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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

¨¨¨Landisvalth Blog: Menos da metade dos professores de escolas pública...

¨¨¨Landisvalth Blog: Menos da metade dos professores de escolas pública...: Por Mariana Tokarnia /Agência Brasil – na Tribuna da Bahia Os professores deveriam ser os maiores leitores, mas poucos leem. O profe...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Gannibal: O cavalheiro negro do czar


O africano Abram Petrovich Gannibal, que chegou à Russia como escravo e virou governador, foi o primeiro intelectual negro da Europa
por Emiliano Urbim – da revista Superinteressante 
Gannibal, de escravo a governador
"Dispensado! Após 57 anos de serviço leal, sem razão ou recompensa!", queixava-se o recém-ex-militar em uma carta a Catarina, a Grande, soberana do Império Russo. Como reparação, ele exigia uma promoção ao posto de marechal e pensão vitalícia. Seu pedido, no entanto, foi ignorado, e o jeito foi aceitar a aposentadoria forçada na sua casa de campo. Tudo bem: encerrar a vida como aristocrata rural era bem agradável. E, no caso do negro Abram Petrovich Gannibal, vindo da África para ser escravo na Rússia, lendário. Nascido em 1696 na Etiópia, aos 7 anos o menino foi capturado e despachado para o sultão de Constantinopla, e logo revendido à corte de São Petersburgo - era moda entre os monarcas colecionar crianças exóticas. Inteligente, o menino conquistou o czar Pedro, o Grande, que arranjou sua alforria e se tornou seu padrinho - daí o sobrenome imperial, Petrovich. Quando fez 20 anos, o cavalheiro negro foi enviado a Paris para concluir seus estudos e, nas horas vagas, espionar um pouco. Russo, negro e nobre, o paradoxo ambulante logo se enturmou com a galerinha alternativa da época: Diderot, Montesquieu e Voltaire eram seus amigos e o chamavam de "estrela negra do iluminismo". Seu biógrafo, Hugh Barnes, crava: Abram foi o primeiro intelectual negro da Europa. Formado em belas-artes e na arte da guerra, fez "estágio" em um conflito entre França e Espanha, de onde saiu capitão. A fama de estrategista lhe inspirou um novo sobrenome, Gannibal - em russo, Aníbal, um general africano que assombrara a Europa 2 mil anos antes. A volta para a Rússia, em 1722, foi cheia de glórias - breves. Morto o padrinho, Abram recebeu uma missão supimpa: deixar nos trinques várias fortalezas na Sibéria, que, como ensina o anúncio de TV a cabo, é bem ruim. Foram 4 congelantes anos até que seus dons como engenheiro militar chamassem atenção e o tirassem do exílio. Reintegrado à aristocracia, Gannibal ascendeu na hierarquia política, militar e diplomática. Assim como o Otello de Shakespeare, o "mouro de Petersburgo" havia feito ao Estado alguns serviços, e eles sabiam disso. Tanto que lhe deram, em 1741, um belo sítio na província de Pskov, com milhares de pinheiros e centenas de servos. O escravo africano havia se tornado um nobre russo dono de escravos. Comparando com o Brasil, é como se Zumbi virasse barão das Alagoas. Após apelar e perder com a czarina Catarina, Gannibal terminou seus dias isolado no campo. Apesar da vida singular, na Rússia ele é só um antepassado de alguém mais famoso: bisavô de Alexandre Pushkin, pai da literatura russa.
Grandes momentos
• A história de Gannibal tem mais conexões literárias: o oficial russo que o levou da Turquia para São Peterburgo foi Pyotr Andreyevich Tolstói, bisavô do autor de Guerra e Paz.
• Promovido à nobreza, ele espalhou que era um príncipe africano. Verdade ou não, acreditava na história e criou um brasão de família com a imagem de um elefante.
• Alguns autores defendem que Gannibal se envolveu na conspiração que matou Pedro 3º e colocou Catarina, a Grande em seu lugar. Nessa versão, ele esperava uma grande recompensa e teria sido traído na última hora.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O meio do mundo de Antônio Carlos Viana

Antônio Carlos Viana

O escritor sergipano Antônio Carlos Viana, autor de livros, entre os quais se destaca O meio do mundo e outros contos, lançado em 1999, teve um de seus contos adaptado para o cinema pelo cineasta Marcus Vilar. Recentemente lançou Cine Privé, outro livro de contos. A adaptação do conto para o cinema foi vencedora do prêmio de melhor fotografia no Festival de Cinema de Brasília em novembro de 2005. Além disso, O meio do mundo recebeu o prêmio de melhor direção e também o prêmio do Banco do Nordeste no Festival de Cinema de Sergipe, realizado em abril de 2006. O curta também coleciona o prêmio de melhor direção, no Festival de Cinema de Cuiabá, realizado em abril de 2006. Nessa entrevista, dada ao portal Escrita Livre, de João Pessoa-PB, Viana fala de seu trabalho e da adaptação do seu conto para o cinema.  

