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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Revivendo a Guerra do Contestado IV


           A GUERRA
PARTE I
Do portal: HID0141 HISTORIA LICENCIATURA(http://hid0141.blogspot.com) – de EDSON DAY.
José Maria, O Monge - Líder dos camponeses na Guerra do Cointestado
      Os anos de 1912 a 1915 marcam a História de Santa Catarina com uma convulsão social armada que escreveu páginas de horror e de ódio no Vale do Iguaçu, ao Norte; pelo Planalto de Lages, no Centro-Sul; e nas terras de todo o Meio-Oeste. As bases do conflito sangrento se estruturaram ao redor de uma legião de fanáticos religiosos composta por agregados das fazendas dos coronéis; por ex-operários demitidos ao terminar a construção de uma estrada de ferro; por “sem-terra”, ex-posseiros varridos dos seus lotes; por ervateiros sem erva para colher; por dezenas de pequenos proprietários expulsos de seus pinheirais; e por gente que perdeu seu pequeno negócio. Toda essa gente cabocla, fora das leis da economia agropastoril, vive na região do Contestado, uma “terra de ninguém”, marcada pela persistência de uma velha rixa de 150 anos entre o Paraná e Santa Catarina, com a autoridade discutindo se os limites geográficos devem ou não ser molhados pela margem esquerda dos rios Negro e Iguaçu.
DILEMAS DE UM CONFRONTO ARMADO
Conflito social, revolução, banditismo
Nos primeiros anos deste século, o Vale do Iguaçu, o Planalto de Lages e o território do Meio-Oeste de Santa Catarina são atingidos por uma convulsão social armada que aniquila a convivência entre os diferentes grupos humanos e desmonta a vida econômica de toda a região. As bases do conflito se estruturam ao redor de uma legião de agregados nas fazendas dos coronéis; de ex-operários demitidos da construção de uma estrada de ferro; de posseiros varridos do lote que ocupam; de ervateiros sem erva para colher; de pequenos proprietários que perderam seus pinheirais. E de toda a espécie de gente fora-da-lei porque vive nas terras contestadas pela velha rixa de 150 anos entre o Paraná e Santa Catarina, por conta dos limites geográficos. Todos esses miseráveis, filhos de Caim, encontram esperanças e abrigo nas prédicas e nos remédios que o andarilho José Maria vai distribuindo pelas veredas empoeiradas de todo o Contestado. Um dia, o andarilho, transformado em monge, e um grupo de devotos resolvem acampar no cantão de uma fazenda cedida pelo proprietário, entre Curitibanos e Campos Novos. A incômoda presença dessa pequena legião de excluídos socialmente é tomada como o início de um possível conflito social e coloca em sobressalto as autoridades de Florianópolis, de Curitiba e do Rio de Janeiro. Curitiba conclui que o acampamento é uma estratégia de Santa Catarina para garantir a posse de um território que não lhe pertence. O Exército Nacional, por sua vez, se apavora diante da perspectiva do surgimento de um Canudos aqui no Sul. E Florianópolis teme um enfrentamento entre os coronéis e os caboclos. A tática de dissolver a organização da miséria pela força das metralhadoras e das balas do canhão transforma o presumido conflito social e político numa revolução entre as Forças Armadas e o povo. E descamba na lógica de um banditismo descontrolado, uma guerra de guerrilhas que ainda não foi devidamente bem-contada.
RESISTINDO A FACÃO
Depoimento de João Maria Palhano, filho de jagunço, “gente valente”.
“A guerra quase nos matou de tanta fome. Não fosse a caça e o gado encontrado nas propriedades ninguém tinha resistido. Do jeito que os mais velhos contaram, aqui em Taquaruçu tinha um acampamento igual aos dos colonos sem-terra que andam por aí ocupando fazendas. Era gente chegando de todas as partes. As forças do Exército queimaram tudo - a igreja, as casas, o armazém. Foi tudo pelos ares. Não ficou quase nada. Dentro da capelinha tinha uns parentes nossos. Eles arderam no fogo. Também tive uns tios que morreram no combate do Irani. Se meu pai não se escondesse no mato, todos nós teríamos sido fuzilados pelos soldados. Eles não poupavam ninguém. Morreu gente barbaridade. Até bucha de canhão encontramos lá no local do reduto. Dentro tinha 157 bolas de chumbo. Cada bola que só vendo. Onde estourava aquilo, Nossa Senhora. Imagina o estrago que fazia. E os caboclos resistindo a facão. Como é que pode?”
APRESENTAÇÃO
A extensa região de Santa Catarina, serra acima e planalto afora, entre os rios do Peixe e o Peperiguaçu, continua praticamente despovoada até começos do século XX. Fazendas e pastagens são disputadas pelo gado, pelo agregado - o trabalhador que cuida das pastagens. Mas também pelo coronel, dono das terras, das pastagens e do agregado. Terras sem Deus, sem lei e sem rei - apesar de muitos coronéis -, nos anos 10 deste século, incendeiam a paisagem e todos os homens do lugar, com a revolta armada de uma legião de excluídos. Desde o começo da década a região é percorrida pelo andarilho José Maria. Ele distribui remédios, prega as verdades do Evangelho e prevê o fim do mundo para quem não se dedicar a Deus. Centenas de devotos grudam-se nos passos e nos sermões do andarilho transformado em monge. O monge e o grupo de fanáticos e seguidores instalam-se no quadro santo de Taquaruçu, município de Curitibanos. As autoridades se assustam com a reunião de tantos pequenos fazendeiros e peões e com o estranho comportamento do monge, que exige deles uma disciplina de convento e de quartel. José Maria e os fiéis seguidores cruzam o Rio do Peixe e se transferem para o Irani, nas terras que o Paraná afirma serem parte do seu território. As autoridades policiais e militares insistem que o grupo se desfaça. A reação é ostensiva e explode o enfrentamento armado. Durante quatro anos o Exército Encantado de São Sebastião reage, derrota, mata e morre. Em desespero, o Exército e a Polícia Militar de Santa Catarina e do Paraná aplicam o princípio da terra arrasada e da solução final, inclusive com a utilização de aviões. A Guerra do Contestado acabou como termina a noite: sem tratados, sem acordos, sem ata de rendição, sem vitória e sem glórias. O soldado regressa ao quartel. O revoltoso - sobrevivente aniquilado - ainda hoje se espalha pelas terras que lhe haviam custado quase todo o sangue.  
A GUERRA INÚTIL
Depoimento de João Paes de Andrade, o João Ventura.
“Eu falo a verdade sobre a Guerra do Contestado porque estive lá. Com os meus olhos avistei o povo, as lutas. Presenciei a organização dos redutos, onde os devotos do monge se abrigavam para uma espécie de vida em comunidade, obedecendo a uma disciplina misto de quartel e de convento. Bati tambor, puxei cânticos, ouvi rezas. Passei a vida contando esta história para meus filhos e meus netos. Espero que eles passem os fatos adiante para que os seus descendentes conheçam a história da nossa gente. A luta não valeu os sacrifícios. Não prestou para nenhum dos dois lados. Foi um banditismo. O governo com aquelas armas de fogo. Os caboclos com paus e facões. Algumas vezes se conseguia armas de fogo. E, aí, os estragos não respeitavam ninguém. Meu pai era um homem rico. Foi morto numa tocaia. Mesmo depois de tudo passado, ficava a raiva entre as pessoas. Eu, pelo menos, não consigo esquecer. O fim da guerra não acabou com o ódio entre as pessoas. Muita gente ficou do lado dos caboclos. Mas muitos outros ficaram com o governo. Nossa família perdeu tudo o que tinha. Meu irmão foi capitão a favor dos jagunços. Ele chamava-se Guilherme. Era um homem valente. Tudo não adiantou nada.
DÚVIDAS E INCERTEZA
De uma crônica do Jornal do Comércio, de Curitiba, 5 novembro, 1864.
“Muitos paulistas empreendedores, depois de insano fatigante trabalho, depois de repetidas tentativas, descobriram afinal os Campos de Palmas, que lhes aumentaram as posses. Quais Colombos em miniatura hastearam no solo virgem das pegadas da civilização o estandarte da conquista feita aos selvagens. Estabelecido o direito de propriedade, dividiram proporcionalmente o achado e entraram na posse das novas terras. Não edificaram por lá ‘novo império que tanto sublimaram’, mas construíram palhoças que são hoje, se não sublimes, pelo menos importantes fazendas de criação de gado. Com o suceder dos anos, as posses foram transferidas a outros, divididas e subdivididas. E os campos povoaram-se com rapidez. Se para a descoberta dos Campos de Palmas só concorreram os paulistas, a que província deverão eles ficar pertencendo, especialmente não existindo limites? O bom senso responde. Os habitantes ali domiciliados ficaram sujeitos às autoridades de São Paulo e, a partir de 1853, às do Paraná. A presunção de direito, proveniente da posse sobre as terras de Palmas, tem que ser respeitada, porquanto, o que existe são dúvidas e incertezas sobre os verdadeiros, os justos e os convenientes limites, ainda não firmados.”
O ESTADO-ILHA
Parte de um discurso pronunciado na Assembléia Legislativa Provincial de Santa Catarina, na sessão de 10 de março de 1880, pelo deputado Eliseu Guilherme da Silva.
“O assunto principal, cada vez mais importante, cada vez mais vital e inadiável, porque o adiamento importa em longos anos de atraso e de miséria para a nossa pobre terra, prende de há muito a atenção desta província, clamando por uma solução. Trata-se de uma questão clamorosa e que brada aos céus pela injustiça altamente revoltante que encerra contra nós. É a velha questão de limites com a Província do Paraná. É essa espoliação, é essa tentativa de esbulho do nosso território, atentado inaudito, que fez um representante do Paraná, juntando o escárnio à afronta, exclamar em plena Câmara dos Deputados: “A Província de Santa Catarina seria muito feliz se o seu território se limitasse ao Desterro”. Esta proposição demonstra até que ponto levam os paranaenses as suas pretensões de absorção. Eles julgam-nos tão miseráveis, ou tão desprotegidos que entendem que seremos muito felizes se o nosso território se limitar somente à Ilha onde está localizada a Capital. Realmente, esbulhada a Província de Santa Catarina do seu centro em favor do Paraná, ela será muito feliz se a limitarem só ao Desterro. Figurai-vos, porém, a província circunscrita a esta Capital ou pouco mais, depois da absorção, e vede se ela poderá continuar a ocupar a categoria de província, se terá recursos para isso, se não terá de desaparecer. Aquele deputado, pois, concluiu muito bem dizendo que seremos muito felizes se, após a absorção do centro pelo Paraná, ficar a província reduzida somente ao território da Capital, será ela muito feliz se de todo não desaparecer. Ante tão terrível ameaça não podemos cruzar os braços; trata-se de defesa própria, trata-se de manter o império da lei. É a lei, e principalmente a lei fundamental do Estado, a Constituição do Império, que garante à Província de Santa Catarina a integridade de seu exígüo território, como já o demonstrou brilhante numa importante série de artigos, que correm impressos, o nosso distinto colega doutor Mafra. Cumpro, pois, um dever vindo a esta tribuna, para tratar de tão grave assunto, reclamar o cumprimento da lei em prol de nossa desditosa província, que se fosse grande e poderosa, se ela se impusesse, como suas vizinhas, não se veria tão menosprezada, nem sob o terrível vaticínio, a que há pouco me referi, do deputado paranaense. Infelizmente parece uma verdade que, até com relação às províncias, a lei deixa de ser igual em seus efeitos quando se trata de grandes e pequenas.”
A CLAREZA DAS CONFUSÕES
Felipe Schmidt assume o governo do Estado em 28 de setembro de 1898 disposto a encontrar uma definitiva solução para o eterno problema dos limites com o Paraná.
