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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Educação: Artigo de Gustavo Ioschpe em VEJA: 'Nossa escola não é feita para dar certo'


     Isso se por "dar certo" entendermos a formação de uma pessoa com as habilidades mínimas para navegar o mundo e desenvolver seu potencial
     Gustavo Ioschpe – da revista VEJA
Empresas - tocadas como escolas iriam à falência (Iconica/ Getty Images)
     Imagine que você trabalha em uma empresa em que os funcionários não ganham de acordo com sua competência, mas sim segundo seu tempo de casa e nível de estudo. Não há promoções, mas também só há demissão em casos de violação grotesca. Mesmo faltando repetidamente ao serviço, não alcançando sua meta ano após ano e maltratando seu cliente, você continua no posto até se aposentar. Imagine que não exista, em sua região, universidade que prepare bem para o seu emprego, de forma que você já chega ao trabalho não sabendo muito. Pior: tem gente que trabalha em área diferente daquela em que foi formada; o cara de vendas se formou em letras. Imagine que essa empresa só tenha dois cargos (funcionário e chefe) e que quase metade dos chefes tenha chegado ao cargo por indicação de um conhecido dos donos (o restante é majoritariamente eleito para a posição pelos funcionários). Imagine que os donos são muitos, que eles não costumam frequentar a empresa e que a herdaram como parte de um conglomerado, do qual a sua empresa é uma das que agregam menos valor aos donos. Imagine agora que o serviço prestado pela sua empresa é complexo e dirigido a crianças e jovens. Imagine também que essas crianças e seus pais não saibam julgar a qualidade do serviço, mas achem que está tudo bem, desde que você o empacote em uma embalagem bonita e dê aos clientes alguns brindes (uns livros, umas roupas, de repente até um laptop aos mais sortudos). A empresa consegue dar todos esses brindes; a maioria dos clientes está, portanto, satisfeita. Imagine que os clientes e seus familiares não precisem pagar diretamente pelo serviço: o pagamento vem da empresa-mãe (a que congrega todos os negócios do grupo) e é baseado na compra de outros produtos e serviços oferecidos por outras empresas do grupo.
Agora pense nesse ambiente de trabalho e responda às seguintes perguntas. Se você trabalhasse nele, estaria motivado a dar o seu melhor ou pegaria leve, esperando o contracheque no fim do mês? Como você acha que seus outros colegas de empresa se comportariam? Se lhe dessem um aumento salarial, você se esforçaria mais? Se você fosse uma pessoa carreirista, permaneceria nessa empresa? Aliás, você teria entrado nela? No caso dos chefes indicados pelos amigos dos donos, você acha que eles estariam mais preocupados em agradar aos clientes ou aos donos e seus amigos? No caso dos chefes eleitos por você e seus colegas, acha que eles comprariam briga com você para defender os interesses dos clientes ou virariam seus aliados? Presumindo que os clientes permanecessem satisfeitos e que continuassem pagando indiretamente pelo serviço, você acha que os donos se interessariam em reformar a empresa para que ela servisse melhor sua clientela, desse mais resultados? Ou será que suas prioridades seriam manter a coisa no estado em que se encontra e devotar suas energias para os outros braços do conglomerado, os que dão mais retorno?
Não sei qual o grau de sua fé na humanidade nem suas crenças na natureza humana, mas eu tendo a achar que a empresa acima seria uma balbúrdia, com profissionais desmotivados e trabalhando abaixo de sua capacidade, clientes mal atendidos, conchavos entre funcionários e chefes, donos desinteressados e pouco envolvidos. Eu acho que melhorar o salário dos funcionários não mudaria o problema. Vou além: enquanto essa estrutura de incentivos não fosse alterada, qualquer investimento numa empresa assim seria um desperdício de tempo e dinheiro. Aliás, não é uma opinião, até porque esse cenário não é hipotético nem trata de empresas. O quadro descrito retrata a maioria das escolas públicas brasileiras. Os funcionários são os professores, os chefes são os diretores de escola, os donos são a classe política, os clientes são os alunos. O resto não carece de alterações para chegar à realidade.
O desafio é vencer as adversidades - Washington Alves/AE
Aposto que você sabe que nossa educação é péssima e que esse problema é fatal para nossas possibilidades de desenvolvimento. Aposto também que você acha que esse problema não o afeta, especialmente se você põe seu filho em escola particular. Aposto que gasta mais tempo na seção de esportes do seu jornal do que naquela que cuida de educação. Se é que o seu jornal tem uma seção devotada ao assunto, já que 90% da cobertura do tema se limita a notícias sobre greves, ameaças de greve e outras reclamações salariais. E, até porque o assunto é apenas esse — dinheiro —, você acha (acha não: você tem certeza, depois de vinte ou trinta anos de leituras sobre o assunto) que o principal problema da educação brasileira é o salário dos professores. Aposto também que, dois parágrafos antes, você respondeu que aumentar o salário dos funcionários não resolveria nada, e aposto também que você gosta dos brindes (se você for mais pobre, merenda; se mais rico, lousa eletrônica ou currículo bilíngue) que a escola do seu filho dá.
Antes que os patrulheiros se arvorem, não estou querendo comparar a escola a uma empresa. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Apenas propus um exercício mental. O que espero que esse exercício tenha deixado claro é o seguinte: não é que a educação brasileira fracassa misteriosamente apesar dos melhores esforços de todos os envolvidos. Ela fracassa porque esse arranjo institucional requer a irracionalidade de todos os envolvidos, do prefeito ao professor. Nossa escola não é feita para dar certo — se por "dar certo" entendermos a formação de uma pessoa com as habilidades mínimas para navegar o mundo e desenvolver seu potencial.
    O professor apaixonado - supera deficiências
Não faz sentido para um professor brasileiro comprar a briga: com má formação, precisaria de um esforço hercúleo para obter grandes resultados. Mas esses resultados não lhe trariam reconhecimento, promoções, prêmios ou aumentos. Não faz sentido para o aluno brasileiro se esforçar: a aula que ele recebe é extremamente chata, a maioria dos professores não está muito preocupada com o seu aprendizado, e ele sabe que, se fizer um esforço mínimo, vai continuar sendo aprovado, mesmo sem aprender bulhufas. Não faz sentido para o diretor de escola se insurgir contra essa situação e querer mudar radicalmente o status quo. Se a sua nomeação depende de eleição dos professores, ele não vai querer exigir de seus eleitores mais trabalho e dedicação, até por não ter nada a lhes oferecer em troca. Se o diretor tiver indicação política, então, Deus o livre de qualquer incômodo: o importante é dar vida fácil a todos, carregar nos "brindes" e deixar os eleitores do seu padrinho político felizes. Não faz sentido para os pais dos alunos protestar contra o atual estado de coisas, porque a maioria deles está satisfeita com a educação que o filho recebe (em pesquisa recente do Inep, a nota média dada pelos pais de alunos da escola pública à qualidade da educação do filho foi 8,6!). E a maioria está satisfeita porque não tem condições intelectuais de avaliar o que é uma boa educação, pois é semiletrada, e nem sabe que existem avaliações oficiais sobre a qualidade do ensino do filho. Finalmente, não faz sentido para o político trabalhar para melhorar a qualidade do ensino: não há pressão por parte de alunos nem de seus pais, e há uma enorme resistência a qualquer mudança por parte dos sindicatos de professores e funcionários. Politicamente, só há custos, sem 
benefícios. Nenhum político racional mexe nesse vespeiro. Há, é claro, as exceções. O professor apaixonado pelo que faz, que dá duro independentemente do salário, da carreira desanimadora, dos alunos desmotivados e dos colegas que o pressionam para se aquietar. O diretor comprometido, que se orgulha de fazer uma grande escola e seleciona profissionais que comprem essa batalha. Os alunos e seus pais que querem melhorar de vida e sabem que precisam de educação de qualidade, que lutam contra a pasmaceira. E os políticos comprometidos com a próxima geração, e não com a próxima eleição. Mas esses são minoria, e o sistema está contra eles. Enquanto a lógica do sistema não for alterada, todas as ações pontuais para melhorá-lo — da lousa eletrônica ao salário mais alto — provavelmente irão para o ralo. Acredito que o quadro só mudará quando a população passar a ver a educação brasileira como ela realmente é. Somente aí poderemos esperar a pressão popular por uma educação de qualidade, que gerará incentivo para que políticos cobrem desempenho dos funcionários do sistema. Ou seja, o problema é seu. Está esperando o que para fazer alguma coisa?