Escrita Livre - Comente um pouco sobre seu conto O Meio do Mundo
Antônio Carlos Viana - Um de meus temas preferidos é o da perda da inocência. Talvez “O Meio do Mundo” seja o mais emblemático, porque o menino é levado para um determinado lugar sem que saiba muito bem o que vai lhe acontecer. O título remete a um lugar perdido no ermo do mundo, e também à linha divisória entre dois momentos da vida: o da inocência e o desconhecido. Gosto de trabalhar com a infância e a adolescência, porque são momentos cruciais em qualquer existência. Tudo o que coloquei no conto foi muito pensado: o ambiente árido do sertão, a mulher carvoeira, suja e sem voz, a pobreza da casa, tudo para se contrapor à riqueza da experiência que será vivida por Tonho.

EL - Qual foi sua reação ao saber que seu conto seria transformado em um filme de curta-metragem?

A.C.V - Eu não conhecia Marcus Vilar. Quando ele me ligou falando que pretendia filmar o conto, me deixou exultante porque vi que o livro começava a circular, o que é o desejo de qualquer autor. Fiquei à espera de algum filme dele. Foi no Festival de Curtas de Sergipe que o conheci e vi seu magnífico “A Canga”. Não tive dúvidas de que o conto estava em boas mãos e nunca duvidei do seu resultado.

O cineasta Marcus Vilar
EL - O Marcus me contou que o senhor fez um conto baseado numa experiência dele...

A.C.V - Dificilmente escrevo sobre coisas que me contam ou me acontecem. Às vezes um fato qualquer pode desencadear um conto, mas não a história em si. Quanto à história do Marcus, achei-a tão impressionante que, ao chegar em casa, sentei diante do computador e a escrevi de um jato só. Depois foi só reinventar. burilar, trabalhar a linguagem para não ficar chula. Claro que nem tudo o que está lá aconteceu com o Marcus, sobretudo o desfecho. Ele deu o mote e eu criei em torno uma situação nada confortável para o adolescente que lá está. O conto terminou sendo um dos que mais fazem sucesso entre os leitores. Não vou dizer qual é porque não pedi permissão a ele. Está no meu último livro, “Aberto está o inferno”. Agora todo mundo vai querer saber. Isso é com ele.

EL - Qual sua expectativa com relação a esse filme?

A.C.V - Sempre alimentei grandes expectativas e acho que não vou me decepcionar. Antevejo algumas cenas a partir do que vi em “A Canga”. Marcus sempre falou comigo sobre o roteiro, alterações que fez, o cuidado para que o filme não ferisse suscetibilidades. Marcus deve ter captado isso com a sensibilidade que tem.

EL - Como é seu processo de criação?

A.C.V - Criar é algo bem complicado. Há dias em que não somos capazes de escrever uma linha. Outros, basta pôr a primeira palavra que o resto vem de roldão. Sou muito disciplinado e quem não for não faz nada na vida. Todo dia me acho na obrigação de escrever alguma coisa, mesmo que não dê em nada. Seria bom que sempre desse em alguma coisa, mas isso é impossível. O importante é estar disponível, não ter medo de perder tempo com algo que pode resultar em fracasso. Às vezes penso que determinada história não vai dar em nada e, de repente, com mais uma volta do parafuso, eis que ela rende o impensável. Escrever tem dessas surpresas. Como sou muito meticuloso, demoro muito a terminar um conto. E, mesmo quando o dou por concluído, sempre acho que poderia ficar melhor. É aquela eterna insatisfação de quem pretende fazer arte.

Capa de O meio do mundo e outros contos
EL - A literatura sempre foi a grande fornecedora de idéias para o cinema mundial, desde o século passado, haja vista produções como E o Vento Levou, Cidade de Deus, O Pagador de Promessas entre tantos exemplos que poderia citar. Na sua opinião a literatura e o cinema, essas duas formas de arte, se completam e se entendem perfeitamente?

A.C.V - O que nenhum autor pode querer é que o filme seja uma ilustração do romance, do conto ou do poema. Assim não seria cinema. O cinema tem sua linguagem, e muitas vezes o que funciona no papel não funciona na tela. Não gosto quando as pessoas falam assim: “O filme é melhor do que o livro”, ou vice-versa. Cada um deve ser visto dentro da forma que lhe é peculiar: literatura é palavra; cinema é imagem. Cinema, televisão, literatura sempre vão se entender. O que se precisa fazer é dar educação para que o leitor-espectador veja cada um dentro de seus limites. Pior quando dizem “não li o livro mas vi o filme (ou a minissérie)”, como se uma coisa substituísse a outra. Assim não dá.

EL - Fala um pouco do início de sua carreira, de quando o senhor descobriu que era um autor e quando teve a certeza que queria seguir essa carreira.