Como primeira medida, o novo chefe do Poder Executivo autoriza a Procuradoria-Geral do Estado a contratar o advogado Manoel da Silva Mafra para dar entrada no Supremo, com uma ação de reivindicação, obrigando o Paraná a afastar-se do território em litígio. Na segunda mensagem de governo ao Congresso Representativo, em 11 de agosto de 1900, Felipe Schmidt informa: “O Paraná não tem toda a necessária calma para aguardar a solução legal à questão. Autoridades invadem o nosso Estado; concedem terras; assaltam uma fábrica de rótulos em Papanduva; criam agência fiscal na Estrada Dona Francisca.” Em 6 de janeiro de 1901, Manoel da Silva Mafra entra no Supremo Tribunal Federal com a ação reivindicatória na qual o jurista comprova a clareza dos títulos legais com que Santa Catarina confirma seus limites, pelos três rios, desde os tempos da Colônia. E demonstra a confusão em que anda metido o vizinho, com respeito aos seus limites, que nunca foram caracterizados concretamente: ora é um rio; ora, outro; às vezes, uma serra; outras vezes, uma outra. Para o conselheiro Mafra, às terras que o Paraná exige não se aplica o direito de propriedade pela posse mansa e pacífica. A posse, pela força, dos territórios em litígio, sempre fora contestada por Santa Catarina. Pelo Acórdão de 6 de junho de 1904, o Tribunal entendeu ser competente para tomar conhecimento da questão porque os limites, desejados por Santa Catarina, foram estabelecidos, através dos tempos, por quem podia fazê-lo. “O Tribunal resolve a questão nos termos em que foi proposta. Trata-se de fazer respeitar limites que sempre existiram e não determinar limites, ainda não amparados em lei. Os catarinenses se baseiam em títulos históricos e jurídicos. E o Estado tem a seu favor os marcos naturais abertos pelos rios Negro e Iguaçu, ao Norte, e o Uruguai, ao Sul.Assim sendo, este Tribunal julga procedente a ação de reivindicação de Santa Catarina e condena o réu nas custas.” Com a decisão do Supremo, o Paraná permanece com um território de 221.139 quilômetros quadrados, e Santa Catarina, com 114.436. Se tivéssemos perdido a questão, aos catarinenses restaria um minguado território de 74.135 quilômetros quadrados, enquanto os 258.740 fartariam os paranaenses com todas as águas dos rios Negro e Iguaçu.
POVOAMENTO NOS LIMITES
Uma perigosa linha reta
A Guerra do Contestado finca suas raízes, primeiras raízes, há mais de 500 anos. Antes, portanto, de o europeu branco e conquistador desembarcar nas ilhas do Caribe - Cristóvão Colombo - ou de Pedro Álvares Cabral molhar os pés no litoral sul da Bahia. Essa raiz primeira foi adubada pelo acordo entre Portugal e Castela, atual Espanha, que resultou na existência, desconfortável para o Brasil, do célebre Meridiano de Tordesilhas. Diz frei Vicente do Salvador, na primeira História do Brasil, escrita em 1622: “Grandes dúvidas e diferenças se começavam a mover sobre as conquistas das terras do Novo Mundo. E elas haviam de crescer cada dia mais se os reis católicos de Castela, dom Fernando e dona Isabel, sua mulher, e el-rei de Portugal, dom João II, que as iam conquistando, não assinassem um acordo que fizeram entre eles.” O acordo entre as duas famílias reais, as mais poderosas do mundo à época, é a assinatura, em 7 de junho de 1494, do Tratado de Tordesilhas. Pelo documento, abençoado pelo Papa, “todas e quaisquer ilhas e terras firmes achadas e por achar, descobertas e por descobrir”, situadas a oeste de um meridiano que passasse a 2 mil quilômetros do Arquipélago de Cabo Verde, pertenceriam à Espanha. A decisão do papa Alexandre VI, dividindo o sul da Terra em duas fatias, uma para Portugal e outra para a Espanha, não apresenta como base jurídica o chamado direito de conquista ou de descobrimento, equivalente ao primeiro ocupante. O que vale para o Acordo de Tordesilhas foi a assinatura de um tratado solene, entre dois países, sancionado pelo Sumo Pontífice que, então, perante as potências cristãs da Europa tinha para as mesmas a força e o prestígio de um direito, a que elas próprias se haviam sujeitado. O fato de Portugal declarar como suas terras ainda não descobertas, ou não “achadas”, para respeitar a linguagem da época a milhares de quilômetros mar afora, comprova que em 1494 julgava-se mais do que possível a existência de algumas terras mais para a esquerda da linha de demarcação. A existência comprovada dessa grande extensão de terra presumida teve-a dom João II através do primeiro parágrafo da carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral. “Posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a vossa alteza a nova do achamento desta vossa terra nova que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a vossa alteza assim como eu melhor puder, ainda que para bem contar e falar o saiba pior que todos fazer”. A bendita linha imaginária reduzia o atual território brasileiro às terras situadas a leste de uma reta que ligava Belém, ao norte, e Laguna, ao sul. Antes de existir legalmente, Santa Catarina reduzia-se a um apertado retângulo de terras, com menos de 10 mil quilômetros quadrados, com 300 quilômetros de comprimento e com 20 de largura. É muito pouca terra. Alguém será obrigado a ceder território, mesmo que já esteja abençoado pelo Papa.
SERTÕES ADENTRO
Em 1549, o navegador espanhol Alvaro Nuñez Cabeza de Vacca, nomeado governador do Paraguai, desembarca em São Francisco do Sul, Norte de Santa Catarina, para reabastecimento.
Por acaso, o navegador se encontra com dois padre jesuítas, que o convencem a realizar o resto da viagem a pé, sertões adentro, até Assunção. Os dois sacerdotes e um grupo de índios catequizados guiam a comitiva espanhola, composta por 250 pessoas. A comitiva embrenha-se nas florestas da Mata Atlântica, sobe a Serra Geral, acompanha os rios Negro e Iguaçu, atravessa o Rio Paraná e entra em Assunção, depois de uma caminhada de 99 dias. O fato espelha uma dupla leitura. Desde meados do século XVI, os jesuítas espanhóis estão em Santa Catarina. E, instruídos pelos índios, já haviam aberto um caminho terrestre entre o litoral atlântico e a capital do Paraguai, evitando o longo trajeto marítimo e fluvial que passava por Buenos Aires e depois subia os rios Paraná e Paraguai. É uma variante do Caminho de Peabiru, aberto pelos índios muitos e muitos anos antes da chegada dos jesuítas ao continente. No entanto, as relações entre portugueses e espanhóis, no Sul do Brasil, tornavam-se cada vez mais hostis. Isso porque exploradores paulistas, os temidos bandeirantes, não respeitam os limites impostos pelo Meridiano de Tordesilhas e varrem as terras pertencentes à Espanha em busca das minas de ouro e do braço indígena reunido pelos padres nas famosas “reduções jesuíticas”. Todo o sertão percorrido em 1549 pelo navegador Cabeza de Vacca constitui um território que a Espanha entregará a Portugal em 1777. Mas primeiro São Paulo e depois o Paraná impedem que a região integre o Estado de Santa Catarina. Assim começa a História da Guerra do Contestado.
COLONIZAÇÃO DAS TERRAS DE SANTA CATARINA
A História do Brasil, de frei Vicente do Salvador, escrita em 1627, esclarece que não há preocupação com a largura que a terra do Brasil tem no rumo do sertão, porque até aquele ano não houve “quem a povoasse”. É que, por negligência, os portugueses, grandes conquistadores de terras, não se aproveitaram delas, pois se contentaram apenas “de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”. E, de fato, foi assim nos primeiros 250 anos de povoamento.
Em 1532, dom João III, rei de Portugal, distribui as terras do Brasil entre 12 protegidos do trono que receberam o título de capitães donatários. Claro que, com a medida, a Coroa se livra de novos gastos neste lado do Atlântico, uma vez que o povoamento de cada uma das capitanias, porque são hereditárias, deverá ser realizado às custas do novo proprietário. A capitania situada no Extremo-Sul do Brasil, Terras de Sant’Ana, foi entregue a Pero Lopes de Sousa, irmão de Martin Afonso de Sousa, que também recebeu um quinhão um pouco mais ao norte, o atual Estado de São Paulo. A carta de doação das Terras de Sant’Ana ao seu donatário faz referência apenas à colocação de marcos no litoral. O Extremo-Sul estava assinalado pela ponta de Itapirubá, próxima à Laguna, onde Portugal e Espanha confinavam, segundo os limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas. Com o passar dos anos e dos séculos, as terras de Santa Catarina, sertão adentro, sobem as encostas da Serra Geral e da Serra do Mar e espalham-se pelo Planalto, sob os protestos, não dos “espanhóis confinantes”, mas dos paulistas e curitibanos desconfinados.
TERRAS CONFRONTADAS
Nos limites dos três rios
No decorrer dos séculos XVI e XVII não foi emitido qualquer documento oficial para caracterizar os limites ao norte de Santa Catarina, desde a bacia do Rio São Francisco até os sertões dos espanhóis confinantes. Em 11 de agosto de 1738, o rei de Portugal estabelece a criação da Capitania de Santa Catarina e a localização de um governo no Desterro para pôr debaixo de um só comando militar toda a região da costa sul do Brasil. Uma outra provisão, em 9 de abril de 1747, determina que o brigadeiro José da Silva Paes, responsável pelo governo de Santa Catarina, escolha terras na Ilha do Desterro e regiões adjacentes, desde o Rio de São Francisco até o Serro de São Miguel, no alto da Serra Geral, para o assento dos imigrantes açorianos que começarão a chegar assim que houver “citios” disponíveis. O documento exige especial atenção para que as terras entregues aos colonos não deem razão de queixa aos espanhóis confinantes, já que o Meridiano de Tordesilhas passava bem próximo aos locais assinalados. Um ano e meio depois, 20 de novembro de 1748, com centenas de casais açorianos instalados no litoral catarinense, Lisboa decide reorganizar a administração judiciária do Sul do Brasil e cria a Ouvidoria de Santa Catarina, com jurisdição sobre o Desterro, Laguna e o Rio Grande. A nova provisão real ratifica o texto de 1747 quando estipula, de modo claro, que os limites ao Norte da Ouvidoria devem correr pelos rios São Francisco, Cubatão e Negro, que se mete no grande rio de Curitiba, isto é, o Iguaçu. Pela determinação real, Santa Catarina, pelo Oeste, encontrava-se com os espanhóis confinantes nas Cataratas do Iguaçu, e com os paulistas, depois com os paranaenses, nas margens dos rios Negro e Iguaçu. Tanto os espanhóis confinantes, no Oeste, quanto os paulistas desconfinados, ao Norte, recusam-se a respeitar o limite dos três rios.
AVANÇOS SOBRE O SOLO CATARINENSE
A comarca de Curitiba ocupava todo o sul da Província de São Paulo. Em 29 de agosto de 1853, com a Lei Federal 704, o território da comarca é transformado na Província do Paraná.
As autoridades na nova província investem fundo contra Santa Catarina quando fixam os limites do leste pelo Rio Canoinhas, que corre em direção ao Rio Negro desde os campos de Lages. Cria-se uma nova zona de conflito e de terras-de-ninguém quando o Paraná exige que o vizinho do Sul exiba a legislação que lhe garanta a propriedade das terras contestadas. Ousadia bem maior demonstra a nova província. Em abril de 1864, ela cria uma estação fiscal na região do Rio Chapecó para arrecadar uma taxa sobre cada animal em trânsito do Rio Grande do Sul para São Paulo. Santa Catarina protesta e exige que o governo imperial intervenha e acabe com a invasão nos dois lados do território que lhe pertence nos termos da legislação emitida pela Coroa Portuguesa em 1749. Em resposta ao apelo dos catarinenses, em janeiro de 1865 as autoridades do Rio de Janeiro expedem o Decreto 3.378, que praticamente homologa os “avanços” do Paraná sobre o território contestado por Santa Catarina. Os limites foram estabelecidos pelo Rio Saí-Guaçu, Serra do Mar e Rio Marombas, desde a sua vertente até o Canoas e, por este, até o Uruguai. Pelo Aviso de 14/1/1879, foi mudado o Rio Marombas pelo Rio do Peixe, deixando Curitibanos e Campos Novos para Santa Catarina. Esta divisão foi respeitada por Santa Catarina e pelo Paraná até o Acordo de 1916. Pelos termos do decreto, Santa Catarina deve contentar-se em ocupar a faixa do litoral e uma estreita nesga de terra nos contrafortes do Planalto Serra Acima. Os 114 mil quilômetros quadrados garantidos pela legislação do século XVIII ficam reduzidos a pouco mais de 74 mil. Os protestos de toda a província forçam o governo imperial a suspender os efeitos do decreto. Mas os paranaenses continuam firmes nas terras que levaram para dentro de sua província.
AS DUAS CARAS DO DIREITO
A incorporação do Planalto de Lages, em 9 de setembro de 1820, ao território catarinense, define mais uma vez os limites de Santa Catarina com o seu vizinho do norte. Esses mesmos limites são reafirmados pelo artigo 2º da Constituição do Império do Brasil, em 25 de março de 1824, ao afirmar que o “território brasileiro é dividido em províncias na forma em que atualmente se acha”.