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Roteiro de viagem: MACHU PICCHU


Haroldo Castro viaja como jornalista,
fotógrafo e conservacionista.
O fundador do Clube de Viajologia
visitou 138 países.
Esta foi sua 24ª viagem ao Peru

Fortaleza inca no alto dos Andes Eleita uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo, a cidadela inca continua a surpreender visitantes - mas seu estado de conservação demanda cuidados
Texto e fotos: Haroldo Castro – da Revista PLANETA – edição 432.
Machu Picchu é o maior tesouro que os incas deixaram ao Peru moderno. O lugar rende mais riquezas do que ouro que os conquistadores derreteram e levaram para a Espanha. Por ano, o santuário histórico movimenta cerca de US$ 150 milhões e recebe 500 mil visitantes!
Pode parecer clichê, mas o lugar é mesmo espetacular. Já estive oito vezes em Machu Picchu e nunca senti que havia perdido a viagem. Sempre encontro algo diferente. Entretanto, chegar de trem e de ônibus apinhado de turistas – como fazem 90% dos visitantes – é, no mínimo, banal. Por isso, dessa vez, preferi suar um pouco e conquistar Machu Picchu a pé!
À esquerda, o Templo das Três Janelas, cuja função seria a de marcar os solstícios e
os equinócios. Na foto ao centro, as begônias rosas, flor endêmica da região.
À direita, o Intihuatana de Machu Picchu, fotografado antes de ter tido sua ponta
fraturada por um acidente durante a produção de um comercial de cerveja.
Havia uma vasta rede de caminhos por todo o território inca. Várias trilhas ainda existem e uma delas leva até Machu Picchu. Junto a outros andarilhos, desço do trem no km 104. Atravessamos o caudaloso rio Urubamba e damos início a nossa jornada a 2.150 metros de altitude, nas ruínas de Chachabamba.
A chamada Trilha Inca atravessa montanhas, vales e até florestas. Seus 35 quilômetros são percorridos em quatro dias. Mas a opção que escolhi é o caminho de apenas um dia, uma alternativa à trilha completa. Mesmo assim, são sete quilômetros de encostas para chegar às ruínas de Wiñay Wayna e mais outros seis quilômetros até Machu Picchu.
Wiñay Wayna significa em quéchua “sempre jovem”. A 500 metros de altitude acima do rio Urubamba, é a etapa de descanso antes de chegar a Machu Picchu. Nesse ponto, nosso caminho junta-se com a trilha de quatro dias. Aqueles que atingiram Wiñay Wayna percorreram três dias de sobe-e-desce. Cruzaram montanhas, venceram desfiladeiros e passaram pelo ponto mais alto da trilha, Warmiwañusca, a 4.200 metros.
Percorri a Trilha Inca completa de quatro dias em 1978. Na época, não existia nenhuma infra-estrutura ou segurança. Apenas os mais atrevidos ousavam encarar as subidas e descidas íngremes. Com as décadas, o caminho tornou-se tão popular que milhares de pessoas passaram a usar a trilha. O impacto dessa massa de caminhantes foi violento. Toneladas de lixo foram deixadas pelos turistas. O movimento provocou erosão em alguns trechos e ameaçou a integridade de várias ruínas arqueológicas.
O governo peruano precisou intervir e impor restrições. Agora é necessário ter uma autorização para percorrer o caminho e, no mínimo, US$ 400 para cobrir os gastos. Quinhentas pessoas, incluindo as equipes de apoio, podem iniciar o caminho a cada dia. E, para poder estar entre os escolhidos, é necessário reservar lugar com três meses de antecedência.
O momento culminante da Trilha Inca é a chegada em Inti Punku, a Porta do Sol, entrada original de Machu Picchu. Acredita-se que esse acesso não era uma via comercial, mas um percurso cerimonial. Era considerado uma peregrinação, onde cada etapa incluía rituais, inclusive para os Ápus, as montanhas sagradas.
Depois de mais de seis horas de caminhada, a nossa recompensa é uma visão grandiosa. Dá para entender o impacto que Machu Picchu produz nas pessoas. O lugar impõe respeito e admiração. A paisagem transmite a força da natureza. O ambiente transporta as pessoas a um outro espaço e tempo.
Mas, afinal, o que teria sido Machu Picchu? Apenas uma fortaleza, como dizem alguns arqueólogos? Mas para proteger o que e de quem? Isolada pelas correntezas do rio Urubamba, que passa a seus pés, e por um anel de picos montanhosos, Machu Picchu não tem as características de uma fortaleza clássica ou de um centro administrativo. Mais lógico seria conceber a cidadela como um refúgio espiritual – ou até mesmo um esconderijo político.
A cidade é uma obra auto-sustentável, com plataformas agrícolas e edificações talhadas na própria montanha. Todo material utilizado na construção veio das redondezas. As estruturas são de granito; os muros ligeiramente inclinados compensam o impacto de possíveis terremotos. Formam um conjunto arquitetônico de alto valor estético. No total, são 150 casas, além de palácios, templos e aquedutos. Tudo muito bem preservado.
Os vestígios arqueológicos de Machu Picchu confirmam que a maioria das edificações data do início do século 15, bem antes da chegada dos conquistadores. A cidade continuou habitada até 40 anos depois da tomada de Cuzco.
Os espanhóis jamais conheceram Machu Picchu. Foi o explorador norte-americano Hiram Bingham que descobriu as ruínas, em 1911. Quando ele chegou a Machu Picchu, a cidade estava escondida, recoberta por 400 anos de vegetação. Depois de dois anos de exploração arqueológica, patrocinada pela Universidade de Yale e pela National Geographic, Bingham voltou aos Estados Unidos com mais de 5 mil artefatos. A maioria deles continua nos depósitos do museu da universidade. Hoje, o governo peruano e Yale discutem sobre o retorno dessas peças para que sejam expostas em um museu local. Bingham nunca teria imaginado que, um século depois da descoberta, a antiga cidade seria uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo.
O explorador não encontrou nenhum objeto que poderia ser considerado como tesouro. Não foi descoberta nenhuma cerâmica espetacular ou qualquer objeto de ouro ou de prata. Apenas algumas peças de bronze e de uso diário. Na verdade, o “tesouro” mais extraordinário de Machu Picchu é sua localização natural, cercada de montanhas e florestas. É esse entorno, esse ambiente mágico, que faz com que visitantes de todas as partes do mundo sejam atraídos por Machu Picchu.
Pela sua localização, Machu Picchu parece estar sempre brincando com as nuvens. Até mesmo na época seca, quando o sol deveria brilhar sozinho no céu, nuvens de chuva podem se formar a qualquer momento. É essa água que dá vida à vegetação das encostas das montanhas.
Com 32 mil hectares, o Santuário Histórico de Machu Picchu concentra uma grande biodiversidade. Isso acontece porque ele abrange dez diferentes zonas ecológicas, com altitudes que variam de 1.700 metros, no rio Urubamba, a mais de 6.200 metros de altitude, com o pico nevado Salcantay.
Apenas um terço do Santuário foi explorado por biólogos. Mas já se sabe que a flora é rica e variada, com uma grande quantidade de arbustos, samambaias e trepadeiras. Foram identificadas cerca de 300 espécies de orquídeas e existem dezenas de espécies de bromélias, cada uma adaptada a uma diferente altitude. Uma begônia rosa é nativa da região.
Em sentido horário, a partir do alto: a esplanada principal de Machu Picchu;
a Torre de Machu Picchu parece ter tido mais uma função cerimonial
do que militar; casa inca na parte leste de Machu Picchu; as pedras brutas
parecem ter sido transformadas em habitações no próprio local.
Machu Picchu foi construída de acordo com a magia da natureza. O Templo das Três Janelas é uma prova, pois marca as quatro estações do ano. Nos dias de equinócio da primavera e do outono, o sol nasce na janela do centro. Nos solstícios do inverno e do verão, aparece na janela das pontas.
Esse conhecimento dos mzovimentos dos astros parece ter sido uma marca registrada da cultura inca. Não é apenas o Templo das Três Janelas que marca a passagem das estações. O Intihuatana, o coração do centro cerimonial de Machu Picchu, também dá essa informação. Inti (“sol”, em quéchua) e Huatana (da palavra Huata, “amarrar”) significaria “lugar onde se amarra o sol”.
Esse pedaço de granito, esculpido em uma forma bem particular, era utilizado como instrumento para medir o ciclo do tempo e das estações do ano. São as sombras projetadas pela pedra – ou a ausência delas – que dão a informação necessária. Esse calendário natural teria uma função importante para organizar a vida social, agrícola e religiosa dos incas. Assim, Machu Picchu poderia ter sido também um observatório astronômico.
Mas a principal função do Intihuatana não está descrita em textos arqueológicos. A tradição andina atribui ao aparelho solar o poder de captar a energia do sol, permitindo uma maior visão espiritual do iniciado. Pedras como o Intihuatana eram sagradas para os incas e existiam em todo o território. Por essa razão, foram alvo de destruição sistemática pelos espanhóis. Os conquistadores entendiam que, ao arrasar as pedras sagradas, estariam também desconectando os incas de seus deuses.
Como não foi descoberto pelo conquistador, o Intihuatana de Machu Picchu foi poupado. Porém, em setembro de 2000, um triste acidente, durante a gravação de um comercial de cerveja, danificou o que os espanhóis não haviam conseguido. Um equipamento pesado caiu em cima da ponta do Intihuatana, fraturando oito centímetros da pedra sagrada.
Na verdade, o estado de conservação do santuário é delicado. Machu Picchu, considerado Patrimônio Mundial Natural e Cultural desde 1983, tomou um cartão amarelo da Unesco no ano passado. O órgão das Nações Unidas, que trata da área cultural, científica e educacional, vem demonstrando sua crescente preocupação com o impacto provocado pelo turismo de massa. A última missão da Unesco concluiu que Machu Picchu tem problemas sérios de desmatamento, desenvolvimento urbano desenfreado e acesso ilegal, além de correr graves riscos de deslizamento de terra.
A esperança é que o Instituto Nacional de Cultura e outras instituições peruanas envolvidas na região saibam ouvir as advertências da Unesco e passem a administrar Machu Picchu com uma visão integrada e não apenas como uma fonte inesgotável de renda.