A.C.V - Escrever todo mundo quer um dia na vida. Eu comecei por acaso, quando comprei minha primeira máquina de escrever. Assim que cheguei em casa com aquela conquista, pus um folha de papel e deixei que viesse da minha cabeça qualquer coisa, sem censura prévia, mas sem pretensão nenhuma de ser escritor. Veio uma história interessante que eu nunca imaginei ser possível eu criar. É o conto “Brincar de manja”, que está em O meio do mundo e outros contos. Gostei da experiência e continuei escrevendo. Quando tinha um bom número de contos, apresentei a algumas pessoas que entendiam do riscado e elas me incentivaram a continuar. Aí veio Brincar de Manja (1974). Depois, Em Pleno Castigo (1981), O Meio do Mundo (1993), O Meio do Mundo e outros Contos, este uma seleção dos melhores contos dos três anteriores, publicado em 1999, pela Companhia das Letras. E agora, Aberto está oIinferno (2004), também pela Companhia. Como vê, trabalho devagar, com muito cuidado. Ter chegado à Companhia das Letras para mim foi o ponto mais importante da minha carreira, que começou praticamente de uma brincadeirinha.

EL - Lembra de algum momento ligado ao seu trabalho que o deixou triste, magoado?

A.C.V - O Meio do Mundo e outros Contos tinha sido indicado como leitura obrigatória para o vestibular da UFS (Universidade Federal de Sergipe) e depois a própria universidade o retirou porque disse que era pornográfico. Uma universidade! Algo inaceitável. Eu não trabalho com pornografia, mas com o erotismo, que refino até onde posso.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Morto há cem anos, autor de "O Cortiço" ainda instiga


MARCO RODRIGO ALMEIDA – do caderno ILUSTRADA, da Folha de São Paulo
Aluísio Azevedo
Quando você leu Aluísio Azevedo pela última vez? Se já saiu da escola há alguns anos, é bem provável que nunca mais tenha passado os olhos por qualquer texto do autor de "O Cortiço" - ou mesmo que o confunda com outros Azevedos ilustres da literatura brasileira do século 19: Artur (de quem era irmão) e Álvares. Não se trata de um azar específico de Aluísio (1857-1913), cuja morte completa cem anos nesta segunda, dia 21. Quase todos os autores brasileiros do século 19 - Machado de Assis é a maior exceção - são mais próximos do universo escolar e acadêmico, lidos mais por pesquisadores e estudantes. São o que se costuma chamar de "autores de vestibular". "Machado é o maior, mas um galo sozinho não tece uma manhã. Não há motivo para um brasileiro não ler Aluísio Azevedo", diz Luiz Dagobert de Aguirra Roncari, professor de literatura brasileira da USP. Houve um tempo, contudo, em que Aluísio ofuscou até mesmo Machado (1839-1908). Em 1881, ambos publicaram obras fundamentais. Machado lançou "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e Azevedo, "O Mulato". Enquanto as inovações do primeiro tiveram repercussão discreta na época, o segundo, de linguagem crua, mais explícito em seu retrato do preconceito, da corrupção do clero e do desejo sexual, gerou escândalo e sucesso. Nos anos seguintes, produziu outros livros importantes, como "Casa de Pensão" (1884) e "O Cortiço" (1890), este último sua obra-prima, conhecido, mesmo que de orelhada, por quase todo mudo que já passou pela escola. Com esses três livros, Aluísio firmou-se como o principal expoente nacional do naturalismo, escola literária fortemente influenciada por teorias científicas, como o evolucionismo, que procura retratar fielmente a realidade. Por suas qualidades, e também pelas controvérsias que desperta, sua obra, longe de engessada, segue bastante viva. "'O Cortiço' é excepcional. Tem grande consistência estética e inaugurou um novo tipo de romance urbano no Brasil", afirma Paulo Franchetti, professor da Unicamp.
ALEGORIAS
Um cortiço no início do século XX
O principal romance de Aluísio retrata a vida de trabalhadores miseráveis que coabitam um cortiço no Rio do fim do século 19. No centro da trama está o comerciante português João Romão, que não mede esforços para enriquecer. Em "De Cortiço a Cortiço", famoso ensaio que dedicou ao livro, Antonio Candido argumenta que Aluísio, mesmo tendo se inspirado na obra do francês Émile Zola, deu cor local à trama, criando uma alegoria do Brasil, do conflito entre as classes e do nosso capitalismo primitivo do final do século 19. O ensaio destaca o pioneirismo do romance ao retratar a menstruação e o lesbianismo. Mas Candido também aponta alguns problemas e chavões, de certa forma característicos do naturalismo. O clima e a mestiçagem são encarados como causa da miséria e desgraça dos personagens. "Aluísio teve o mérito de colocar a miséria em cena, mas alguns aspectos ficaram datados. Com essa visão sobre o clima e a raça, as contradições sociais ficaram diluídas", avalia Cilaine Alves Cunha, professora de literatura da USP. "É um livro complexo. Tem aspectos conservadores, mas, por outro lado, tanta densidade", afirma Franchetti. "A epígrafe, por exemplo, cita uma fábula sobre são Francisco. Mas como isso se articula ao resto do livro? Ainda hoje é difícil de entender."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Caetano Veloso fala sobre seu "Abraçaço"


