolavelmente feliz e foi direto circular o tão esperado 17 de fevereiro no calendário da parede rosada. Desejava mais que tudo ser surpreendida e sabia que teria de esperar o dia inteiro, afinal surpresas de aniversário raramente acontecem sob a luz do sol. Completava seu décimo-oitavo ano e nada poderia deixa-la mais feliz. Tinha um namorado bonito, uma família acolhedora e uma coleção de sapatos extraordinária. Só faltava mesmo a tal liberdade que acabava de bater à porta. Agora já era responsável por si mesma e poderia definir seus caminhos.
Quando o velho relógio da sala bateu a nona hora daquela meia manhã de domingo, resolveu sair do quarto e receber as primeiras felicitações do dia, que certamente viriam acompanhadas de um reforçado café da manhã feito pelas finas mãos de dona Rita, sua mãe e maior defensora. Mas antes de qualquer coisa, refletiu sozinha por mais uns instantes. Olhou as fotos de colégio estampadas no pôster da parede, releu as palavras orgânicas de seu diploma de ensino médio e chorou ao lembrar de todas as aventuras que selaram seus incríveis anos escolares, encerrados naquele mesmo verão. Agora tudo seria mais sério. Era hora de tomar seu espaço no mundo e se tornar mulher.
Assim que trancou a porta do quarto e abandonou lá dentro seu momento de nostalgia aflita, percebeu que, no corredor, todas as outras estavam abertas. Ao passar pelo primeiro quarto, viu que dona Rita já havia levantado, e como seu pai raramente dormia em casa não havia mais ninguém que pudesse encontrar ali. Imaginou então que ela já pudesse estar nas tarefas diárias e continuou a vistoria. No segundo quarto, o de seu irmão Pedro, também não tinha ninguém, e por fim, o de Joana, que encontrava-se igualmente vazio. Imaginou que decerto todos a aguardavam na cozinha com uma bela surpresa de café da manhã e desceu as escadas ainda mais apressada e ansiosa.
O silêncio na casa era infernal e até a rua parecia não emitir ruído algum. Na cozinha, nada nem ninguém. A decepção foi involuntária e a necessidade de receber o primeiro sorriso do dia só aumentava. Retornou então para o quarto e lá se trancou imaginando que destino poderiam ter tomado todos. Depois de alguns minutos elaborando hipóteses, incluindo a de estarem armando uma surpresa como nunca feita em outros aniversários, ela resolveu ceder à praticidade da tecnologia. Primeiro ligou para dona Rita; depois para Joana e Pedro; e por último para Ronaldo, o namorado; mas, para cada tentativa, a mesma contrariedade. Todos os telefones tocaram dentro dos respectivos quartos de seus donos, com exceção do de Ronaldo, cuja ligação nem chegou a ser completada. Ela, ainda que muito decepcionada e pouco esperançosa, voltou para a cama pensando no momento em que trouxessem-na a alegria do dia, e enquanto pensava, um leve sono a tomou delicadamente.
Por volta das 10 e meia daquela mesma manhã, quando o breve cochilo a deixou e a cama já lhe parecia incômoda o clima parecia ser outro. O quarto estava frio e as cortinas da janela ferviam numa inquietude dançante. O silêncio ainda era o mesmo, tanto na casa quanto na rua. Nenhuma pena cairia sem que se pudesse ouvir, mas nada caia, nada mudava, nada se movia, a não ser as cortinas e o vento que as estimulava. Ela levantou ainda meio monótona e um pouco faminta e quando empurrou as cortinas para observar o que calava o clamor diário das ruas permaneceu atônita por algum tempo até acreditar no que acontecia lá fora. O calor de verão, que se fazia intacto horas atrás, havia se submetido ao frio mais inoportuno que já presenciara, e o branco da neve que caia começava a pintar a rua e queimar as folhas do velho cipreste na esquina da rua Fortunato Ribeiro.
Ela nunca vira nevar em toda sua vida, tinha certeza que aquela região jamais permitiria tal feito da natureza, muito menos sob a influência daquela época. O dia estava, de fato, ficando cada vez mais louco e era difícil saber o que a assustava mais: a neve de fevereiro ou a estática das ruas, onde nada, além da própria neve parecia respirar. Nenhum carro, nenhuma moto, nenhum cachorro mijando nos postes, ninguém.
Depois de alguns olhares duvidosos pelo vidro embaçado da janela, ela resolveu que olhar não era suficiente. Desceu as escadas ainda mais apressada que da última vez, e, sem ao menos verificar se alguém já havia voltado, partiu em direção à rua.