Criado o dia nacional da MPB em homenagem a Chiquinha Gonzaga


17 de outubro foi escolhido por ser o dia do nascimento da pianista e regente Chiquinha Gonzaga
Chiquinha Gonzaga aos 17 anos
A presidente Dilma Rousseff sancionou ontem lei que cria o Dia Nacional da Música Popular Brasileira, em 17 de outubro. A data foi escolhida por ser o dia do nascimento da pianista e regente Chiquinha Gonzaga (1847-1935), a primeira compositora popular do Brasil. O texto da lei 12.624 foi publicado ontem no Diário Oficial da União.
A carioca Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, transitava por vários ritmos (polca, tango, choro, marcha) e fazia uma ponte entre erudito e popular. É dela a canção Ó Abre Alas, sucesso eterno nos bailes de carnaval. Também fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT).
Compositora, instrumentista, regente. Rio de Janeiro, RJ, 17/10/1847– idem, 28/02/1935. Maior personalidade feminina da história da música popular brasileira e uma das expressões maiores da luta pelas liberdades no país, promotora da nacionalização musical, primeira maestrina, autora da primeira canção carnavalesca, primeira pianista de choro, introdutora da música popular nos salões elegantes, fundadora da primeira sociedade protetora dos direitos autorais, Chiquinha Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro, filha do militar José Basileu Neves Gonzaga e de Rosa de Lima Maria. Estudou piano com professor particular e aos 11 anos compôs sua primeira música, uma cantiga de Natal: Canção dos Pastores.
Aqui com 29 anos, Chiquinha já fazia sucesso
Casou-se aos 16 anos, com um oficial da Marinha Mercante escolhido por seus pais. Poucos anos depois abandonou o marido por um engenheiro de estradas de ferro, de quem também logo se separou. Passou a sobreviver como professora de piano. A convite do famoso flautista Joaquim Antônio da Silva Callado (1848-1880), passou a integrar o Choro Carioca como pianista, tocar em festas e frequentar o ambiente artístico da época. A estreia como compositora se deu em 1877, com a polca Atraente, composta de improviso durante roda de choro em casa do compositor Henrique Alves de Mesquita e publicada pela Viúva Canongia, Grande Estabelecimento de Pianos e Músicas. Por desafiar os padrões familiares da época, sofreu fortes preconceitos. Aperfeiçoou-se com o pianista português Artur Napoleão (1843-1925). Sua vontade de musicar para teatro levou-a a escrever partitura para um libreto de Artur Azevedo, Viagem ao Parnaso. A peça foi recusada pelos empresários.
Outras tentativas fracassaram, até que conseguiu, em 1885, musicar a opereta de costumes A Corte na Roça, encenada no Teatro Príncipe Imperial. Em 1889 promoveu e regeu, no Teatro São Pedro de Alcântara, um concerto de violões, instrumento estigmatizado àquela época. Foi uma ativa participante do movimento pela abolição da escravatura, vendendo suas partituras de porta em porta a fim de angariar fundos para a Confederação Libertadora. Com o dinheiro arrecadado na venda de suas músicas comprou a alforria de José Flauta, um escravo músico. Chiquinha Gonzaga também participou da campanha republicana e de todas as grandes causas sociais do seu tempo. Já era uma artista consagrada quando compôs, em 1899, a primeira marcha- rancho, Ó Abre Alas, verdadeiro hino do carnaval brasileiro.
Chiquinha aos 47 anos
Na primeira década deste século esteve algumas vezes na Europa, fixando residência em Lisboa por três anos. De volta ao Brasil deu uma contribuição decisiva ao teatro popular ao musicar, em 1912, a burleta de costumes cariocas Forrobodó, seu maior sucesso teatral. Em 1914 seu tango Corta-Jaca foi executado pela primeira- dama do país, Nair de Teffé, em recepção oficial no Palácio do Catete, causando escândalo político.
Em setembro de 1917, após anos de campanha, liderou a fundação da SBAT, sociedade pioneira na arrecadação e proteção dos direitos autorais. Aos 85 anos de idade escreveu a última partitura, Maria, com libreto de Viriato Corrêa. Sua obra reúne dezenas de partituras para peças teatrais e centenas de músicas nos mais variados gêneros: polca, tango brasileiro, valsa, habanera, schottisch, mazurca, modinha etc. Chiquinha Gonzaga faleceu aos 87 anos de idade, no dia 28 de fevereiro de 1935, no Rio de Janeiro.
Chiquinha Gonzaga aos 78 anos
DADOS CRONOLOGIA
1847 Nasce no Rio de janeiro a 17 de outubro.
1863 Casa-se com Jacinto Ribeiro do Amaral.
1864 Nasce seu primeiro filho: João Gualberto.
1865 Nasce sua filha Maria.
1866 Embarca com o marido no navio São Paulo, por este fretado, que transporta tropas para a Guerra do Paraguai.
1869 É homenageada pelo compositor Joaquim Antônio Callado com a polca "Querida por todos".
1870 Nasce seu terceiro filho, Hilário.
1875 Nasce Alice, sua filha com o engenheiro João Batista de Carvalho. Sofre processo de divórcio movido pelo marido no Tribunal Eclesiástico.
1877 Primeira obra editada: a polca Atraente, que em nove meses chega à 15ª edição.
1879 Começa a instrumentar, com autodidatismo.
1880 Anuncia-se publicamente como professora de várias matérias.
1883 Tentativa frustrada de musicar libreto de Arthur Azevedo (a produção teatral não aceita uma mulher como autora da música).
1885 Estréia como maestrina.
1888 Extinção da escravidão no Brasil, pela qual durante tantos anos Chiquinha Gonzaga lutara.
1889 - Proclamação da República, outro anseio da compositora.
1890 Nasce a primeira neta.
1891 Falecimento do pai.
1897 Falecimento de Rosa, sua mãe.
Aqui já com 85 anos, reconhecida e consagrada.
1899 Carnaval. Compõe Ó Abre Alas. Conhece João Batista, jovem português de 16 anos que seria seu companheiro até o fim da vida.
1902 Viaja para a Europa.
1904 Segunda viagem à Europa.
1906 Instala-se em Portugal.
1909 Retorno ao Brasil.