PAULO WERNECK – Editor da "ILUSTRÍSSIMA" – da Folha de São Paulo.
Nesta entrevista, concedida em novembro de 2012, num hotel em São Paulo, durante uma rodada de divulgação promovida por sua gravadora, Caetano Veloso comentou algumas das canções de "Abraçaço", seu mais novo álbum, que encerra a trilogia iniciada com "Cê", em 2006, e depois com "Zii & Zie" (2009). Ele fala mais demoradamente de "Um Comunista", canção de sabor épico dedicada ao guerrilheiro baiano Carlos Marighella, que foi assassinado em 1969, numa emboscada planejada pela ditadura militar. A canção presta uma homenagem ao guerrilheiro, mas também toma distância em relação à luta armada e sobretudo ao stalinismo. "Aquilo, naquele ambiente romântico do tropicalismo, da contracultura, era muito atraente, era o que eu mais admirava em política", diz Caetano. "Eu gostava de Marighella, e gosto até hoje."
Folha - "Abraçaço" encerra a trilogia com a banda Cê, depois de "Cê" (2006) e "Zii & Zie" (2009). Algum dos álbuns fica como o seu preferido, está no seu coração de maneira mais funda?
Caetano Veloso - Um deles eu acho criticamente mais coeso, que é o Cê. Não sei se ele está no meu coração de modo mais fundo, porque ainda nem me acostumei direito com esse novo, mas sei que o "Cê" é mais coeso. Mas é pra ser assim mesmo, porque compus aquelas canções e planejei aquele disco antes mesmo de formar a banda. Depois [em "Zii & Zie" e "Abraçaço"] é muito diferente, já tenho a banda, estamos acostumados a tocar, e aí eu fiz canções. Então é uma coisa mais solta do que aquele primeiro disco, que foi todo composto antes.
Antes da banda?
Antes da banda ser formada.
No entanto, parece um disco feito ali, com a banda.
É incrível a resposta da banda, porque no "Cê" eu fiz tudo no violão, mostrei a Pedro Sá e disse pra ele me sugerir um baixista e um baterista, e ele sugeriu Marcelo e Ricardo. E eu dizia até o que eu queria que a bateria fizesse, as linhas de baixo. Foi muito assim, ali eu parti para um negócio que era mais ou menos como fiz agora no disco da Gal []. Mas o "Abraçaço" é mais como "Zii & Zie". Deixei fluir o que fosse, as canções, porque a banda já existe. Agora, é muito rápido como eles pegam. Eu apresento um negócio, eles fazem, dá tudo certo.
Mas o "Zii & Zie" foi concebido junto com o público, em shows e num blog. Isso mudou a forma de conceber o disco?
É, foi um negócio de botar na internet. Foi ideia do [antropólogo] Hermano Viana, de botar também na internet. Eu quis fazer um show semanal, e fiz, no Rio, apresentando canções antigas, canções do "Cê" e, pouco a pouco, canções novas. Quando eu disse que ia fazer isso, o Hermano disse: "Então a gente precisa acompanhar na internet". Então nasceu aquele blog que acompanhou a feitura do "Zii & Zie".
E o "Abraçaço", você compôs no violão?
A canção "Um Abraçaço" eu compus quando a gente já estava gravando, já tinha mais da metade gravada. Eu compus e ainda terminei dentro do estúdio, botando letra em cima da base já pronta.
Você disse que "abraçaço" é a forma que você usa para se despedir dos amigos por e-mail. Outra canção do disco, "Parabéns", também parece texto de e-mail, uma canção recortada de um e-mail.
Aquele foi corta e cola, um e-mail inteiro, desde o título, o "subject" dos e-mails. E o texto era o texto do e-mail, até o "hehe" tem, foi o email do [diretor] Mauro Lima para o meu aniversário de dois anos atrás.
A trilogia é marcada por canções melancólicas, como "Desolação de Los Angeles", no primeiro disco, e "Por quem?", no segundo. "Estou triste", do terceiro, parece a mais triste de todas. Está difícil se livrar da tristeza?
É mais um negócio desse período da minha vida, mas eu conheço tristeza desde sempre.
Desde que o samba é samba?
Desde que o samba é samba.
A primeira faixa do disco, "A Bossa Nova é Foda", começa com João Gilberto, "o bruxo de Juazeiro"...
Como se diz "o bruxo de Cosme Velho", Machado de Assis.
Evoca um Rio mítico, do Vinicius...
Tem o Vinicius...
e termina com Anderson Silva, Vitor Belfort...
Começa com João Gilberto, tem o Carlos Lyra, tem o Tom, tem o Vinicius e desemboca nos lutadores de MMA.
Mas como você conseguiu juntar Anderson e João na mesma canção?