A nova constituição não corta a presença dos paulistas nos campos de Palmas, na região sul do Rio Iguaçu e nas terras a oeste do Rio do Peixe. O problema da disputa pelo território contestado toma um novo rumo porque Santa Catarina, baseada no artigo 2º da Lei Maior, argumenta com o “direito expresso”, com o “direito já constituído” e, portanto, alcançado pela expressão “em que atualmente se acha”. Do outro lado, os paulistas apegam-se ao “direito da descoberta” ou da “primeira ocupação”. É o já conhecido “uti possidetis”, tal como os portugueses aplicaram em 1777 para se apoderarem das terras que, pelo Tratado de Tordesilhas, estavam sob domínio espanhol. As duas províncias apegam-se, uma no “direito já expresso”; a outra, no “vislumbre de direito”, ou de “um direito ainda não instituído”. Acontece que cada um dos dois lados apresentava o seu mapa, que era contestado pela outra parte. O direito do “uti possidetis” era consagrado em todo o mundo, por aquela época, quando o Papa arbitrava questão de limites entre Coroas. Essa foi a tese do barão do Rio Branco na questão com a Argentina, definida a favor do Brasil, em 1895. Por isso, o Paraná apelou para este direito. Antes de passar um século, as duas caras do Direito vão desatar o nó do embrulho jurídico e político com facões de madeira e com metralhadoras. Depois da mortandade inútil, tal como no caso de Salomão, o território contestado será dividido ao meio.
A VINDA DOS AÇORIANOS
Em 31 de agosto de 1746, o rei dom João V de Portugal comunica aos habitantes das ilhas dos Açores que a Coroa oferece uma série de vantagens aos casais ilhéus que decidirem imigrar para o litoral do sul do Brasil. Nos termos do edital fartamente distribuído pelas nove ilhas do arquipélago, as vantagens do convite para a voluntária expulsão resultam evidentes:
- haverá um grande alívio nas ilhas porque elas não mais verão “padecer os seus moradores”, uma vez que vão diminuir os males resultantes da indigência em que todos vivem;
- haverá um grande benefício para o Brasil, já que os imigrantes irão cultivar terras ainda inexploradas.
O edital acena com uma série de mordomias a partir do transporte gratuito “até os citios que se lhes destinarem para as suas abitaçoens”.
“E logo que chegarem aos citios que haverão de habitar, se dará a cada casal uma espingarda, duas enxadas, um machado, uma enxó, um martelo, um facão, duas facas, duas tesouras, duas verrumas, uma serra com sua lima e travadeira, dois alqueires de sementes (27,5 litros), duas vacas e uma égua. No primeiro ano se lhes dará a farinha, que se entende bastar para o sustento, assim dos homens como das mulheres, mas não às crianças que não tiverem sete anos, e aos que tiverem até os 14 se lhes dará quarta e meia de alqueire para cada mês. Se dará a cada casal um quarto de légua em quadra, para principiar as suas culturas, sem que se lhe levem direitos nem salários algum por esta sesmaria. E quando, pelo tempo adiante tiverem família com que possam cultivar mais terra, a poderão pedir ao governador do distrito”. Também fica definido por sua majestade que o primeiro estabelecimento de casais açorianos far-se-á na Ilha de Santa Catarina e nas suas vizinhanças, “em que a fertilidade da terra, abundância de gados e grande quantidade de peixes conduzem muito para a comodidade e fartura destes novos habitadores.” Em menos de um ano, 7.817 pessoas comprovam o desejo de se transferirem para o outro lado do Atlântico. Uma Provisão Régia de 9 de agosto de 1747 determina ao brigadeiro José da Silva Paes, governador da capitania da Ilha de Santa Catarina, que tome todo o cuidado em tratar bem os novos colonos. “O dito brigadeiro porá todo o cuidado em que estes novos colonos sejam bem tratados, e agasalhados, e assim que lhe chegar esta ordem, procurará escolher assim na mesma Ilha, como nas terras adjacentes, desde o Rio de São Francisco do Sul até o Serro de São Miguel, nos altos da Serra do Mar, e no sertão correspondente a este distrito, com atenção porém que se não dê a justa razão de queixa aos espanhóis confinantes.” A decisão de sua majestade em respeitar as terras dos espanhóis confinantes, plantados muito longe lá pelos lados do Oeste, fez esquecer a definição dos limites norte-sul das terras que açorianos de Santa Catarina poderiam ocupar. Dom João V e muito menos o brigadeiro Silva Paes podiam prever que o descuido de Lisboa dava os primeiros passos para gerar um conflito de limites dentro das terras brasileiras e uma guerra encarniçada entre os próprios catarinenses.
TERRAS PAULISTAS DE LAGES
A designação de Luiz Antônio de Sousa Botelho Mourão, o morgado de Mateus, para governador e capitão general da Província de São Paulo, em dezembro de 1764, tem profunda repercussão no povoamento do Planalto e na fixação dos limites entre Santa Catarina e as futuras terras do Paraná.
Um dos primeiros atos do morgado é o de fazer povoar metodicamente os sertões de Curitiba e todos os imensos campos da região, até a margem direita dos rios Pelotas e Uruguai. O forte argumento para essa tomada de decisão é o de fazer frente aos espanhóis confinantes, que haviam ocupado uma grande parte do território do Rio Grande do Sul. Antônio Corrêa Pinto de Macedo, rico e experimentado fazendeiro daqueles sertões paulistas, em fins de 1766, instala-se “na paragem chamada as Lages”. Para facilitar a tarefa, o fundador está autorizado a convocar todos os índios carijós já civilizados “que andam vadios e não têm casa, nem domicílio certo”, nem são úteis à coisa pública. E ele pode obrigá-los a ir povoar as ditas terras. A viajada oficial de Antônio Corrêa Pinto para o Sul e a missão de fundar uma povoação na referida “parada das tropas” irrita as autoridades do Rio Grande do Sul porque garantem deter a jurisdição de parte daquele território até a margem esquerda do Rio Canoas, afluente do Pelotas. E transtorna os catarinenses porque eles defendem que o limite sul é pelo Rio Pelotas e, ao norte, pelos rios Negro e Iguaçu. Passado meio século, 9 de setembro de 1820, toda a região do Planalto é desanexada de São Paulo e unida à Província de Santa Catarina, com os seus limites a oeste indefinidos. Com a decisão do governo de Portugal, os paulistas fundadores de Lages e seus descendentes tornam-se catarinenses com papel passado em Lisboa. Mas São Paulo e, a partir de 1853, o Paraná não abrem mão de seu território e continuam a banhar-se nas águas do Pelotas e do Uruguai. Até que um dia, meio século depois, acontece o estouro da peonada que não se rendeu e acaba destruída pelas armas de um governo que age em nome da lei.
CIDADES NASCEM NO CAMINHO DOS TROPEIROS
O povoamento do Planalto de Santa Catarina adota uma estratégia bem diferente daquela que resultou da ocupação do Litoral, do Vale do Itajaí e das planuras do Sul. Na Serra-Abaixo, ao longo de 150 anos, adota-se a fixação do imigrante europeu em pequenas glebas de terra - o sítio, o lote, a colônia - como ponto de partida para a abertura do processo civilizador.
No planalto central da Serra-Acima a qualidade do solo não se adapta à fixação definitiva de um colono dedicado à agricultura. As imensas pastagens naturais obrigam a substituir o manejo da terra pela convivência com o gado. Esse mesmo gado resultará na produção do imenso estoque de carnes no Rio Grande do Sul. O perigo de utilizar o transporte marítimo para entregar o boi gordo no mercado devorador de São Paulo e do Rio de Janeiro torna-se evidente pelos riscos que a medida acarreta como naufrágio, pirataria e a necessidade de alimentar os animais no decorrer do trajeto que, além de tudo, fica dependendo da colaboração de ventos favoráveis para empurrar o navio cargueiro. A solução encontrada é simples e copia o exemplo de Alvaro Nuñez Cabeza de Vacca e sua comitiva deslocando-se a pé entre o porto de São Francisco do Sul e a capital do Paraguai. Dessa maneira, os próprios animais se deslocam ao local de consumo através do “caminho das tropas”, também chamado Estrada Real ou Caminho do Sul, que liga Vacaria, os campos de Lages e da Estiva com as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Dezenas de povoados e de cidades do Planalto Catarinense resultam de um “descanso das tropas e dos tropeiros”. Mas ocorre um fato novo na história desse povoamento. Enquanto Santa Catarina alega que tem a seu favor uma série de leis que lhe garantem a propriedade das terras, os paulistas, na quase totalidade proprietários das vacarias do Rio Grande, vão se fixando pelo Planalto e pelos campos de Palmas, muito ao sul dos rios Negro e Iguaçu.
COLONOS E MILITARES NA FRONTEIRA
Pelos meados do século XIX, dom Pedro II dá-se conta de que o Brasil precisa definir e proteger suas extensas fronteiras com os diferentes países da América do Sul, uma vez que a maioria deles apresenta contornos indefinidos.
A saída encontrada pelo imperador é a fundação de colônias militares nas quais possam conviver a vigilância do militar com o trabalho do civil, ambos acompanhados da respectiva família. Nesta linha de pensamento, o Decreto 2.502, de 16 de novembro de 1859, cria as colônias militares do Chopim e do Chapecó, no extremo-oeste da região contestada por Santa Catarina e pelo Paraná e bem ao lado dos 30 mil quilômetros quadrados de território brasileiro exigido pela Argentina. Mas o entusiasmo do imperador pela convivência entre civis e militares na fronteira esfria durante quase 25 anos. Só em 14 de março de 1882 o capitão José Bernardino Bormann instala a colônia militar de Chapecó. De imediato, o capitão abre várias frentes de trabalho destinadas a povoar a região com pequenos lavradores e criadores das redondezas, do Rio Grande do Sul e do Paraná e também para defender a fronteira, atrair os índios, implantar o progresso, difundir a cultura. Logo nos primeiros tempos, a colônia dispõe de duas escolas de primeiras letras, uma escola de música e respectiva banda. Existe até um jornal,O Xanxerê. Em 1895, um laudo pericial do presidente Cleveland, dos Estados Unidos, define que a Argentina não tem nenhum direito sobre as terras do assim chamado Campos de Palmas e a região é definitivamente incorporada ao território brasileiro. Em 1916, as terras contestadas serão divididas entre o Paraná e Santa Catarina. Solucionados os dois conflitos, Xanxerê e Chapecó, em Santa Catarina, Clevelândia e Palmas, no Paraná, começam a exercer um papel importante para o desenvolvimento das terras que a Argentina e os dois estados haviam cobiçado.
O PAPEL DO CACIQUE CONDÁ
Pelos meados do século XIX, dezenas de pequenos proprietários vão se estabelecendo nos campos de Palmas, região contestada por Santa Catarina e pelo Paraná. Sobre essas terras vivem índios kaingang.
A presença do homem branco contribui para o surgimento de pequenas fazendas de criação de gado, sem contornos definidos por estarem localizadas sobre terras devolutas, isto é, pertencentes ao Poder Público. As confrontações entre posseiros e os enfrentamentos com os índios são freqüentes e resultam em total desrespeito às divisas naturais que delimitam as fazendas. Quando da ocupação dos campos de Palmas, em 1839, os moradores não encontram solução para as contínuas depredações e por isso buscam a colaboração dos árbitros João da Silva Carrão e José Joaquim Pinto Bandeira, de Curitiba. Os dois dirigem-se ao local e pedem o apoio do cacique Condá, profundo conhecedor da topografia daqueles campos. A determinação do cacique é a de que todos os índios do grupo se unam em torno dos moradores para assentar as bases de um povoamento ordenado e sem futuras rixas. Em 1815, Athanagildo Pinto Martins abriu a Estrada das Missões, ligando Guarapuava, Clevelândia, Campos Novos e Lages. Trinta anos depois, Francisco Ferreira da Rocha Loures une Palmas a Goio-En. Com a situação mais ou menos definida, em 1865 o governo imperial decide abrir uma estrada para ligar Palmas a Corrientes, na Argentina, passando pelo oeste das terras contestadas por Santa Catarina e pelo Paraná. Os primeiros estudos sobre o trajeto da estrada contam com a colaboração do cacique Condá e de 37 índios. Eles também acalmam os índios do Nonoai, no outro lado do Uruguai, revoltados com a invasão das terras pelos operários da estrada. Os caciques Condá e Viri são personagens importantes para a história do povoamento dos campos de Palmas e dos sertões do Extremo-Oeste de Santa Catarina. Para alguns historiadores, Condá passou de “bugre a bugreiro”, pois recebia pagamento para cada índio que aldeasse.Em Chapecó, uma enorme estátua exalta a memória do índio Condá.