1911 Inicia intensa atividade musicando peças teatrais para os espetáculos por sessões dos cine-teatros da Praça Tiradentes (RJ).
1912 Estréia Forrobodó, seu maior sucesso teatral.
1913 Deflagra campanha em defesa pelo direito autoral dos compositores e teatrólogos.
1914 Lançamento, com grande sucesso, do tango Corta-Jaca.
1917 Participa da fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.
1919 Grande éxito da peça de costumes regionais Juriti.
1925 Recebe homenagens consagradoras da SBAT e reconhecimento do país inteiro.
1928 Seu filho João Gualberto morre em São Paulo.
1933 Aos 85 anos, escreve sua última partitura para teatro: Maria.
1934 Falecimento da filha Maria.
1935 Morre no dia 28 de fevereiro. Dois dias depois realiza-se o primeiro concurso oficial das escolas de samba.
Informações de O Estado de São Paulo e do portal Chiquinha Gonzaga. As fotos são reproduções do livro Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, de Edinha Diniz, 2001.

sábado, 5 de maio de 2012

Revivendo a Guerra do Contestado V


A GUERRA
PARTE II
Do portal: HID0141 HISTORIA LICENCIATURA(http://hid0141.blogspot.com) – de EDSON DAY.
TERRAS EM DISPUTA
A bandeira do Contestado
Nos primeiros tempos de sua história, o Planalto de Santa Catarina foi habitado pelos índios Gê, tradicionais inimigos dos Guarani, que viviam no outro lado do Rio do Peixe. Ao longo do século XVIII, o tropeiro, um homem branco, percorre a região no sentido sul-norte, conduzindo bois e cavalos entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. Com o passar dos anos, surge o homem típico do Planalto, conhecido como caboclo. Ele trabalha na condução das tropas, nas fazendas de criação de gado ou na colheita da erva-mate. Esse novo habitante não consegue receber um título de propriedade, pois mesmo as terras devolutas estão reservadas para os “coronéis” do Planalto ou para os políticos do Litoral. Além disso, Santa Catarina e Paraná disputam a administração do território, numa velha rixa começada em meados do século XVIII. Assim começa a história do caboclo sem terra e sem governo, personagem central da Guerra do Contestado.
ALEMÃES SOBEM A SERRA
Em 1868 esgotam-se os lotes rurais na Colônia Dona Francisca para instalar os novos imigrantes alemães, que continuavam a chegar da Europa. A falta de terras para cultivar e o número considerável de alemães-sem-terra obrigam a direção da Colônia a abrir um novo núcleo Serra acima, onde existem 247 quilômetros quadrados de terras no campo de São Miguel, em direção ao rio de São Bento, também pertencentes à Dona Francisca. Nos primeiros dias de setembro de 1873, as autoridades de Joinville escolhem 70 imigrantes robustos e desejosos de arriscar a odisséia de subir a serra para abrir picadas e preparar os ranchos necessários à instalação das respectivas famílias. Em 26 de novembro chegam as primeiras famílias para fundar o núcleo, que recebe o nome de São Bento. As mulheres e as crianças seguiram em carroças até o limite do trecho carroçável da estrada Dona Francisca, no quilômetro 33, do Alto da Serra. O restante da viagem foi efetuado em lombo de burros e a pé. As crianças foram carregadas em cestos grandes, colocados um em cada lado da mula, os mesmos cestos utilizados no transporte da erva-mate. Este primeiro transporte foi efetuado com 30 mulas. Sete dentre elas levavam cargueiros e mantimentos formados por seis sacos de farinha, três de feijão, seis arrobas de carne, três de toucinho, 30 quilos de açúcar e 15 de café. Outras três mulas levavam, além de sacos com sal, panelas e apetrechos de cozinha, pregos, ferramentas e dobradiças para portas e janelas. O novo povoamento, localizado em terrenos que o Paraná afirma estarem sob a sua jurisdição, vai desaguar em uma sucessão de enfrentamentos entre os novos colonos e as velhas autoridades de Curitiba.
DIREITOS ADQUIRIDOS PELO ESFORÇO
A região na época do conflito
No segundo semestre de 1876, a presidência da Província de Santa Catarina é ocupada por Alfredo d’Escragnolle Taunay, o famoso autor do romance Inocência e do livro de memórias sobre a Guerra do Paraguai, A Retirada da Laguna. Nascido no Rio de Janeiro, engenheiro militar e com pouca ligação anterior com o Estado, o novo presidente sente de perto os problemas resultantes da questão de limites com o Paraná. Em dezembro, poucas semanas antes de deixar o governo, Taunay visita o núcleo de imigrantes alemães, há pouco instalado no alto da Serra do Mar. Em relatório, diz o governador: “O sentimento das populações vivendo ao sul da linha do Rio Negro, ou melhor, à margem esquerda desse rio, excelente limite natural, é contrário, e de modo veemente, a qualquer possibilidade de desanexação desta província. O núcleo de São Bento encerra muitas esperanças e apresenta um rápido incremento. Tudo isso é efeito único da iniciativa particular e da emigração espontânea. Todos os colonos aí estabelecidos abraçaram com ardor a causa de Santa Catarina e mostram-se receosos de qualquer decisão que vá perturbar o bom encaminhamento que tem a prosperidade e o engrandecimento. Como se vê, a questão tornou-se hoje mais complexa, indo afetar direitos adquiridos pelo esforço de uma grande sociedade particular que busca, por meio da atração de boa e moralizada colonização, desenvolver seus meios de ação, concorrendo simultaneamente para a grandeza do Brasil.”
CONFLITOS AUMENTAM EM SÃO BENTO
Os rebeldes
O progresso do núcleo de São Bento, fundado em 1873, exige a constante ajuda de novos imigrantes. Dois anos depois chega um outro grupo de alemães. Mas seis famílias não conseguem entrar no respectivo lote porque ele já está ocupado com posseiros oriundos do Paraná. Para evitar um previsível conflito, as autoridades de Curitiba aplicam uma série de medidas que garantem a jurisdição paranaense sobre os imigrantes recém-instalados.