Cara, foi muito rápido, veio na minha cabeça porque o João Gilberto gosta de luta.
Ah, é? Ele assiste?
Assiste. Ele era louco por boxe. Caracterizou o estilo dele de ataque dos acordes e de escolha das divisões como um golpe de caratê, quando voltou dos EUA, numa entrevista ao Tárik de Souza. E gostava de ver boxe, era fã de Mike Tyson e seguramente assiste MMA. Mas isso é o fato. Disso eu já gosto. O que eu acho também é que o MMA foi uma criação muito brasileira, porque é uma mistura de lutas, de tipos de luta que nasceu com os Gracie, em Belém do Pará.
É coisa nossa?
É mistura criada a partir do Brasil, entendeu? Então nesse ponto tem um paralelo com a bossa nova. E tem um desejo em toda a canção de fazer um retrato da bossa nova como gesto histórico e estético agressivo. Não o clichê da coisa doce, e suave. Mas não é nenhuma novidade, é apenas uma maneira de dizer. Essa canção é outra maneira de dizer algo que vem sendo dito por mim, pelo Tom Zé, pelo Gil, por diversas pessoas há muito tempo. Tom Zé tem um disco todo sobre isso, e tem muitas falas dele em que ele apresenta a bossa nova como um gesto histórico de grande violência. E eu gosto de dizer assim. Acho que também porque eu leio muito uns jornalistas americanos, ingleses, que falam como se a bossa nova fosse um negócio mole, doce. Eles estão errados.
Por outro lado, você adocicou o funk, que é uma manifestação violenta, e misturou com Noel Rosa...
É, mas o Noel Rosa do tijolo na testa.
A canção é um tijolaço na testa da mulher.
É, eu gosto de brigar com mulher.
E "Um Comunista", sobre o guerrilheiro Marighella, tem um refrão forte, que lembra o da música sobre a base de Guantánamo...
É a música mais longa do disco. Eu gosto desse refrão porque ele parece um três sobre uma base de quatro tempos. Parece canção francesa sobre política, tem muito da tradicional canção de protesto, essa longura, esse tom narrativo e explicativo, embora seja mais complexa do que isso. E eu gosto que ela coincida com a chegada do livro, da biografia [escrita pelo jornalista Mário Magalhães], com o filme da Isa [Grinspum] e com a canção dos Racionais, que foi feita para o filme da Isa. Eu não fiz por causa de nada disso, eu fiz também. E ela contrasta muito com a música dos Racionais. E é interessante, porque ela é bem a canção de protesto feita por artistas da classe média, tal como Chico Buarque comparou [em entrevista a Fernando de Barros e Silva, na Folha, em 2006] quando disse que a canção está desaparecendo e que o rap é uma manifestação... Aliás, o Chico e o José Ramos Tinhorão coincidiram em dizer que o rap era a verdadeira canção de protesto, porque era dita por eles mesmos [as classes baixas], como dizia o Cacá Diegues a respeito dos filmes feitos pelos favelados sobre a favela. Diferentemente de uma referência aos desfavorecidos por parte de um artista da classe média, como era o caso na nossa geração, minha e de Chico. Então, nesse caso, eu volto àquela força da canção de protesto de classe média, mas é uma canção um pouco mais analítica, e também apresenta umas imagens que balançam a cabeça do ouvinte.
O Mário Magalhães...
Eu estive com ele no Rio, nunca tinha estado com ele, encontrei numa livraria.
Ele me mandou uma pergunta: por que o Marighella, 43 anos depois da morte dele, parece provocar mais amor e ódio do que nunca? Por que mexe tanto com as pessoas?
É curioso, parece que esse tempo foi o tempo natural, histórico, de respiração para que essas coisas aparecessem, o filme da Isa, o livro do Mário Magalhães, a música dos Racionais e a minha canção. O Jorge Amado sonhou sempre que se fizesse um monumento a Marighella em Salvador. Ele morreu com esse sonho. E é curioso, porque ele apoiava o Antonio Carlos Magalhães no fim da vida, e no entanto ele queria um monumento a Marighella em Salvador. Ele tinha muito orgulho do Marighella, que naturalmente conheceu pessoalmente, porque eram do mesmo partido (Partido Comunista Brasileiro). Só que o Marighella, no final, deixou a linha central do partido, como todo mundo sabe, e deixou de obedecer às ordens de Moscou. Aquilo, naquele ambiente romântico do tropicalismo, da contracultura, era muito atraente, era o que eu mais admirava em política. Eu gostava de Marighella, e gosto até hoje.