Revivendo a Guerra do Contestado III


     'Um dia é pouco para eu contar tudo o que vivi', diz Maria Trindade Martins
     Sobrevivente da guerra, ela evita falar da experiência e não perdoa os líderes dos caboclos
Leonencio Nossa e Celso Júnior – de O ESTADO DE SÃO PAULO
Maria Trindade Martins, 105 anos, mora num barraco de madeira nos fundos da casa do filho Chico. Os mais novos a conhecem em Lebon Régis como a "mãe do Papai Noel" - o pedreiro Chico, construtor de capelinhas de túmulos de cemitério, se veste de bom velhinho para conseguir uma renda extra no final do ano. Já os moradores mais antigos lembram dela como a parteira da cidade. Maria diz que "pegou" mais de 200 meninos. Maria foi descoberta pela reportagem do Estado por acaso. Depois de uma semana de pedidos de informações sobre o paradeiro de Virgílio Leão de Carvalho, um remanescente dos redutos rebeldes que estaria com 102 anos e morando em Lebon Régis. Um blogueiro, o jornalista Cícero Machado, informou que ele morrera havia uma semana. Machado e uma professora ajudaram a localizar outra sobrevivente da guerra que morava no município e estaria lúcida. Era Maria. Ao lado de um fogão de lenha e na companhia da inseparável Linda, uma pequena cadela, Maria descreve os dias difíceis sofridos por crianças e adultos durante a "guerra dos jagunços". Ela relata que os caboclos chegaram a comer até couro de cintos para saciar a fome. Maria tinha seis anos quando a guerra começou e 10 quando o conflito terminou. "Eu passei fome no mundo. Sei o que é fome", relata. "Nossa, a gente sofreu muito. Um dia é pouco para eu contar tudo o que vivi." Maria evita falar de sua experiência em redutos rebeldes. Não perdoa os líderes dos caboclos. Em seus relatos, Adeodato é tão vilão quanto os militares. Reclama tanto dos chefes rebeldes quanto dos homens do Exército. Ela acusa os dois lados. Quem ouve sua história tem dificuldade de saber se Maria acusa "pelados" ou "peludos". "Eles tiravam os seios das mulheres, matavam. Eram bandidos. Não eram maus, eram bandidos", ressalta. "Morreu muita gente matada, muita criança", completa. "Matavam os pobrezinhos dos anjos, pecado." Falante e com olhos brilhantes, Maria está longe de parecer uma mulher centenária. É verdade que os olhos perderam a tonalidade castanha, ficando quase azuis. Ela, porém, mantém uma voz firme e uma expressão forte. Reclama que as vistas não "dão mais". Para mostrar sua fé em São João Maria, vai até o quarto e, depois de alguns segundos, volta com um pequeno quadro com o retrato do monge. "Meu santinho está se apagando", constata. "Antes, eu enxergava a panelinha na mão dele." Ela diz que a fotografia de São João Maria pertencia à sogra. Depois, a imagem passou para o seu marido, Pedro Lins, morto há quase 20 anos. "Eu acendo até velinha para São João Maria, porque não sei se é vivo ou morto. Se não for, não tem problema", diz, sorrindo. Maria conta que o pai era alemão e a mãe era uma cabocla "bem morena". A mãe morreu quando ela ainda era criança, deixando cinco crianças menores. "Só durei até hoje porque tenho sangue de bugre", avalia. "Fui picada por cobra, apanhei de tapa, chinelo e vara de marmelo", conta. "Estou viva porque Deus não se lembrou de mim." Do casamento com Pedro Lins, filho de rebeldes, Maria teve cinco filhos, três homens e duas mulheres. Ainda criou outros três meninos de uma relação anterior de Pedro. Reclama que, hoje, as crianças e jovens cumprimentam rapidamente os mais velhos. "Um afilhado nem louvado dá mais. Agora, é só boa tarde, bom dia, boa noite. Que esquisito", diz. "Não canso de dizer: que bonito dizer: Deus te abençoe. Vou achar um velho tão velho quanto eu para dizer: Deus te abençoe."
Leia abaixo o depoimento de Maria Trindade Martins:
"Nasci no dia 8 de maio de 1906, numa casa perto da coletoria velha, aqui em Lebon Régis. Não conheci meu pai, um alemão. Minha mãe era brasileira, bem morena, de cabelos compridos. A gente trabalhava na roça, com foice, machado. Já derrubei mata. Hoje, não presto. Mas não posso ficar parada. Tive cinco filhos, criei todos. Acendo sempre uma vela para São João Maria. Tenho muita fé. Tudo o que eu peço ele me dá. (Mostra um retrato antigo do monge). Muita gente virou crente. Eu não viro. Morro católica. Os jagunços eram todos devotos de São João Maria. Minha mãe me batizou na água sagrada. Aguentei até agora porque tenho fé em São João Maria e porque tenho sangue de bugre. Depois da guerra, passavam aquelas crianças famintas na estrada, eu ficava olhando. Elas não podiam comer tudo que estava na mesa, porque tinham passado muita fome na guerra e só conseguiram chupar osso e comer broto. Muitas morriam. É triste. Agora a minha cabeça não está mais prestando, não. As coisas fogem da minha cabeça. Eu me esqueço. Às vezes, eu penso: O que eu iria fazer? Não lembro mais. O juízo já não guarda mais."