Três dessas medidas aumentam o conflito.

1. Os seis posseiros permanecem em seus lotes e as famílias alemãs precisam buscar o novo pouso mais para dentro da floresta.
2. O inspetor de quarteirão, nomeado por Santa Catarina, é multado ao recusar-se a entregar a lista com os nomes dos imigrantes jovens em idade de prestar o serviço militar.
3. Quatorze policiais invadem a localidade, aprisionam um morador e o levam para a cadeia, no outro lado do Rio Negro, território paranaense.

A intranquilidade entre os alemães aumenta à proporção que o Paraná intensifica decisões autoritárias para comprovar a sua jurisdição. Assim, por exemplo, na região da Encruzilhada, um posto fiscal instalado por Curitiba, há dezenas de guardas, alguns fardados. E todos eles deixam bem à mostra as facas de ponta e as clavinas engatilhadas para entrar em ação contra o barriga-verde que levantar a crista. O mais grave de tudo é que o Paraná arma conflitos em uma região que nunca havia sido contestada nos tempos da Província de São Paulo.
O VÍRUS DA REBELIÃO
(DIÁRIO DE CAMPANHA DE UM OFICIAL DO EXÉRCITO QUE FEZ PARTE DA EXPEDIÇÃO PARA EVITAR UM ENFRENTAMENTO ENTRE DEMÉTRIO RAMOS E AS FORÇAS DO PARANÁ)
“Indignou-se Demétrio contras as violências que lhe infringiram as autoridades do Paraná e recorreu ao auxílio dos seus correligionários da Vila de Santa Cruz de Canoinhas. Com a alegação de que o Paraná desrespeitava direitos de Santa Catarina, Demétrio Ramos conseguiu facilmente reunir cerca de 600 sertanejos dessa gente inculta e supersticiosa, jeitosamente preparada por Antero Alves, comissário de polícia da vila. Consta mesmo que esse povo foi armado a comblain pelo governo do Estado de Santa Catarina e por ele próprio mantido, com o auxílio de algumas casas comerciais. Uma série de conflitos mais ou menos criminosos foi desenvolvida por partidários apaixonados desses dois estados, vindo daí por diante alimentada a luta pelos maiores interessados na questão da zona contestada”. O movimento organizado por Demétrio Ramos deixou nas terras contestadas o vírus da rebelião. Os habitantes do território em litígio continuaram não se sujeitando ao regime de qualquer autoridade dos dois estados, até porque não sabiam a quem respeitar ou obedecer. E sempre aprendiam estratégias que poucos anos mais tarde saberiam aproveitar muito bem no decorrer da Guerra do Contestado.
VOZES DA GUERRILHA
A argumentação do Paraná, perante o Supremo Tribunal Federal, ao reivindicar a posse das terras também contestadas por Santa Catarina, apresenta como suporte básico a história do povoamento da região. Para os juristas de Curitiba, Santa Catarina não tem direito às terras em litígio, pois apresenta em seu favor uma documentação histórica mais ou menos discutível e omite a “situação de fato” em que se encontra o referido território. Enquanto os catarinenses se baseiam em obscuras provisões régias do século XVIII e algumas leis obscuras do tempo do Império, Curitiba comprova que bandeirantes paulistas e povoadores paranaenses desbravaram a região, abriram estradas, fundaram núcleos coloniais, vilas e cidades. Em uma palavra, levaram para o sertão de ninguém todos os elementos da vida de uma civilização. Na linguagem de Curitiba, a decisão do Supremo, ao dar ganho de causa a Santa Catarina, não foi uma vitória do Direito. Ela constitui uma derrota política do Paraná devido à falta de prestígio de sua representação na capital da República, em confronto com a força dos catarinenses, que contam com a presença de Lauro Müller no Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas. O Paraná garante, por isso, que a questão do Contestado jamais se resolverá dentro do terreno jurídico. O senador Alencar Guimarães repete a opinião do ex-secretário de obras do Paraná, Niepce da Silva, em declaração à imprensa do Rio de Janeiro (Jornal A Noite, 24, abril, 1914): “Os paranaenses estão dispostos a defender o seu território até pela força das armas. Para isso, o Estado dispõe de um regimento de segurança, com um efetivo de mil homens armados com carabinas mauser. E existem armas e munições para mobilizar, de um momento para outro, um pequeno exército de 5 mil combatentes. São eles audaciosos bandos de volantes, que no sistema de guerrilhas mais adequadas em certos pontos do território litigioso, são suceptíveis de causar maiores males ao adversário.”
PRELIMINARES DO CONFLITO
Em setembro de 1909, o catarinense Aleixo Gonçalves de Lima, capitão da Guarda Nacional, à frente de 500 homens, invade o território sob a Estrada Dona Francisca, que o Paraná alega pertencer-lhe, mesmo que esteja situado no lado de cá do Rio Negro. O capitão expulsa os funcionários do fisco e os guardas do pequeno destacamento policial. Mas de imediato, um forte destacamento “inimigo” restabelece as barreiras, rastros da presença da jurisdição paranaense. Aleixo Gonçalves de Lima e seu batalhão vingador são recebidos com festas e foguetes na cidade de Joinville. Carros vão esperá-los na entrada da cidade. Passeata pelas ruas, espoucar de fogos, sons da banda de música, tudo anuncia e aplaude o regresso dos heróis. “À frente de um grupo de revoltosos contra as odiadas barreiras paranaenses, o capitão afugentou a força policial daquele Estado que as protegia.” Este é o comentário generalizado entre os respeitáveis senhores e veneráveis senhoras que saíram de suas casas para abraçar os bravos guerreiros da Serra-Acima. Governo e sociedade de Florianópolis e de Curitiba não se dão conta de que os enfrentamentos entre grupos de civis armados já duram mais de 20 anos. Cada desencontro joga lenha na fogueira de uma situação em alta periculosidade. Há um “inimigo” em marcha porque muitos sertanejos e caboclos se familiarizam com o manejo das armas e com as técnicas militares de ataque e defesa. Todos vão aprendendo hábitos e comportamentos que serão postos à prova na hora de se defenderem das forças do governo federal e das polícias militares dos dois estados encaminhadas para impor a ordem pela força da boca do canhão, a partir de 1912. O mais grave: nas terras contestadas, terras de ninguém, todos se acostumam a viver e a impor suas ordens, “sem fé, sem lei e sem rei”, como dizia o colonizador português do século XVI a respeito dos indígenas que habitavam o litoral do Brasil.
ABUSO POLÍTICO E ECONÔMICO
A instalação de barreiras fiscais no alto da Serra de Joinville, pelo Paraná, em uma zona que Santa Catarina sempre considerou como terras que integram o seu território, desencadeia um sério problema econômico e um explosivo problema político. A presença dos fiscais paranaenses impede a circulação da erva-mate produzida em São Bento e industrializada em Joinville, já que os ervateiros não estão de acordo com as duas cobranças: uma, ao fisco do Paraná, antes de descer a serra, e outra, ao Estado de Santa Catarina, na hora do embarque no porto de São Francisco. Mas o problema é também político, pois ele intensifica a animosidade entre os dois estados que, além da Serra de São Bento, enfrentam-se no Planalto, no Vale do Rio do Peixe e no Extremo-Oeste. Para Santa Catarina, a invasão do Paraná constitui um criminoso abuso, tanto mais grave quando a União atravessa um momento de turbulência política. O sistema republicano, implantado em 15 de novembro de 1889, exige uma série de ajustes entre os monarquistas, que não aceitam a perda do poder, e entre os republicanos, divididos em facções ideológicas. Vinte anos depois, quando o governo federal ouve dizer que, na zona do Contestado um grupo de fanáticos, comandados por um monge, estava pretendendo trazer de volta a Monarquia, o mundo vem abaixo. E os canhões vão falar todos os berros de uma boca enlouquecida.