Vocês chegaram a ter relações pessoais?
Nunca vi Marighella. Eu tinha uma colega, Maria de Lourdes Mello Vellame, que foi guerrilheira junto com ele, que era do Partido Comunista, saiu com ele, pra luta armada, foi presa, muito torturada, causou uma impressão forte no Fleury, que era o torturador. Que ele, numa entrevista que eu tenho guardada, tenho uma fotografia das páginas na internet, ele se refere a ela como caso mais impressionante de resistência à tortura. Ela era minha amiga, era minha colega na Faculdade de Filosofia. Ela me pediu na época pra prestar apoio logístico à guerrilha de Marighella, e eu fiquei mais ou menos inclinado a talvez fazer isso, se me fosse possível, se soubesse como, porque eu o admirava, mas eu temia, possivelmente não chegaria a fazer. Mas não sei, porque eu fui preso poucos meses depois, não por isso, porque eles me prenderam sem saber disso. Só se sabe disso hoje, que na altura só sabíamos disso a Lourdinha e eu. Só sabíamos os dois, a Dedé, minha mulher, teve uma altura em que ficou sabendo.
Na canção, você conta um episódio pessoal, do recado que enviou do exílio para o Brasil quando soube da morte de Marighella, recado que ninguém entendeu...
Foi um texto que eu mandei para o Pasquim. Porque nós estávamos em Londres, não fazia muito tempo que tínhamos chegado, ainda no primeiro ano, e chegou uma revista Manchete, ou Fatos e Fotos, uma revista da editora Bloch, foi um fotografo para nos fotografar no exílio. Ele no fotografou, eu e Gil, em Londres, fez uma entrevista. A imprensa brasileira era muito limitada pela censura, não podia-se dizer que gente estava exilado, apenas Caetano e Gil estão em Londres, etc. E tal. E a capa dessa revista era uma fotografia, eu e Gil, sorrindo, na frente do Big Ben, né, na ponte de Waterloo. E num boxe, assim, no alto da página, a foto de Marighella morto, que era a notícia de Marighella morto. Então mandei um texto para o Pasquim, dizendo "A revista chegou e nós estamos na capa. E eu falava de minha tristeza e de Gil, dizendo assim: nós estamos mortos. Ele está mais vivo do que nós. Nem uma só pessoa das que viviam no Brasil e eram minha amigas e que se correspondiam comigo, nem aquelas que conheciam essas, nem depois quando voltei e mencionei, na cabeça de nenhuma pessoa passou. Eles morando aqui e tal não sentiram o impacto que era ter eu e Gil e eu aparecendo na capa da revista depois de exilados, sorrindo, e o Marighella morto. O texto todo era sobre isso, sobre a capa da revista: "na capa duma revista....". Você vê que quando a gente está fora, a gente não pode imaginar como é a cabeça das pessoas que estão dentro, porque ninguém sacou. Eu recebi várias cartas de gente dizendo: você está deprimido porque está aí, não sei quê, e de fato estava, mas não tinha escrito isso porque eu tinha visto uma capa em que eu e Gil estávamos sorrindo no exílio e o Marighella morto a tiros nas ruas de São Paulo, e eu gostava de Marighella, então achei aquilo um negócio meio terrível, assim. Escrevi e ninguém entendeu. É uma parte totalmente pessoal que aparece na letra da canção, que se refere a esse fato.
E na canção você escreve: Não há vida sem utopia/Assim fala um comunista. Você concorda nesse ponto com os comunistas?
Mais ou menos. Eu já fiz uma canção que falava disso: (canta) "Na maré da utopia, banhar todo dia..." Eu digo que a pessoa deve se banhar todo dia, ou pelo menos uma vez, na "maré da utopia". Foi o que eu disse nos anos 80. Eu não posso dizer que eu seja comunista, nem mesmo um socialista. Eu fui mais no meu pensamento socialista do que vim a ser depois. Muita gente fica especulando por que que eu me interesso tanto pelo Mangabeira Unger, e eu falo nele e tal. É que ele representa um negócio de esquerda muito exigente intelectualmente, mas que leva em consideração o essencial do liberalismo.
Que vem a ser o quê, exatamente?
Uma ideia de liberdade e de direitos. De uma certa forma é você poder colocar a ideia de liberdade no mínimo à altura da ideia de igualdade, senão acima, no meu entender.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Medo à Brasileira