Revivendo a Guerra do Contestado II


     'Se um pai não dava a filha, eles matavam', diz Sebastiana Medeiros
     Sobrevivente diz que soldados do Exército eram truculentos e vingativos
Leonencio Nossa e Celso Júnior – de O ESTADO DE SÃO PAULO
Pelas indicações obtidas durante três semanas de buscas, Sebastiana Medeiros, 102 anos, vive numa casa atrás de uma oficina mecânica, na periferia da cidade de Caçador, Santa Catarina. Matriarca de uma família numerosa e trisavó de quatro jovens, ela mora sozinha num porão alugado por R$ 80. É com uma reza que ela recebe a equipe de jornal. "Quem deu minha notícia?", pergunta, com as mãos juntas, em forma de oração. Sebastiana convida para entrar no porão. "Estou muito contente", diz a senhora, com a hospitalidade típica das pessoas do oeste catarinense. "Quando a guerra começou, eu devia ter um ano e meio mais ou menos", relata. "Da guerra, lembro pouco. Lembro mais o que os meus troncos velhos (pais) contavam", completa. "Um compadre meu venceu a guerra comendo carne de cachorro sapecado em capim barba-de-bode, para não morrer de fome. Tirava os pés e o couro do cachorro e botava fogo no capim." Ela tinha três anos quando a guerra começou e sete quando o conflito terminou. Com olhos bem abertos, diz que é a última sobrevivente da guerra. "Fui crescendo, fui ficando mocinha, altinha, de boa altura, de boa presença, e aí os mocinhos já foram gostando (risos)", relata. "As crianças guardaram a guerra na lembrança, como eu guardei. Da minha irmandade, da minha descendência, quem está existindo mesmo daquele tempo, só esta velha. O mais não existe." A voz aguda de Sebastiana, a expressão facial e os gestos das mãos que acompanham o ritmo e a força de cada palavra lembram as marcas das personagens contadoras de histórias de Erico Veríssimo. Sebastiana compara a atuação dos soldados do Exército e da polícia com agentes da atualidade. "Os soldados que hoje existem não têm a metade da violência daqueles soldados do tempo da guerra dos jagunços", avalia. "Foi um tempo de revolta, violência, cavalaria, arma, munição", conta. "O senhor tinha uma vaca de leite e pedia para não matarem, aí é que matavam. Ninguém mandava no que tinha e na lida. Era o Exército quem mandava. Se o senhor por acaso tinha uma filha moça e o Exercito chegava... pelo amor de Deus. 'Eu quero sair um pouquinho com sua filha', dizia o soldado. "Se não dava a filha, eles matavam o senhor."
Espada no pescoço. Voz firme como toda boa contadora de histórias, Sebastiana fala de pistolas, revólveres e espadas e violência contra prisioneiros. "O Exército era de guerra mesmo, com batalhão de guerra. Tinha a espada de guarnição. Degolava, degolava. O que não queria se entregar, eles matavam degolado. Não dissesse que não se entregava, eles matavam", relata. "O caboclo que agredia era morto a tiro. O que não agredia era degolado, passavam a espada no pescoço", ressalta. "Não tinha pai por filho, filho por pai, mãe por filha, filha por mãe. Os parentes eram tudo obra estranha. Não podia acudir um parente, que morria. Meu Deus, do céu. Foi um tempo bravo, bravo, bravo." Os relatórios militares descrevem milhares de casebres incendiados. Sebastiana também comenta sobre a destruição das casas. "Sobrou bem pouco da guerra dos brasileiros contra os caboclos. Os batalhões colocavam fogo nas casas, queimavam tudo o que tinha dentro", diz. "Se o caboclo tinha um porquinho no chiqueiro, não era dono. Eles tiravam o bichinho do chiqueiro e metiam a faca no pescoço, sem pedir", completa. "Morreu muita gente naquela guerra dos jagunços. O que tinha de povoado no mundo inteiro ficou muito pouco. Meu Deus do céu, meu Deus do céu, meu Deus do céu! Era espada na água."
Leia abaixo o depoimento de Sebastiana Medeiros: "Sou cerne de cambará"
"Batalhões de inocentes ficaram jovens sem pai, sem mãe, sem irmão mais velho. Se criaram no mundo sem ter ninguém. Depois da mortandade de gente, os bichos mexiam com aquela gente que ficava em cima da terra. Ficava aquele cheiro. Ficou arretado. Foram uns tempos bem bravos. Os mortos eram deixados no limpo. Os corvos davam fim. Os batalhões da guerra não escolhiam, fosse branco, brasileiro, alemão, caboclo, o que encontravam, eles derrubavam. Não deixavam em pé uma pessoa. Não tinham dó. Quem ficava na mira dos piquetões se acabava. Não gosto nem de falar. Os vaqueanos foram os primeiros a acabar. Eram dos brasileiros e daí o jagunços não gostavam de brasileiros. Sofreram. Teve uma tia minha, mulher de um tio meu, que estava para ganhar neném naqueles dias, gêmeos, eles mataram a mulher e jogaram as crianças na cerca. Adeodato. Não conheci, mas ouvi falar. Até ele matou duas irmãs da minha mãe Maria e Julia Caetano. Ele era padrinho delas. Matou por bandido que era. Já tinha matado as mães e os irmãos. Eu nasci em Rio das Pedras, que agora é município de Fraiburgo. Fui nascida na colônia do meu pai. De lá, me arretirei, porque meu pai vendeu a colônia dele. Saí de lá com 5 anos. E fui para Rio Bonito, para quem vai para Curitiba. A gente morava nas casas onde moravam os trabalhadores da estrada de ferro. Sempre tive fé. Naquele tempo da guerra, quando uma senhora ganhava um pequeno, São João Maria era o padrinho. Não se colocava outro acima dele. Sou afilhada dele. Na guerra, minha mãe viu jagunços chegarem, arrumou as mãos e pediu: 'São João Maria salve ao menos um da minha família para contar para os outros que estão lá no sítio'. Então, São João Maria salvou minha mãe e dois filhos dela. Depois da guerra, ela e meus irmãos morreram. Eu fui a única que restou da Irmandade. Sobrevivi. Nem tio, nem esposo, nem tia, nem prima sobreviveram. Mas olhe, eu, ainda no ano passado, capinei e plantei e colhi feijão em Calmon. O doutor que me consultou no hospital me olhou bem e disse: 'Vozinha, a senhora erga sua cabeça e me olhe'. 'Por que, doutor?' Ele me disse: 'A senhora não é mais gente para estar aqui no nosso mundo. É para estar lá no mundo de Irmã Paulina. Sua idade já venceu. A senhora conhece o cerne do cambará?' 'Já ouvi os mais velhos falarem. Ele deu uma baita risada. 'O cerne do cambará nunca acaba.' Quem busca a fé, quase sempre encontra. Quem guarda o segredo, busca a fé. Foi o que São João Maria enxergou. Os homens fazem guerra pelo estado da fé. Se o senhor tem uma dúvida e quer se vingar, o senhor faz guerra. Não tenho estudo de aula. Meu estudo é só o da minha fé. Eu trabalhava na enxada, na foice, no ferro. Cansei de ajudar meu esposo a derrubar tora. Sabe que eu sou vencida. O sangue caboclo dura 60 descendências de família, para ver o quanto é forte. E tenho o sangue caboclo que se misturou com o alemão. Eu assisti duas guerras. A do Aleodato e dos jagunços. Sou a única pessoa que existe daquela época, de raiz. Dessa época, a única descendência que sobreviveu foi a Sebastiana. A minha família é toda de raça cabocla. Eu sou sangue de caboclo e sangue de alemão. Meu bisavô, que era casado com a bisavó, mãe da minha mãe, era alemão. E foram pegados a cachorro no mato. Os batalhões iam para os sítios pegarem os bugres a cachorro no mato, pegaram minha bisavó e meu bisavô. Os dois se criaram com gente que podia criar eles. Minha bisavó era daquela bem cabocla, com beiço virado, que assoviava, nem falar falava. Ela foi achada no mato pelos fazendeiros... dentro do oco da madeira... os cachorros farejaram... e os homens encontraram os meninos. Um se criou com um fazendeiro, outro com outro. Depois, eles se casaram. O alemão se interessou por ela e se casou. A família dele virou tudo caboclinho. E uma peça sou eu, e aqui existo. Os soldados andavam com roupa cor tipo zinco, que antigamente existia. Os jagunços atiravam, mas não pegavam no corpo deles. Um irmão se escondeu dentro de um cesto de taquara. Nasci em oito de outubro, o ano não me lembro mais. Na minha época de mocinha, a gente ouvia música antiga, rancheira, xote. Era tempo de muita mata. Foram cortando... veio o planto de pinho, eucalipto. Negócio de lote já não se compra mais barato, e foi que começou a aumentar o preço da terra. De primeiro achava um terreno deserto. Não tinha terra vendida. Começaram a fazer a linha de trem de ferro, em cima daqueles dormentes. Quando cruzavam os trens, chacoalhavam aqueles dormentes. Tem gente que tem orgulho da minha vitória. O que guerreou numa guerra é revolucionário. Sempre fui uma pessoa cuidadosa. Nunca deixei chegar uma ponta de tesoura no meu cabelo. Nunca usei joia. Na obra, Deus disse para não usar negócio de joia, pulseira, relógio... dessas passadeiras bonitas no cabelo também não uso. Naquele tempo antigo, pintura também se proibiu. Hoje, estou mais leve que uma palha. Estou muito contente, é uma paz, um sossego. É a miudeza dessa fraqueza."