A GUERRA ENTRE SC E PARANÁ QUE NÃO HOUVE
A guerra que não aconteceu fora da manchete de um jornal de Curitiba, em 8 de agosto de 1896. A guerra explodiu desse jeito. Duas semanas antes, 21 de julho, as autoridades paranaenses da vila do Rio Negro derrubam as pontes de madeira da estrada de rodagem que liga as vilas de São Bento e São Lourenço, todas elas construídas pelo Estado de Santa Catarina no território que lhe pertence. Hercílio Luz, o nosso governador, se irrita e faz desabar um telegrama sobre a mesa do colega, Santos Andrade, repudiando o “ato vandálico” das autoridades de Curitiba. Ao mesmo tempo, ele manda reconstruir as pontes. Uma enxurrada de telegramas entre Florianópolis e Curitiba resulta na presença de tropas militares, cara a cara, fuzil contra fuzil, tudo despachado às pressas para o local da confusão pelos dois estados. A guerra quase se acende em 13 de novembro, quando duas centenas de homens armados assaltam um destacamento de Santa Catarina, instalado a seis quilômetros da margem esquerda do Rio Negro, em plenas e catarínicas terras. Vinte e sete soldados barrigas-verdes são metidos na cadeia, evidente que situada no outro lado do rio, onde Santa Catarina jamais reivindicou um palmo de terra. “Vandalismo paranaense”, protestam vozes nos quatro cantos do Estado. O governo do Paraná pede desculpas pela agressão e devolve os 27 prisioneiros sãos e salvos. Embora um tanto assustados. Para esfriar a guerra que não houve, a segurança pública da região é entregue às forças federais, deslocadas de Curitiba.
SEIS POR MEIA DÚZIA
A oposição a Lauro Müller, governador provisório de Santa Catarina, nomeado pelo marechal Deodoro da Fonseca, logo nos primeiros dias da República, cresce rápida diante da inércia com que o jovem tenente enfrenta as contínuas investidas do Paraná contra a jurisdição de Santa Catarina, na região de São Bento. Segundo os adversários do governador, ele se mostra vacilante e frouxo porque está absorvido apenas com a mesquinha questão política da indicação dos nomes às três vagas do Senado, às quatro cadeiras para a Câmara dos Deputados e, principalmente, interessado em esmagar os políticos monarquistas e até os republicanos que não se integraram à nova ordem. Lauro Müller dá um golpe de mestre quando, para vencer o inimigo, aplica uma nítida estratégia militar que se mostra mais do que eficiente para calar o inimigo. O governador faz de conta que se desloca até Joinville para reforçar a lista dos candidatos do governo às próximas eleições de 15 de setembro de 1890. Mas, muito em segredo, ele vai a Curitiba e retorna com uma solução prática para o problema dos limites do Alto da Serra, baseada em quatro princípios, devidamente sacramentados pelos dois governadores:
- abolição do Imposto de Importação e Exportação, excluída a erva-mate;
- cobrança do Imposto da Erva-Mate apenas no porto de São Francisco e sua divisão em partes iguais entre Santa Catarina e Paraná;
- levantamento da planta exata do território contestado com o auxílio da União;
- encaminhamento da questão de limites ao Congresso Nacional.
O Imposto de Exportação da Erva-Mate, que era de 2%, foi elevado para 4%. A mesma taxa que o governo de Curitiba arrecadava no porto de Paranaguá. É sempre assim nas terras do Contestado: Santa Catarina e Paraná vivem trocando seis por meia dúzia!
ENSAIO PARA O CONFLITO
Em 1899, o governador Felipe Schmidt busca uma nova saída para a questão dos limites e contrata os serviços do advogado Manoel da Silva Mafra. Ele deverá voltar ao Supremo Tribunal Federal, desta vez com uma ação de reivindicação de posse, para obrigar o Paraná a recolher-se no outro lado dos rios Negro e Iguaçu. Em 6 de julho de 1904, o Tribunal proclama-se competente para tomar conhecimento da questão, com o argumento que os limites desejados por Santa Catarina foram estabelecidos, através do tempo, pelas autoridades que tinham competência para fazê-lo. E manda respeitar os limites já demarcados desde 1749. O Paraná contesta a ação. Passados cinco anos, 24 de dezembro de 1909, o Supremo reafirma a decisão de 1904. As autoridades de Curitiba não reconhecem a decisão da mais alta corte do país com o argumento de que a Constituição Federal de 1891 estabelecia que os casos de limites entre os estados da Federação deveriam ser resolvidos politicamente e não juridicamente. Logo, a questão só poderia ser definida mediante acordo das respectivas Assembleias Legislativas homologado pelo Congresso Nacional. A maioria das lideranças políticas do território em litígio, principalmente no Contestado Norte - região de Itaiópolis, Papanduva e Canoinhas - não aceita a administração catarinense. São poloneses, inimigos históricos dos alemães! Os poloneses também não gostavam dos alemães que o Paraná havia instalado em Mafra, Rio Negro e Porto União da Vitória. E a recíproca era verdadeira. No decorrer de 1905, a situação torna-se explosiva na região de Canoinhas. O antigo maragato Demétrio Ramos reúne em torno de si alguns sertanejos assalariados, em armas. Ele age protegido pelo governo de Santa Catarina, de cujas autoridades recebe recursos de toda ordem, segundo é voz corrente na região. Assustado, o Paraná também azeita as armas e recorre ao grupo armado do coronel da Guarda Nacional, Fabrício Vieira. Na região disputada pelos dois estados, em Timbó, por questões de ordem policial, na véspera do Natal de 1905, três homens e uma mulher são assassinados por desconhecidos. Antes que as autoridades de Santa Catarina tomem providências para esclarecer o crime, forças policiais e civis do Paraná atacam a residência do coronel Demétrio Ramos, suspeito de ser o mandante dos quatro homicídios. Queimam-lhe a casa e prendem-lhe a esposa e os filhos. Nessa mesma invasão também são presos o inspetor de polícia da cidade e mais três catarinenses. Junto com familiares de Demétrio Ramos, todos são metidos na cadeia em Porto União da Vitória, cidade paranaense. Enquanto isso, o Paraná mantém um vapor nas águas do Rio Iguaçu guarnecido com armas com o pretexto de garantir um território nunca invadido e jamais contestado pelos catarinenses. Tropas federais são enviadas às pressas e se metem entre os dentes afiados dos galos-de-briga. O estopim de um enfrentamento em marcha foi desarmado. Demétrio Ramos concorda em debandar o seu pessoal e se transfere para fora do Estado. Mas o grupo chefiado pelo ex-maragato prefere ficar na região. Combustível fácil para os quadros santos dos seguidores do monge José Maria.
SOLUÇÃO JUDICIAL FALHA
Os últimos 10 anos do século XIX costuram uma difícil convivência entre Santa Catarina e Paraná pela radical impossibilidade de ser resolvida a questão dos 40 mil quilômetros quadrados de terras exigidos, ao mesmo tempo, pelos dois estados. Santa Catarina arma uma tentativa de solução quando a Lei 242, de 1896, autoriza o governador Hercílio Luz a entrar em acordo com o Paraná para que a questão de limites seja resolvida por arbitramento. Os vizinhos também decidem entrar na mesma cartilha e escolhem o nome do vice-presidente da República, Manuel Victorino Pereira, como árbitro, condicionando que a decisão dele deveria ser homologada pelo Supremo Tribunal Federal. Os dois contestadores, com a respectiva documentação, apresentam-se no Supremo Tribunal Federal. “Pelo amor de Deus, ministros, consertem os nossos limites. Já estamos no limite da impaciência”. O Tribunal não aceita pronunciar-se sobre o problema do arbitramento, alegando que só poderia manifestar-se quando fosse acionado por uma ação judicial.