Premiado no exterior, O Som ao Redor, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, dá uma cor local e sofisticada à paranoia urbana
por Ricardo Calil – da revista BRAVO
Os brasileiros habitam, há não poucos anos, um filme de terror psicológico. Pessoas amedrontadas escondem-se atrás de muros e guaritas, de cercas elétricas e câmeras de vigilância, de carros blindados e seguranças particulares – na tensão permanente da espera por um sequestro-relâmpago, um veículo desgovernado, uma bala perdida ou um ataque de zumbis do crack. Para a maioria, o momento nunca vem. Mas quando chega para alguns – e ganha a amplificação massiva do noticiário –um novo ciclo de medo está garantido.
O Som ao Redor, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, é o filme sobre esse estado de espírito. Nenhuma obra havia ido tão longe e tão fundo para captá-lo. Nos últimos anos, o cinema nacional foi pródigo em histórias sobre a violência urbana, recheadas de cenas de horror explícito – com destaque para Cidade de Deus (2002) e os dois Tropa de Elite (2007 e 2010) –, mas quase sempre ignorou seu subproduto mais abrangente e menos palpável: a paranoia de segurança.
Nas entrevistas sobre o filme, o cineasta gosta de ressaltar seu caráter local, específico:“É um trabalho muito pessoal, rodado na rua onde moro [em Setubal, bairro de classe média da zona sul do Recife]”. Assim, ele reafirma a máxima de Tolstói transformada em clichê jornalístico: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. O Som ao Redor tornou-se a mais aclamada produção brasileira desde Cidade de Deus. A trajetória se inicia com o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) no Festival de Roterdã (Holanda), passa pela Mostra de São Paulo (melhor filme) e pelos festivais do Rio (filme e roteiro),de Gramado (som, crítica, público e diretor), de Copenhague, na Dinamarca (filme), e de NoviSad, na Sérvia (filme), até chegar à lista dos dez melhores do ano do New York Times (ao lado de nomes célebres, como Quentin Tarantino, Steven Spielberg e Michael Haneke).
Ciranda vigiada
As honrarias seriam suficientes para deixar o diretor deslumbrado se ele fosse do tipo deslumbrável (e se não tivesse construído uma carreira sólida antes de sua estreia em longas de ficção). Kleber Mendonça tem 44 anos, nasceu no Recife e passou cinco anos de sua adolescência na Inglaterra, o que lhe deixou como legado certa ironia britânica, presente também em sua obra. Estudou jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco, tornou-se crítico de cinema e realizador de curtas premiados, como Vinil Verde (2004), Eletrodoméstica (2005) e Recife Frio (2009), além do documentário Crítico (2008).
Muitos dos temas e um tanto do estilo apresentados em seus curtas voltam a O Som ao Redor maturados, reelaborados e redistribuí-dos numa estrutura de mosaico. A câmera se alterna entre um punhado de personagens centrais: um ex-senhor de engenho que é dono de quase todo um bairro na capital pernambucana (W. J. Solha); seu neto, que cuida de negócios imobiliários (Gustavo Jahn); uma dona de casa que, atormentada pelos latidos do cachorro do vizinho, só se relaciona plenamente com eletrodomésticos (Maeve Jinkings); e um segurança particular (Irandhir Santos), líder de um grupo que oferece serviços de proteção aos moradores da rua – trazendo paz para alguns e mais tensão para outros.
Em torno deles, há uma ciranda de personagens que parece uma versão da Quadrilha de Carlos Drummond (“João amava Teresa que amava Raimundo...”), na qual o amor foi substituído pelo medo: crianças que brincam nos prédios, vigiadas por babás, vigiadas por moradores, vigiados por porteiros em uma rua agora vigiada por uma espécie de milícia.
O Som ao Redor não apenas desconstrói a arquitetura do medo à brasileira, como ainda desenterra suas raízes históricas – mostrando que a divisão entre casa-grande e senzala resiste nos apartamentos da classe média, com seus minúsculos quartos de empregada, e que a violência das disputas de terra migrou para a especulação imobiliária nas grandes cidades. O filme consegue dar conta dessa tarefa complexa sem recorrer à pirotecnia de Cidade de Deus nem ao didatismo da narração em off de Tropa de Elite. Kleber Mendonça não oferece um tratado sociológico, mas uma experiência cinematográfica em que ruídos dizem mais que palavras, personagens são definidos pelo que escondem, não pelo que mostram, e ferramentas do meio são aproveitadas ao máximo: a tela panorâmica do formato Cinemascope,a gama de possibilidades da edição de som.
Os festivais e críticos, no Brasil e no exterior, reconheceram essas duas virtudes centrais do filme: utilizar com sutileza e sofisticação os recursos visuais e sonoros que só o cinema oferece e dar a um tema universal – o medo da violência – um olhar original e específico, com distinto foco brasileiro, pernambucano.