Assim que abriu a porta, a estranheza foi imediata e radical. Nunca tinha experimentado um ar tão seco e gélido como aquele, e por isso, achou melhor tomar um dos casacos pendurados na porta. Tocou, ainda que incrédula; cheirou, ainda que sem aroma; provou, ainda que sem sabor; brincou, e até fez seu primeiro anjo de neve como sempre planejara caso algum dia viajasse ao exterior; e quando enfim, adaptara-se parcialmente com a ideia de estar andando sobre a neve, percebeu que haviam coisas igualmente estranhas a observar. A rua continuava parada e a cada novo floco que caia, tudo ficava mais sombrio. O desespero começava a achar lugar no único coração que ainda batia. Ela olhava atenta para todos os lados a procura de qualquer vestígio de vida, mas tudo continuava imóvel e gelado.
Estava realmente difícil imaginar uma justificativa lógica para um enredo tão dramático. Era uma cidade razoavelmente grande e não se encontrava um pé de gente, nem nas ruas, nem nas casas. Quando gritou pelos vizinhos, ninguém respondeu; quando percorreu quase todo o bairro, a ninguém encontrou. Andou, correu, chamou... mas só o próprio eco lhe respondia, e a neve continuava a cair. 
Perto das 2 horas da tarde, quando já desistira de tentar entender o que aconteceu com todo mundo no dia mais estranho de sua vida, também desistiu de procurar e gritar. Sentou em um dos 24 bancos do parque Dávilas` Caus e ali ficou esperando que Deus pudesse ouvir suas preces angustiadas.
O parque era grande e muito bem frequentado em dias comuns, mas naquele dia a solidão o tomara por completo e o vazio se mostrava tão intenso quanto a frieza do laguinho congelado. Nem parecia o mesmo local. Com a cabeça baixa, os cabelos cobertos pelo capuz de seu casaco vermelho e as pernas bem ajuntadas, sentada ela continuou. Até que não pôde mais se conter de tristeza e desprezo e quebrou o bruto silêncio que cercava seu mundo sem vida com o barulho de um choro soluçante. A menina que achava ser mulher desabara como menina novamente, mas dessa vez não teve o colo de ninguém para ampará-la.
O dia continuou indiferente à data, e quanto mais tempo se passava, mais peripécias a vida lhe revelava.
Não demorou para que as lágrimas cessassem, e assim que cessaram ela percebeu que lá no fim da avenida vazia, uma enorme árvore se destacava. Ainda estava muito longe, mas de cara qualquer um saberia que era uma árvore, pois seu verde refletia a quilômetros sobre o branco que já cobrira todo o chão, e ainda assim, a árvore permanecia intacta ao frio, como se estivesse no ápice da primavera mais promissora. Ela levantou-se do banco de concreto resfriado e seguiu a avenida em busca de sua mais nova descoberta.
À media que se aproximava da árvore, ela concluiu que se tratava de uma magnifica macieira, com frutos fartos, graciosos, e o mais fascinante: azuis. Isso mesmo! A macieira era gigantesca e as maçãs eram de um azul tão intenso que podiam ser vistas mesmo quando contrapostas às folhas. A copa da árvore era perfeita e se distribuía igualmente tanto para esquerda quanto pra direita, e seus galhos tão longos que alguns desciam até quase tocar o solo. O tronco era rústico e muito largo, e nele uma curta inscrição entalhada: “satisfaça-se”.
As maçãs eram lindas e pareciam extremamente deliciosas, e ela estava sem comer desde que acordou, mas antes de obedecer à ordem que lera no troco, notou mais uma excentricidade da ocasião: a árvore estava exatamente no meio de um importante cruzamento entre duas avenidas conhecidas por ela, e por onde havia passado dias antes, por isso deduziu que ou a árvore foi construída artificialmente ou nascera de forma sobrenatural naquele local. E poucas coisas a assustavam tanto quanto o sobrenatural. Resolveu então, não comer e sentou-se para descansar ali mesmo.
Passou-se mais uma hora desoladora e a fome continuava ferrenha. Depois de muito pensar ela decidiu que nevar no verão e nascer árvore no meio do asfalto já eram anomalias demais. Viu que estar sozinha, de uma hora pra outra, numa cidade deserta e descansar debaixo de uma macieira de maçãs azuis também não era nada comum. De qualquer forma, estava cercada de esquisitices que não tinham explicação. Certamente sobreviveria a algumas mordidinhas se tentasse. E resolveu que tentaria. Tomou duas das tantas que estavam ao seu alcance e as degustou gulosamente. Não poderia ter sido melhor. Dentre tantos infortúnios que fecundaram o dia, aquela refeição fora a única coisa adorável para com a solitária aniversariante.
Assim que satisfeita, retomou sua disposição e continuou sua caminhada pelas ruas desertas tentando, de qualquer forma, encontrar alguém a quem pudesse pedir explicações sobre a loucura do dia ou com quem pudesse descarregar seu medo de ficar sozinha para sempre. Mas, por mais que tentasse incansavelmente, não sustentava grandes expectativas. E a cada minuto, tudo ficava menos afetuoso.