Revivendo A Guerra do Contestado I


Linha de trem chega ao Contestado, expulsa caboclos e dá início a uma guerra. Batalha entre grupo de cablocos e um coronel militar foi o estopim para o conflito que deixou milhares de mortos
     Leonencio Costa e Celso Júnior – de O ESTADO DE SÃO PAULO
Altino Bueno da Silva (108 anos) - sobrevivente da Guerra do Contestado
Eles eram crianças quando, em 1912, tropas do Exército e agentes policiais desembarcaram nos sertões de Santa Catarina e Paraná para combater seus pais, mães, tios e avós que pegaram em facões de pau e velhas espadas farroupilhas e julianas, num movimento contra o projeto de uma ferrovia em suas posses de terra e os desmandos de lideranças emergentes da República, proclamada duas décadas antes. Às vésperas do centenário da Guerra do Contestado, a maior rebelião civil do País no século 20, que agitou o Sul entre os anos de 1912 e 1916, o Estado investigou o paradeiro das últimas testemunhas do conflito que deixou um saldo estimado de 10 mil mortos. Altino Bueno da Silva, hoje com 108 anos, Maria Trindade Martins, 105, e Sebastiana Medeiros, 102, foram localizados em porões de casas e barracos de bairros pobres, numa investigação jornalística de 12 meses, para dar a versão dos derrotados sobre os cem dias decisivos da vitoriosa campanha militar (dezembro de 1914 a abril de 1915) comandada pelo general Fernando Setembrino de Carvalho - o cerco, a tomada e a destruição do reduto caboclo de Santa Maria, principal acampamento dos revoltosos, no atual município catarinense de Timbó Grande, a 400 quilômetros de Florianópolis. A luta sertaneja marcou uma área de 30 mil quilômetros quadrados, maior que Alagoas e o Haiti, ainda hoje uma região tratada como "maldita" pelo Poder Público - as terras do Contestado, cercadas por cidades colonizadas por europeus e com padrões de primeiro mundo, apresentam índices de desenvolvimento humano equivalentes a rincões pobres do Nordeste. É uma história de renegados em pleno Sul do Brasil. As memórias de infância de três brasileiros que sobreviveram a uma guerra militar e enfrentam a guerra da pobreza, ultrapassando cem anos de idade numa região onde a expectativa de vida é inferior à média nacional, foram confrontadas com todos os documentos militares que se têm registro sobre o Contestado - duas mil páginas de relatórios e fotografias. As lembranças dos "meninos", que surgem lentamente, influenciadas durante anos pelos relatos de adultos, e os papéis amarelados dos vencedores, retirados de caixas de um arquivo do Rio de Janeiro, usado pelos pesquisadores do tema, embora com suas versões distintas, compõem um mosaico de violações de direitos humanos que não tinha sido visto desde o massacre das revoltas regenciais. A aproximação entre o passado e o presente fica ainda mais nítida na análise das ações e prioridades dos governos em Santa Catarina, um Estado reconhecido por sua pujança econômica.
Prisioneiros. Em 1910, a Brazil Railway Company, subsidiária da holding Lumber Company, criada pelo empresário norte-americano Percival Farquhar, concluía a construção do trecho da ferrovia São Paulo- Rio Grande do Sul no território disputado por Santa Catarina e Paraná, o Contestado. Quatro mil ex-detentos e miseráveis de Santos, Rio de Janeiro e São Paulo recrutados para as obras foram demitidos e expulsos de cabanas de palha levantadas nas margens da estrada. A Lumber conseguiu concessão do governo para explorar pinhos e imbuias nos 15 quilômetros de cada lado da ferrovia. Os renegados engrossaram redutos formados por caboclos nativos que, por orientação de monges andarilhos, pregavam nos desertos sulistas a chegada do exército celeste de São Sebastião, chefiado por uma tropa de elite chamados de os "Pares de França", figuras de histórias medievais reproduzidos em folguedos de origem portuguesa e folhetins.
As "cidades santas", abertas em clareiras da mata do Planalto Catarinense, abrigavam ainda soldados "maragatos" opositores do governo Floriano Peixoto derrotados por tropas legais, de 1893 a 1895, e pequenos comerciantes e proprietários de terras opositores dos novos coronéis da recém proclamada República. O Contestado foi uma aliança inesperada e explosiva do caboclo simples do oeste, do político derrotado e magoado do Rio Grande do Sul, do ex-presidiário e do braçal sem rumo do Rio de Janeiro e de São Paulo. Brasileiros com qualidades, defeitos e dramas pegavam em armas. Só maquiados serviriam, mais tarde, de exemplo para grupos políticos. A guerra dos jagunços, como o conflito foi chamado pelos caboclos, ou dos fanáticos, na designação dos militares, não teve relação direta com a disputa entre os governos paranaense e catarinense pelo território dos campos de Irani e Palmas, uma área que poucos anos antes era reivindicada pela Argentina. Somente em tempos mais recentes que pesquisadores passaram a chamar a revolta de Guerra do Contestado. O estopim da revolta ocorreu em 22 de outubro de 1912, quando o capitão João Gualberto Gomes de Sá Filho, do Regimento de Segurança do Paraná, na liderança de 50 homens a cavalo e 200 a pé, atacou um grupo de caboclos que estavam em volta do monge José Maria de Jesus, em Irani, Santa Catarina. Antes da batalha, no deslocamento até Irani, os militares tinham perdido sua principal arma, uma metralhadora "Maxim", durante a travessia de um rio. O próprio João Gualberto teria matado o monge, reconhecendo-o por um boné de pele de onça. O militar foi retalhado a facão pelos rebeldes. Gualberto virou um novo Moreira César - oficial morto pelos conselheiristas de Canudos. A morte de Gualberto deixou em pânico autoridades de Curitiba, Florianópolis e Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a notícia da morte de José Maria, no mesmo combate, correu pelos campos de araucária juntamente com a ideia de que o religioso ressuscitaria. Surgiam as "cidades santas", comandadas por "virgens" de 14 e 15 anos, que repassavam para os homens as "instruções" recebidas em visões do monge. A primeira delas foi Taquaruçu, organizada por um pequeno comerciante, Eusébio Ferreira dos Santos. Uma neta dele, Teodora, dizia conversar todas as tardes com o monge José Maria. Aos poucos, o movimento exclusivamente religioso ganhou contornos de guerrilha. Era a luta dos pelados (caboclos) contra os peludos (militares). Os facões de guamirim, madeira dura encontrada na região, esculpidos no fogo eram substituídos por armas de aço tomadas de fazendeiros, soldados e oficiais em combates na Serra da Esperança, no oeste catarinense. Winchesters, revólveres e espadas usadas na Revolução Farroupilha (1835-1840), na proclamação da República Juliana (1839) e na Revolução Federalista (1893-1895) voltavam a ser usadas em batalhas. As práticas da degola, do fuzilamento de prisioneiros e das mutilações de orelhas, assombrações das velhas guerras gaúchas, também foram reutilizadas. A 12 de setembro de 1914, Setembrino de Carvalho assumiu o comando da 11ª Região Militar, com sede em Curitiba. Ele tinha por missão chefiar a operação de massacre dos caboclos. Este caderno descreve a campanha de Setembrino. Entre o final de dezembro de 1914 e começo de abril de 1915, o Contestado viveu o auge da guerra. Dos 18 mil homens do Exército, sete mil estavam na região. A estimativa de dez mil mortos, levantada desde o fim do conflito, não foi derrubada por novos estudos publicados. É praticamente o dobro de mortes registradas na Guerra de Canudos, na Bahia, em 1897.
Baixas. Uma análise de 76 relatórios da campanha do general Setembrino indica que, nos cem dias decisivos da guerra, cerca de 1.500 a 2 mil rebeldes morreram. A avaliação sobre os números apresentados pelos comandantes nos documentos deve levar em conta as tentativas dos militares em dar um caráter "épico" a suas ações e justificar o tamanho das tropas e a quantidade de armas e suprimentos para reprimir os caboclos. Em quatro anos de guerra, portanto, o número de mortos pode ter sido bem inferior aos dez mil registrados em estudos.
Pesquisa. O Estado consultou 13 caixas de documentos militares produzidos durante a Guerra do Contestado. Mais de dois mil papéis, fontes de livros produzidos sobre o episódio nos anos 1960 e 2000, e 87 fotografias foram reproduzidos e estão, agora, à disposição dos leitores e pesquisadores no portal estadão.com.br. Documentos como a lista dos prisioneiros e de guias civis do Exército vêm a público na íntegra pela primeira vez. Também foram consultadas coleções de periódicos da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, e processos de terras dos cartórios de registros de Lebon Régis e Porto União, em Santa Catarina. As referências deste trabalho são os livros "Lideranças do Contestado", de Paulo Pinheiro Machado, "Messianismo e Conflito Social", de Maurício Vinhas de Queiroz, "Contestado, a Guerra Cabocla", de Aureliano Pinto de Moura, e "Guerra do Contestado: A Organização da Irmandade Cabocla", de Marli Auras. Foi a partir da análise do acervo militar, em especial do olhar das crianças prisioneiras retratadas em antigas fotografias, que a equipe do jornal percorreu cidades e povoados de Santa Catarina e do Paraná, num total de 8,5 mil quilômetros de estradas, para colher a versão do "outro lado" da história e conhecer o legado deixado pelo conflito. Remanescentes da revolta e descendentes de caboclos que lutaram contra os militares dão sua versão ou apresentam o imaginário popular dos fatos descritos em documentos militares. Eles falam também da vida atual. As impressões sobre a realidade do Contestado e a coleta de histórias orais foram obtidas em cem dias de observação e acompanhamento do dia-a-dia dos moradores e na análise das ações e repasses de verbas do governo para as cidades da região. Os depoimentos dos primeiros prisioneiros de Santa Maria destacam a difícil situação dos moradores do reduto, que enfrentam a tifo e a falta de comida. "Tem morrido muita gente de doença e muito pouco de bala", relatou o prisioneiro Jorge Pires do Prado, sem descrição de idade, a 3 de abril. Outro prisioneiro, José Ribeiro da Costa, de "cinquenta e poucos anos", fala que os rebeldes estavam se alimentando de couro cozido. "As famílias têm muitas que não saem do reducto porque não deixam, que essas famílias já se alimentam de couro cosido", relata. Ele ressalta que um dos comandantes rebeldes, Joaquim, e seus homens "estão dispostos a morrerem antes que se entreguem". "Hoje, o plano do Joaquim é não atacar as forças federais e por isso, ele já pela açção da artilharia, retirou-se com seus homens para o pé da serra, dentro do mato, e está esperando que as forças entrem no reducto para ataca-la pela retaguarda." O prisioneiro relata o suposto uso de crianças pelos rebeldes. "A criançada tem incumbência de fazer gritaria, que a munição é pouca e, além disso, já os homens estão enfraquecidos pela fome", afirma.
Labirinto. Para localizar os "meninos" do Contestado, a equipe recorreu a cinco rádios da região, sistemas de som de postes, blogs comunitários, pequenos jornais, comunidades religiosas e cartórios de registros civis. Foi nos cartórios também que estavam guardados documentos de terra e processos contra líderes rebeldes para complementar as informações colhidas no acervo do Exército.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uma homenagem para Vecinho


                                                    (clique na foto para ampliá-la)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Vladimir Herzog ressuscitado


     Folha localiza em Los Angeles fotógrafo da morte de Herzog
Silvaldo Leung Vieira, o então fotógrafo da Polícia Civil
de São Paulo localizado pela Folha em Los Angeles
(foto: Zen Sekizawa/Folhapress)
     Uma revelação exclusiva é o destaque da "Ilustríssima", caderno da Folha, deste domingo, 05: o repórter da Lucas Ferraz, da Sucursal de Brasília, localizou em Los Angeles o autor da mais importante imagem da história do Brasil nos anos 1970 --a foto do jornalista Vladimir Herzog morto numa cela do DOI-Codi, em São Paulo, no ano de 1975. Fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo, o santista Silvaldo Leung Vieira, então com 22 anos, foi recrutado pelo Dops (Departamento de Ordem Social e Política) para uma de suas primeiras "aulas práticas": o registro do cadáver do jornalista, que havia comparecido espontaneamente ao DOI-Codi, após ter sido procurado por agentes da repressão em sua casa e na TV Cultura, onde trabalhava como diretor de jornalismo. Ele tinha ligações com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), mas não chegou a ter atividades na clandestinidade. "Ainda carrego um triste sentimento de ter sido usado para montar essas mentiras", afirmou Silvado à Folha, por telefone.
O jornalista Vladimir Herzog, que foi encontrado enforcado em uma cela, em 25 de outubro de 1975
(foto: Sindicato dos Jornalistas de São Paulo)
     Segundo relatos de testemunhas, Vlado, como era conhecido pelos amigos, foi torturado e espancado até a morte. A imagem produzida por Silvaldo ajudou a derrubar a versão do suicídio, uma vez que seu corpo pendia de uma altura de 1,63 m, com as pernas arqueadas e os pés no chão, o que torna altamente improvável que tenha se matado. A morte gerou manifestações, como a famosa missa na catedral da Sé, em São Paulo, e contribuiu para que o presidente Ernesto Geisel e seu ministro Golbery do Couto e Silva vencessem a queda de braço com a linha dura da ditadura, que pedia um aperto na perseguição à esquerda, sob o argumento de que o país vivia a ameaça do comunismo. "Tenho para mim que esses acontecimentos foram a raiz das Diretas-Já", disse à Folha o então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, que também tinha atritos com os militares da linha dura. Silvaldo Leung Vieira também fotografou a cena do "suicídio" de Manoel Fiel Filho, operário que morreu em situação semelhante à de Herzog e cuja morte também foi decisiva para mudar os rumos do regime. Essa imagem, no entanto, nunca apareceu.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Antônio Coca vence Concurso de Poesia Falada de Propriá


Antônio Coca recebendo o prêmio das mãos do
prefeito de Propriá José Américo Lima