Das memórias do senador paranaense Alencar Guimarães.
“A idéia do arbitramento para definir a questão dos limites entre Paraná e Santa Catarina resultou de estudo feito pelos advogados dos dois estados, Ubaldino do Amaral e conselheiro Mafra, sobre o processo a adotar para a validade e força jurídica do laudo arbitral, em questão dessa natureza, e depois de audiência do conselheiro Aquino e Castro, então presidente do Supremo Tribunal Federal. Era opinião desse eminente jurisconsulto que o processo arbitral em casos desses só poderia produzir efeitos jurídicos se o respectivo compromisso fosse firmado perante o Supremo Tribunal Federal e este homologasse o laudo proferido pelo árbitro escolhido. Foi exclusivamente por tal motivo que os representantes federais dos dois estados, em reunião celebrada a 22 de maio de 1896, na Rua do Ourives, 19, no Rio de Janeiro, firmaram um ajuste, em que incluíram as seguintes cláusulas:
I - Comprometem-se os representantes dos dois estados a promover nas respectivas Assembleias, no corrente ano, a adoção de uma lei autorizando o arbitramento na questão de limites, devendo os governadores nomearem de comum acordo um só árbitro.
II - Dentro de dois meses, depois de publicada a lei nos dois estados, os governadores elegerão o árbitro e nomearão procuradores perante o Supremo Tribunal Federal, e perante o árbitro com os poderes necessários para os fins das leis votadas.
De comum acordo, iniciarão os procuradores a ação perante o Tribunal, requerendo que, distribuído o feito, seja tomado o termo de compromisso e se expeça comunicação ao árbitro nomeado, cuja resposta se juntará aos autos. (...)
V - A decisão proferida será sem novas alegações, nem documentos, submetida à homologação do egrégio Supremo Tribunal Federal.
VI - Desde a homologação, torna-se obrigatória a sentença, mas não terá efeito retroativo e, portanto, serão respeitados os direitos adquiridos pelos particulares.
Essas cláusulas foram aceitas sem divergências pelos representantes dos dois estados, os senadores Raulino Horn, Esteves Júnior, Gustavo Richard, Arthur de Abreu, Alberto Gonçalves e Vicente Machado, bem como os deputados federais Tolentino de Sousa, Paula Ramos, Brazílio Luz, Alencar Guimarães, Lamenha Lins, Almeida Torres, Emílio Blum e Lauro Müller, cabendo a este último, segundo consta da respectiva ata, a exposição dos motivos que justificaram o ajuste feito.
As Assembleias Legislativas dos dois estados, conformando-se em sua unanimidade com tal deliberação de seus representantes federais, votaram sem demora as leis de autorização para o arbitramento combinado. Os dois governadores, em cumprimento e obediência às suas cláusulas, assentaram de comum acordo na escolha para árbitro, o doutor Manoel Victorino Pereira, então vice-presidente da República. Quando, porém, foi necessário requerer ao Supremo Tribunal a assinatura do respectivo compromisso, o eminente Aquino e Castro, com surpresa para os advogados dos dois estados que o haviam ouvido previamente, como já ficou dito, declarou o Tribunal incompetente para intervir no processo arbitral combinado, e isso consta dos dois últimos itens da petição inicial de Santa Catarina na ação ordinária de limites entre os dois estados.” (GUIMARÃES, Alencar. Questão de Limites. Paraná-Santa Catarina. Atos e Fatos. Curitiba, Oficinas de O Estado, 1916, pág. 29-31).
A CRIAÇÃO DE CANOINHAS
Monumento do Contestado em Irani - SC - berço do conflito
Em 1889, Francisco de Paula Pereira, proprietário de um engenho de erva-mate em São Bento, com algumas famílias da região, transfere-se para as margens do Rio Canoinhas, 100 quilômetros na direção oeste do ponto de partida, porque ali estava a erva-mate que em São Bento ele comprava dos caboclos. Estabelecidos a poucos quilômetros da margem esquerda do Rio Negro, era natural que os novos povoadores catarinenses viessem a sofrer os atropelos e as correrias de um território contestado por Santa Catarina e pelo Paraná. Por isso, nos primeiros tempos, o novo núcleo vive uma situação de terra-de-ninguém e de todos. E seus habitantes não contam com o apoio de qualquer autoridade porque nenhum dos dois estados se atreve a exercer a respectiva jurisdição plena. O território em disputa transforma-se num paraíso sem impostos e num refúgio sem castigo para toda a espécie de impostores. Na tentativa de reverter a perigosa situação, em novembro de 1899 o governo do Paraná cria o Distrito Policial de Canoinhas e nomeia Roberto Elke para o cargo de subcomissário. O escolhido recusa o posto argumentando que o território pertence a Santa Catarina e que, portanto, a indicação recebida é nula de pleno direito. Como prova de que exerce a plena jurisdição sobre as terras da região, o coronel Albuquerque, prefeito de Curitibanos, cria o Distrito de Paz e Policial de Canoinhas e nomeia o mesmo Roberto Elke como subcomissário. O indicado aceita a designação. Decorridos nove anos desde a sua fundação, a vila conta apenas com 60 casas e magras centenas de habitantes. Mesmo assim, e antes que o Paraná tome a decisão, com a Lei 907, de 12 de setembro de 1911, Santa Catarina transforma o distrito em município. O major Tomaz Vieira é designado como o primeiro superintendente. A criação do município de Canoinhas desencadeia uma série de protestos do Paraná. Isto porque, por uma lei paranaense, o território do município de Rio Negro incluía toda a área do novo município de Santa Catarina. Ao sul, os limites de Rio Negro iam até Lages. Mais tarde se contentaram em chegar só até Curitibanos, nos campos da Estiva. Anos depois, por sugestão de Oswaldo Rodrigues Cabral, a cidade Santa Cruz de Canoinhas inscreve em seu brasão o lema “Catharinensis semper”. De fato, “sempre catarinense”. Mas ela deverá pagar um alto preço de angústias e mortes durante toda a Guerra do Contestado.
BARREIRAS FISCAIS
O Decreto número 1, de 15 de novembro de 1889, assinado pelo marechal Deodoro da Fonseca, chefe do Governo Provisório, determina que as províncias sejam transformadas em estados e que elas mesmas organizem o respectivo governo. Nenhuma palavra sobre os eventuais problemas de limites que possam existir entre as antigas unidades do Império. Para Santa Catarina e Paraná, a decisão do governo federal é desconfortável, já que os dois novos estados, nos últimos 15 anos do Império, haviam convivido com graves desencontros no alto da Serra do Mar, região de São Bento, pela impossibilidade de fixar o ponto exato dos respectivos limites. Nos primeiros dias de julho de 1890, mais uma vez o Paraná cruza o Rio Negro e planta quatro barreiras fiscais que impedem a livre descida da erva-mate para a sua industrialização, em Joinville, e o posterior embarque no porto de São Francisco do Sul, rumo ao mercado consumidor do Rio da Prata. As barreiras levantam protestos em São Bento, em Joinville, no Desterro e na colônia catarinense do Rio de Janeiro, comandada por Esteves Júnior, respeitado político do novo regime republicano recém-instalado. O governador do Paraná, Américo Lobo, garante que as barreiras foram levantadas fora da zona contestada e que a medida protegia a erva-mate produzida no outro lado dos rios Negro e Iguaçu: o produto paga imposto para descer até o porto de Paranaguá. Como no lado de cá dos dois rios também era território do Paraná, o governador vizinho chega até a estranhar as pretensões de Santa Catarina, já que suas autoridades desejavam ocupar terras que nunca lhes haviam pertencido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Como vive hoje o elenco de "Cidade de Deus"?