Uma hora antes do crepúsculo, quando inexplicavelmente a neve começou a se desfazer, ela deparou-se com um enorme muro de pedra no final de uma rua por onde nunca tinha passado. Mas não havia portão nem grades, então ela pensou que se quisesse conhecer o que havia além das pedras, deveria seguir até encontrar a entrada. E por alguma razão, sentiu vontade de saber o que guardava um muro tão alto. Muita vontade.
Andou tanto que quando finalmente achou a entrada o crepúsculo já começara, e da neve quase mais nada ainda restava. O portão de entrada era ainda mais alto que o muro e sobre sua haste principal estava escrito tudo que precisava ser dito para atiçar ainda mais a curiosidade de um visitante: “Só você ainda não viu. Bem-vindo à morada dos memorandos”. Logo que leu a saudação e observou a suntuosidade do portão, ela decidiu automaticamente que aquele era mais um fenômeno criado por forças desconhecidas, assim como a neve e a macieira. E exatamente como brincou com a neve e comeu as maças, também passou pelo portão, que abriu sem precisar do mínimo toque de suas mãos.
No interior, ela encontrou o jardim mais belo entre todos os mais belos que conseguiria imaginar, mas infelizmente não poderia percorrê-lo por completo já que o sol oferecia seus últimos raios do dia. O jardim dividia-se em duas partes: uma do lado direito, com flores de todos os tipos e árvores podadas em formato de animais; outra do lado esquerdo, com um lago cristalino rodeado de rosas amarelas. Ao centro, apenas uma pequena árvore com ramos de samambaias estendidos sobre seus galhos floridos que ofereciam sombra a quem se deitasse sobre os lençóis vermelhos da cama que havia sido posta embaixo da árvore. Havia também um longuíssimo tapete aveludado de cor branca que dividia os lados do jardim e ia do portão de entrada até os pés da cama. Mas poucas coisas chamaram tanto a atenção da visitante quanto as estátuas de bronze polido postas ao lado de que cada arbusto e embaixo de cada árvore, com exceção da que ficava no centro do jardim. Na verdade, o que mais havia ali eram estátuas e como não dava para visitá-las todas e descobrir a quem faziam referência, ela resolveu andar até o centro e olhar apenas as que estavam próximas ao tapete.
Assim que observou a primeira delas, percebeu que estava em homenagem ao famoso Ramilo Donato, um locutor de rádio famoso em sua cidade. Em seguida achou a de um homem desconhecido, e isso aconteceu muitas vezes, pois haviam muitas estátuas e não teria como conhecê-las todas. Continuou o percurso olhando a todas que alcançava e quando estava quase na metade ficou surpresa ao observar uma que lhe era bem familiar. Ao se aproximar, testificou que não era só parecida, mas se tratava exatamente da estátua do seu João Guilherme, o dono da padaria que ficava próxima de sua casa. E a partir de então ela se assustava cada vez mais, pois cada nova estátua representava com exatidão uma pessoa de seu dia a dia, e a todas ia conhecendo. Passou pelo dono do mercado, pelo filho do vizinho, por dona Marli, a professora de infância, e até pelos colegas de escola. As lágrimas já escorriam quando ela começou a perceber que ali estavam todos os habitantes da cidade, mas o choro inflado só veio mesmo quando estava quase chegando ao centro do jardim e encontrou as estátuas de dona Rita, de seu pai e de seus dois irmãos já pertinho da árvore das samambaias. Estavam com um aspecto ameno, quase todos com um meio sorriso que doía a cada olhar, mas ela continuava olhando e chorando até quando não pode mais e se sentou sobre a cama para recuperar as forças. Foi quando olhou para cabeceira e ali estava mais um recado escabroso: “Reservado para o sono profundo do seu décimo-oitavo aniversário”.
Ao ler a última inscrição, o pânico já não lhe pôde dominar, pois a dor e a tristeza já a tinham levado. Ela dormiu ali mesmo, na cama que desde o princípio estava reservada para si.
No dia posterior, ela abriu os olhos lentamente e ainda meio atordoada levantou chorando, mas seu namorado, dona Rita e seus irmãos já a esperavam de pé ao lado da parede rosada para circular o 17 de fevereiro juntos na folha do calendário. Ao perceber que estava assustada, Ronaldo a abraçou e perguntou o motivo das lágrimas, mas foi surpreendido quando ela falou sobre estátuas, neve e solidão. Ele então a consolou e pediu que se acalmasse, pois o domingo acabava de começar e todos estavam ali para proporcioná-la o melhor aniversário de maior idade que alguém poderia ter. Dona Rita abriu a janela, mostrou-a que o sol já brilhava forte desde muito cedo e olhando-a fixamente, falou:
— Tá vendo sua teimosa?! Eu avisei pra não exagerar na janta.
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  Natã Santana é estudante de Letras da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Autor do romance inédito O epitáfio. Natural de Heliópolis, foi estudante do Colégio Estadual José Dantas de Souza.