     Eu infelizmente não pude estar presente a um dos mais importantes eventos culturais do Estado de Sergipe. Não pude mudar a data de uma prova e perdi uma agradável viagem com o poeta Antônio Pedro Caldas, o nosso Antônio Coca. No dia da homenagem feita a Helvécio Santana, encontrei-me com o filho do peixe, Calango da EBDA. Poeta também de alta estirpe, disse-me do desempenho do pai: “O velho tocou na veia certeira do coração saudoso do povo de Propriá. Tirou em 1º lugar.” E tudo aconteceu numa quarta-feira não muito distante, no dia 25 de Janeiro deste ano. O Concurso de Poesia Falada "Poeta João Fernandes de Britto", realizado pela Prefeitura Municipal de Propriá, marcou mais uma programação do XXV Encontro Cultural de Propriá. Para premiar os concorrentes, a Prefeitura, através da Secretaria Municipal de Cultura, selecionou 12 trabalhos. Foram eles:
Ivilmar, o 2º colocado, recebendo o prêmio entregue
pelo Secretário de Cultura de Propriá
1.       A LINHA DO TREM - SANDRA SUELI DA SILVA CRUZ
2.       CADÊ VOCÊ - ADEMAR VIEIRA FILHO
3.       INEXORÁVEL - DARQUIRAN COSTA
4.       LAMENTOS DE UM “VELHO” - GILBERTO DOS SANTOS
5.       MUDANÇA - ANDREIA DA SILVA MELO
6.       O AMADURECER DO MATURI - MÁRIO CEZAR REZENDE
7.       O BELO FRANCISCANO - MARCIA DONATO SANTANA
8.       O BRILHO DA FELICIDADE - WANDERLELIA GUIMARAES SILVA
9.       PEQUENOS CALOTES DIÁRIOS - IVILMAR DOS SANTOS GONÇALVES
10.     “RAIO X” - NÉVITON JOSÉ DOS SANTOS
11.     RECORDANDO PROPRIÁ - ANTONIO PEDRO CALDAS
12.     ÚLTIMO ESPETÁCULO… LUCIDEZ DE UM PALHAÇO - PÉRICLYS DA ROCHA SANTOS
Antonio Coca e seus amigos do Cedro
     O poesia vencedora foi “Recordando Propriá”, de autoria de Antônio Pedro Caldas. O nosso Antônio Coca faturou um prêmio de R$ 1.000,00. A premiação de melhor intérprete saiu para Ivilmar dos Santos Gonçalves, que também ficou como o vice-campeão de melhor poesia intitulada “Pequenos Calotes Diários”. De acordo com o prefeito José Américo Lima, com a realização da festa do Bom Jesus dos Navegantes e Encontro Cultural, Propriá reassume em 2012 o compromisso com a cultura popular do Estado. “Seja através das apresentações artísticas e culturais ou deste concurso de poesia falada, o nosso intuito é fazer com que este seja mais um passo na retomada à glória de outros tempos, já que esta cidade é um celeiro de grandes mestres nas artes”, afirmou Américo. O Secretário Municipal de Cultura e Meio Ambiente, José Alberto Amorim, agradeceu ao prefeito José Américo e à equipe de trabalho empenha na realização do concurso de poesia falada João Fernandes de Britto. “O resgate deste encontro representa o estímulo à produção poética, artística e cultural nesta cidade e em todo o Estado. Por este motivo é que neste momento quero agradecer o empenho do prefeito José Américo Lima e a toda equipe da Prefeitura, que se empenhou na realização deste concurso tão brilhante”, acrescentou Amorim.
Parentes e amigos de Cedro marcando presença
     Filho ilustre de Cedro de São João, Antônio Coca reside em Heliópolis há mais de uma década e por onde vai carregando sua poesia leva o nome da sua terra natal e desta cidade. A presença da família Caldas não se resume aos versos que “seu” Antônio distribui generosamente por onde passa, alegrando o ambiente. Sua filha Socorro Caldas, também poetisa de mão cheia, é a atual Chefe do Cartório da cidade e seu filho, José Alberto Caldas, o Calango da EBDA, é funcionário público estadual da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário. Jorge Caldas, este ainda desempregado, tem forte aptidão para a música popular de raiz poética. Toda a família cheira a arte. Mas a marca maior de Antônio Pedro Caldas não é somente ser um extraordinário poeta popular. É o fato de nunca negar sua origem. Antônio Coca sabe de onde veio, onde está e para onde quer ir. De carroceiro a viúvo aposentado, trilhando nos caminhos deste sertão maltratado, Antônio Coca vai deixando marcas nas estradas. Marcas registradas com palavras conotativas, metafóricas, embebidas numa suave e encantadora rima que parece inigualável e que nos apontam para novos semanticismos.
Caravana de amigos de Cedro de São João presente
Esta foi a poesia vencedora:

Recordando Propriá  
                                Antônio Pedro Caldas

Depois de velho e cansado
Residindo em outro Estado
Com tantas rugas na testa
Vim procurar um abrigo
Na casa de um amigo
Pra falar sobre esta festa.

Vim recordar o passado
Ao velho Chico encostado
Perguntando em Propriá
Cadê o nosso navio
Que navegou neste Rio
Aonde será que ele, está?

Ele Nunca naufragou
Se venderam, alguém comprou
De quem será que ele é?
Outra pergunta da boa
Cadê a maior canoa
Com o nome de Canindé.

Respondam sem brincadeira
Quem comprou a salineira
E a canoa campinas
Outra pergunta suave
Cadê nossa Marialves
De todas, a mais grã fina?

Esta canoa descia
No outro dia subia
Fazendo a gente sorrir
Trazendo seus passageiros
Lembro até do canoeiro
Era o mudo Davi.

Outras que eu não lembro mais
Que passavam por São Brás
Subindo para o sertão
Às vezes sem levar nada
Mas voltavam carregadas
Com arroz, milho e feijão.

Hoje olhando nosso rio
Com seu leito vazio
Dá uma dor no coração
Digo na rima modesta
Ainda fazem esta festa
Por causa da tradição.

Mas Jesus Cristo está vendo
O velho Chico morrendo
E eu perante a luz
Eu tenho a maior certeza
Quem destrói a natureza
Não acredita em Jesus.

Agora pra terminar
Vou pedir em Propriá
Aumentando a minha voz
Grito e peço neste instante
Ao Bom Jesus dos Navegantes
Que proteja a todos nós.

   Informações complementares do portal da Prefeitura Municipal de Propriá (Diego Góis). Fotos: Diego Góis e arquivo pessoal de Antônio Pedro Caldas. Vídeo: arquivo pessoal de Antônio Pedro Caldas.
        Reproduzido do Landisvalth Blog.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Érico Veríssimo: uma biografia quase completa