MATHEUS MAGENTA – do BOL Notícias e do Folha.com
Leandro Firmino, o Zé Pequeno,
continua atuando, participou da série...

..."A Diarista", do longa "Cafundó",
de Paulo Betti, e da peça "Woyzeck",
dirigida por Cibele Forjaz
(foto: Felix Lima/Folhapress)
Ao longo dos dez anos que sucederam sua pré-estreia no Festival de Cannes, o filme "Cidade de Deus" viu sua estética reverberar no cinema brasileiro em obras como "Tropa de Elite" e seu elenco de jovens atores se dividir entre o sucesso, o ostracismo e a marginalidade. Um deles, que fez parte do criminoso Trio Ternura no filme como o personagem Alicate, se envolveu com drogas e hoje está desaparecido.
Thiago Martins, o Lampião
 (um dos integrantes do Caixa Baixa),
protagonizou o filme "Era Uma Vez",
de Breno Silveira,....

e está no elenco da novela das
21h "Avenida Brasil"
"Ele saiu da ficção para a realidade. Virou traficante e hoje está desaparecido. O menino tinha arte, mas ele não soube administrar a potência do sucesso que o filme teve."
O relato acima sobre o destino incerto de Jefechander Suplino foi feito à Folha pelo cineasta Luciano Vidigal. Ao lado de Cavi Borges, ele filma um documentário para mostrar o destino dos atores dez anos após a primeira exibição do longa de Fernando Meirelles, em maio de 2002.
"Uns souberam aproveitar as oportunidades, outros viram que não tinham jeito para a coisa e seguiram outras carreiras. E há aqueles que se descobriram atores ou se deslumbraram, se beneficiaram na época, mas depois perderam o rumo", relatou Borges.
Felipe Paulino, o garoto que toma
um tiro no pé do Zé Pequeno,
deixou de ser ator....

por causa de problemas familiares;
hoje é menor aprendiz em um hotel no Rio
(Foto: Felix Lima/Folhapress)
O documentário mostrará o destino de quase 30 atores. Metade continua atuando, quatro se envolveram com crimes e drogas e o restante desistiu ou não conseguiu seguir a carreira artística.
Com dificuldades financeiras para concluir o documentário, eles correm contra o tempo para não perder a efeméride de dez anos e conseguir participar do Festival do Rio, em setembro. Felipe Paulino, hoje com 18 anos, atuou em uma das cenas mais polêmicas do longa. Seu personagem leva de Zé Pequeno (Leandro Firmino) um tiro no pé. Após o filme, enfrentou problemas familiares na administração de sua carreira de ator mirim. Hoje, é menor aprendiz em um hotel do Rio. "Eu ainda tenho o sonho de ser ator", afirmou. Já o colega de cena hoje se sustenta com os cachês de ator.
Jonathan Haagensen, o Cabeleira,
e Roberta Rodrigues, a Berenice

Jonathan Haagensen, o Cabeleira,
é ator e modelo, participou
do reality show "A Fazenda" e
do filme "Bróder", de Jeferson De
(Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress)
Firmino atuou em séries como "A Diarista" (Globo), e filmes como o inédito "Totalmente Inocentes", de Rodrigo Bittencourt, paródia do gênero "favela movie", consagrado com "Cidade de Deus".
Roberta Rodrigues, a Berenice,
participou da novela
"Insensato Coração" e
de filmes como "Desenrola",
de Rosane Svartman
(Foto: Paula Giolito/Folhapress)
Apesar do pequeno papel que teve no longa, Thiago Martins desponta hoje como um dos galãs da novela das 21h, "Avenida Brasil" (Globo). Preocupados com o destino dos atores após o filme, Meirelles e a codiretora Kátia Lund ajudaram a transformar a oficina de interpretação criada para os quase 200 jovens pré-selecionados para a produção em um projeto social com uma produtora e uma escola de cinema. Chamado hoje de Cinema Nosso, o projeto é presidido por um dos atores do filme, Luis Carlos Nascimento.
Dez anos de "Cidade de Deus"
ESTIGMA
Douglas Silva, o Dadinho,
atuou na série de TV "Cidade dos Homens"... 

...e hoje participa do programa
 "Esquenta", de Regina Casé.
Darlan Cunha (à direita)
(Foto: Daniela Cantagalli)
Baseado no livro homônimo de Paulo Lins --que levou 15 anos até lançar outra obra (leia crítica na pág. E4)--, o filme retrata a comunidade carioca desde a criação nos anos 1960 até os anos 1980, durante uma guerra entre as gangues de Zé Pequeno e Mané Galinha (Seu Jorge). O local tem hoje 36 mil habitantes, segundo o IBGE. Parte deles diz que, após o filme, ficou estigmatizada em outras regiões do Rio.
"No filme, 99% das pessoas eram criminosas. Na época, quem dizia que era da Cidade de Deus não conseguia emprego. Hoje ainda há preconceito", disse o morador Roberto de Carvalho, 55. "O problema é a generalização. Não se pode dizer que todo jovem de cor que mora nesses locais é violento", diz a antropóloga Alba Zaluar, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. "Qual favela não é estigmatizada?", rebate Lins. Para ele, o livro e o filme foram essenciais para atrair investimentos públicos para o local.