Érico Veríssimo

Érico Lopes Verissimo nasceu em Cruz Alta (RS) no dia 17 de dezembro de 1905, filho de Sebastião Verissimo da Fonseca e Abegahy Lopes Verissimo.
Em 1909, com menos de 4 anos, vítima de meningite, agravada por uma broncopneumonia, quase vem a falecer. Salva-se graças à interferência do Dr. Olinto de Oliveira, renomado pediatra, que veio de Porto Alegre especialmente para cuidar de seu problema.
Inicia seus estudos em 1912, freqüentando, simultaneamente, o Colégio Elementar Venâncio Aires, daquela cidade, e a Aula Mista Particular, da professora Margarida Pardelhas. Nas horas vagas vai o cinema Biógrafo Ideal ou vê passar o tempo na Farmácia Brasileira, de seu pai.
Aos 13 anos, lê autores nacionais — Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo, Afrânio Peixoto e Afonso Arinos. Com tempo livre, tendo em vista o recesso escolar devido à gripe espanhola, dedica-se, também, aos autores estrangeiros, lendo Walter Scott, Tolstoi, Eça de Queirós, Émile Zola e Dostoievski.
Em 1920, vai estudar, em regime de internato, no Colégio Cruzeiro do Sul, de orientação protestante, localizado no bairro de Teresópolis, em Porto Alegre. Tem bom desempenho nas aulas de literatura, inglês, francês e no estudo da Bíblia.
Seus pais separam-se em dezembro de 1922. Vão — sua mãe, o irmão e a filha adotiva do casal, Maria, morar na casa da avó materna. Para ajudar no orçamento doméstico, torna-se balconista no armazém do tio Americano Lopes. Os tempos difíceis não o separam dos livros: lê Euclides da Cunha, faz traduções de trechos de escritores ingleses e franceses e começa a escrever, escondido, seus primeiros textos. Vai trabalhar no Banco Nacional do Comércio.
Continua devorando livros. Em 1923. Lê Monteiro Lobato, Oswald e Mário de Andrade. Incentivado pelo tio materno João Raymundo, dedica-se à leitura das obras de Stuart Mill, Nietzsche, Omar Khayyam, Ibsen, Verhaeren e Rabindranath Tagore.
No ano seguinte, a família da mãe muda-se para Porto Alegre, a fim de que seu irmão, Ênio, faça o ginásio no Colégio Cruzeiro do Sul. Infelizmente a mudança não dá certo. O autor, que havia conseguido um lugar na matriz do Banco do Comércio, tem problemas de saúde e perde o emprego. Após tratar-se, emprega-se numa seguradora mas, por problemas de relacionamento com seus superiores, passa por maus momentos. Morando num pequeno quarto de uma casa de cômodos e diante de tantos insucessos, a família resolve voltar a Cruz Alta.
Erico volta a trabalhar no Banco do Comércio, como chefe da Carteira de Descontos, em 1925. Toma gosto pela música lírica, que passa a ouvir na casa de seus tios Catarino e Maria Augusta. Seus primos, Adriana e Rafael, filhos do casal, seriam os primeiros a ler seus escritos.
Logo percebe que a vida de bancário não o satisfaz. Mesmo sem muita certeza de sucesso, aceita a proposta de Lotário Muller, amigo de seu pai, de tornar-se sócio da Pharmacia Central, naquela cidade, em 1926.
Em 1927, além dos afazeres de dono de botica, dá aulas particulares de literatura e inglês. Lê Oscar Wilde e Bernard Shaw. Começa a sedimentar seus conhecimentos da literatura mundial lendo, também, Anatole France, Katherine Mansfield, Margareth Kennedy, Francis James, Norman Douglas e muitos outros mais. Começa a namorar sua vizinha, Mafalda Halfen Volpe, de 15 anos.
O mensário “Cruz Alta em Revista” publica, em 1929, “Chico: um conto de Natal” que, por insistência do jornalista Prado Júnior, Erico havia consentido. O colega de boticário e escritor Manoelito de Ornellas envia ao editor da “Revista do Globo”, em Porto Alegre, os contos “Ladrão de gado” e “A tragédia dum homem gordo”, onde, aprovadas, foram publicadas.
Tarcísio Meira faz o Capitão Rodrigo na TV
Erico remete a De Souza Júnior, diretor do suplemento literário “Correio do Povo”, o conto “A lâmpada mágica”. Esse, segundo testemunhas, o publica sem ler, o que dá ao autor notoriedade no meio literário local.
Com a falência da farmácia, em 1930, o autor muda-se para Porto Alegre disposto a viver de seus escritos. Passa a conviver com escritores já renomados, como Mario Quintana, Augusto Meyer, Guilhermino César e outros. No final do ano é contratado para ocupar o cargo de secretário de redação da “Revista do Globo”, cargo que ocupa no início do ano seguinte.
Em 1931 casa-se, em Cruz Alta, com Mafalda Halfen Volpe. Lança sua primeira tradução, “O sineiro”, de Edgar Wallace, pela Seção Editora da Livraria do Globo. No mesmo ano traduz desse escritor “O círculo vermelho” e “A porta das sete chaves”. Colabora na página dominical dos jornais “Diário de Notícias” e “Correio do Povo”.
Em 1932, é promovido a Diretor da “Revista do Globo”, ocasião em que é convidado por Henrique Bertaso, gerente do departamento editorial da “Livraria do Globo”, a atuar naquela seção, indicando livros para tradução e publicação. Sua obra de estréia, “Fantoches”, uma coletânea de histórias em sua maior parte na forma de peças de teatro. Foram vendidos 400 exemplares dos 1.500 publicados. A sobra, um incêndio queimou.
Traduz, em 1933, “Contraponto”, de Aldous Huxley, que só seria editado em 1935. Seu primeiro romance, “Clarissa”, é lançado com tiragem de 7.000 exemplares.
Seu romance “Música ao longe” o faz ser agraciado com o Prêmio Machado de Assis, da Cia. Editora Nacional, em 1934. No ano seguinte, nasce sua filha Clarissa. Outro romance, “Caminhos cruzados”, recebe o Prêmio Fundação Graça Aranha. O autor admite a associação desse romance a “Contraponto”, de Aldo Huxley, o que faz com que seja mal recebido pela direita e atice a curiosidade e a vigilância do Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul, que chegou a chamá-lo a depor, sob a acusação de comunismo. São publicados, ainda nesse ano, “Música ao longe” e “A vida de Joana d’Arc”. Realiza sua primeira viagem ao Rio de Janeiro (RJ), onde faz contato com Jorge Amado, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego e outros mais. Seu pai falece.
Em 1936, publica seu primeiro livro infantil, “As aventuras do avião vermelho”. Lança, também, “Um lugar ao sol”. Cria o programa de auditório para crianças, “Clube dos três porquinhos”, na Rádio Farroupilha, a pedido de Arnaldo Balvé. Dessa idéia surge a “Coleção Nanquinote”, com os livros “Os três porquinhos pobres”, “Rosa Maria no castelo encantado” e “Meu ABC”. Lança a revista “A novela”, que oferecia textos canônicos ao lado de outros, de puro entretenimento. Nasce seu filho Luis Fernando. É eleito presidente da Associação Rio-Grandense de Imprensa.
O DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, exige que o autor submeta previamente àquele órgão as histórias apresentadas no programa de rádio por ele criado, em 1937. Resistindo à censura prévia, encerra o programa. Outra reação ao nacionalismo ufanista da ditadura Vargas se faz sentir na versão para didática da história do Brasil em “As aventuras de Tibicuera”.
Um de seus maiores sucessos, “Olhai os lírios do campo”, é lançado em 1938. Publica, nesse mesmo ano, “O urso com música na barriga”, da “Coleção Nanquinote”.
Erico passa a dedicar a maior parte de seu tempo ao departamento editorial da Globo, em 1939. Em companhia de seus companheiros Henrique Barroso e Maurício Rosenblatt, é responsável pelo sucesso estrondoso de coleções como a Nobel” e da “Biblioteca dos Séculos”, nas quais eram encontrados traduções de textos de Virginia Wolf, Thomas Mann, Balzac e Proust. Mesmo assim, com todo esse trabalho, arranja tempo para lançar, ainda da série infantil, “A vida do elefante Basílio” e “Outra vez os três porquinhos”, e o livro de ficção científica “Viagem à aurora do mundo”.
Em 1940, lança “Saga”. Pronuncia conferências em São Paulo (SP). Traduz “Ratos e homens”, de John Steinbeck; “Adeus Mr. Chips” e “Não estamos sós”, de James Hilton; “Felicidade” e “O meu primeiro baile”, de Katherine Mansfield. Faz sua primeira noite de autógrafos na Livraria Saraiva.
Passa três meses nos Estados Unidos, a convite do Departamento de Estado americano, em 1941, proferindo conferências. As impressões dessa temporada estão em seu livro “Gato preto em campo de neve”. Ele e seu irmão Enio são testemunhas de um suicídio: uma mulher se atira do alto de um edifício quando conversavam na praça da Alfândega, em Porto Alegre. Esse acontecimento é aproveitado em seu livro “O resto é silêncio”.
A censura no estado novo continuava atenta. A Globo cria a Editora Meridiano, uma subsidiária secreta para lançar obras que pudessem desagradar ao governo. Essa editora publica “As mãos de meu filho”, reunião de contos e outros textos, em 1942.
No ano seguinte, publica “O resto é silêncio”, livro que merece críticas pesadas do clero local. Temendo que a ditadura Vargas viesse a causar-lhe danos e á sua família, aceita o convite para lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia feito pelo Departamento de Estado americano. Muda-se para Berkley com toda a família.
O Mills College, de Oakland, Califórnia, onde dava aulas de Literatura e História do Brasil, confere-lhe o título de doutor Honoris Causa, em 1944. É publicado o compêndio “Brazilian Literature: An Outline”, baseado em palestras e cursos ministrados durante sua estada na Califórnia. Esse livro foi publicado no Brasil, em 1955, com o título “Breve história da literatura brasileira”.
Fernanda Montenegro numa das cenas de Incidente em Antares
adaptado para minissérie da TV Globo 
 Passa o ano de 1945 fazendo conferências em diversos estados americanos. Retorna ao Brasil.
Em 1946, publica “A volta do gato preto”, sobre sua vida nos Estados Unidos.
Inicia, em 1947, a escrever “O tempo e o vento”. Previsto para ter um só volume, com aproximadamente 800 páginas, e ser escrito em três anos, acabou ultrapassando as 2.200 páginas, sob a forma de trilogia, consumindo quinze anos de trabalho.  Traduz “Mas não se mata cavalo”, de Horace McCoy. Faz a primeira adaptação para o cinema de uma obra de sua autoria: “Mirad los lírios Del campo”, produção argentina  dirigida por Ernesto Arancibia que tinha em seu elenco Mauricio Jouvet e Jose Olarra.
No ano seguinte, dedica-se a ordenar as anotações que vinha guardando há tempos e dar forma ao romance “O continente”. Traduz “Maquiavel e a dama”, de Somerset Maugham.
”O continente”, primeiro volume de “O tempo e o vento”, é finalmente publicado, em 1949, recebendo muitos elogios da crítica. Recebe o escritor franco-argelino Albert Camus, autor de “A peste”, em sua passagem por Porto Alegre.
No ano de 1951, é lançado o segundo livro da trilogia “O tempo e o vento”: “O retrato”. O trabalho não tão bem recebido pela crítica como o primeiro livro.
Assume, em 1953, a convite do governo brasileiro, em Washington, E.U.A., a direção do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, na Secretaria da Organização dos Estados Americanos, substituindo a Alceu Amoroso Lima.
No ano seguinte, é agraciado com o prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Lança “Noite”, novela que é traduzida na Noruega, França, Estados Unidos e Inglaterra. Visita, face às funções assumidas junto à OEA, diversos países da América Latina, proferindo palestras e conferências.
De volta ao Brasil, em 1956, lança “Gente e bichos”, coleção de livros para crianças. Sua filha casa-se com David Jaffe e vai morar nos Estados Unidos. Dessa união nasceriam seus netos Michael, Paul e Eddie.
Em 1957, publica “México”, onde conta as impressões da viagem que fizera àquele país.
”O arquipélago”, terceiro livro da trilogia “O tempo e o vento”, começa a ser escrito em 1958. Tem um mal-estar ao discursar na abertura de um congresso em Porto Alegre. Consegue se refazer e disfarçar o ocorrido.
Acompanhado de sua mulher e do filho Luis Fernando, faz sua primeira viagem à Europa, em 1959. Expõe sua defesa à democracia em palestras proferidas em Portugal e entra em choque com a ditadura salazarista. Lança “O ataque”, que reunia três contos: “Sonata”, “Esquilos de outono” e “A ponte”, além de um capítulo inédito de “O arquipélago”. Passa uma temporada na casa de sua filha, em Washington.
Dedica-se, em 1960, a escrever “O arquipélago”.
Em 1961, sofre o primeiro infarto do miocárdio. Após dois meses de repouso absoluto, volta aos Estados Unidos com sua mulher. Saem os primeiros tomos de “O arquipélago”.
O terceiro tomo de “O Arquipélago” é publicado em 1962, concluindo o projeto de “O tempo e o vento”. O volume é considerado uma obra-prima. Visita a França, Itália e a Grécia.
A mãe do biografado falece em 1963.
Em 1964, seu filho Luis Fernando casa-se com Lúcia Helena Massa, no Rio de Janeiro, cidade para a qual ele se mudara em 1962. Dessa união nasceriam Fernanda, Mariana e Pedro. Insurge-se contra o golpe militar e dirige manifesto a seus leitores em defesa das instituições democráticas. Recebe o título de “Cidadão de Porto Alegre”, conferido pela Câmara de Vereadores daquela cidade.
Ganha o Prêmio Jabuti – Categoria “Romance”, da Câmara Brasileira de Livros, em 1965, com o livro “O senhor embaixador”. Volta aos Estados Unidos.
A convite do governo de Israel, visita aquele país em 1966. Vai aos Estados Unidos, mais uma vez, visitar seus familiares. Escreve “O prisioneiro”, que seria lançado em 1967. A Editora José Aguilar, do Rio de Janeiro, publica, em cinco volumes, o conjunto de sua ficção completa. Desse conjunto faz parte uma pequena autobiografia do autor, sob o título “O escritor diante do espelho”.
”O tempo e o vento”, sob a direção de Dionísio Azevedo, com adaptação de Teixeira Filho, estréia na TV Excelsior, em 1967. No elenco, Carlos Zara, Geórgia Gomide e Walter Avancini.
É agraciado com o prêmio “Intelectual do ano” (Troféu Juca Pato”), em 1968, em concurso promovido pela “Folha de São Paulo” e pela “União Brasileira de Escritores”.
No ano seguinte, a casa onde Erico nascera, em Cruz Alta, é transformada em Museu Casa de Erico Verissimo. Lança “Israel em abril”.
Em 1971, é editado o livro “Incidente em Antares”.
Em 1972, comemorando os 40 anos de lançamento de seu primeiro livro, relança “Fantoches”, onde o autor acrescentou notas e desenhos de sua autoria.
Amplia sua autobiografia, publicada em 1966, fazendo surgir suas memórias — sob o título de “Solo de clarineta” — cujo primeiro volume é publicado em 1973.
O escritor falece subitamente no dia 28 de novembro de 1975, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria “A hora do sétimo anjo”.