¨¨¨Landisvalth Blog: ISTOÉ revela os nossos talentos desperdiçados

¨¨¨Landisvalth Blog: ISTOÉ revela os nossos talentos desperdiçados: Cerca de 5% das crianças e dos adolescentes brasileiros são superdotados. Por que o País tem tanta dificuldade para identificar e desenvol...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Alceu Valença estreia como cineasta


Alceu Valença, o homem que vive três anos em um, estreia como cineasta e se torna uma usina de shows aos 66 anos
JULIO MARIA - O Estado de S.Paulo
Alceu Valença
Abençoado o repórter que consegue fazer três perguntas a Alceu Valença. Como se o mundo fosse acabar ali mesmo, ele toma para si as funções de entrevistado e entrevistador assim que apanha o telefone e sai atropelando a própria ordem narrativa que tenta construir. Cinco ou seis minutos se passam com Alceu respondendo as próprias questões até que ele respira, diz um "tá me ouvindo, meu velho?", ganha confiança ao saber que sim e recoloca o indicador no gatilho. Alceu, 66 anos, vive presente, passado e futuro ao mesmo tempo. Com cinco safenas caprichosas que deixaram o seu coração igualzinho Recife, "cheio de pontes", parece ser levado por cada uma delas a um destino diferente.
É um giro e tanto o que lhe aguarda nos próximos dias: hoje chega a Rio Negrinho, Santa Catarina, para participar de um festival de rock que o tem como atração principal. "Mas você faz um rock que não é rock!", disse a ele um confuso jornalista norte-americano depois de vê-lo em um show no Carnegie Hall, em Nova York, nos anos 80. Depois, sobe para Sobral, no Ceará, pronto para outro formato de show, mais centrado em frevos e em Luiz Gonzaga. "Mas sua banda, Alceu, é uma banda de pife elétrico!", disse a ele Gonzagão, aperreado com o que ouvira, antes de fazerem juntos a canção Plano Piloto. O músico segue então para o Sesc Pompeia, São Paulo, para tocar dias 4, 5 e 6 de janeiro seu modelo acústico, com a acordeonista Lucy Alves e o guitarrista e parceiro de anos Paulo Rafael, que neste projeto sustenta as harmonias dos clássicos de Alceu com viola e violão. Quatro dias depois e o novo destino será os palcos de Lisboa e Paris para uma temporada que desengaveta mais memórias.
Cena de A Luneta do Tempo
Estava Alceu em 1979 prestes a se apresentar no New Folk Festival, na Suíça, quando um repórter o abordou no camarim. "O que você acha de cantar antes da Joan Baez?" Alceu olhou o rapaz de alto a baixo e devolveu: "Mas rapaz, por que você não pergunta a ela o que acha de se apresentar depois do Alceu Valença, do Brasil?"
O gás de Alceu não arrefece com sua volta. É para este ano que ele promete a estreia de A Luneta do Tempo, seu primeiro filme, do qual assina roteiro e direção. Suas ideias começaram há dez anos, quando lhe vieram os esboços da trama de amor que se passa no cangaço de violeiros e artistas circenses, inspirada em rimas de cordel e linguagem de repentistas. Conta a história de Rodrigo, um diretor de cinema, que volta a São Bento do Una (terra do próprio músico) para filmar a saga de Lampião, Maria Bonita, Severo Brilhante e seu bando contra Antero Tenente e seus soldados. Irandhir Santos aparece como Lampião, Hermila Guedes é Maria Bonita e Ceceu Valença, filho de Alceu, vive o mulherengo e canastrão Nagib Mazola.
A mão de Alceu está na trilha sonora e em um texto que poderia sempre ser música. Sem saber que está no purgatório com Maria Bonita, Lampião se enfeza com a mulher que tenta convencê-lo de que ambos estão mortos. Magoada, ela se refugia em uma pedra alta e fica por lá, contemplando um fim de tarde inebriante com toda a sua tristeza. Lampião chega por trás e começa a cortejá-la: "Se o tempo tivesse a medida pequena de um dia de feira e tu não fosse a minha vida, eu cometia uma besteira. Voava daqui do lajedo nas asas leves do vento, matava cabo e sargento e virava o mundo todo do avesso. Mas confesso o meu segredo, do fundo do meu sentimento: sem você, morro de medo. Não te esqueço um só momento." Maria Bonita fica desconcertada. "Tu és o rei da poesia, Lampião." E ele devolve: "Ah Maria, deixe de besteira."
Alceu Valença em ação no set de filmagens
"Quero colocar o filme primeiro nos circuitos internacionais para depois trazê-lo ao Brasil, ainda em 2013", diz o músico. O longa, uma ficção, ganha tons biográficos quando reconduz o artista às origens de São Bento do Una. Pois foi lá que seu pai sentiu com agulhadas no peito que o moleque tinha mesmo um pé no palco. "Música era uma coisa proibida lá em casa. Meu pai não quis me dar nem um violão, queria que eu estudasse outra coisa."
Apesar de ter Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga subindo suas veias lado a lado com os genes do rock and roll setentista e de frevos, maracatus, choros e da música árabe que historicamente usa o baião como seu melhor hospedeiro no Brasil, Alceu diz ser um homem sem ídolos, inspirado por uma conversa de corredor que teve com Hermeto Pascoal. "Mas Hermeto, quem você ouve para se inspirar?" "Eu não ouço nada." "Por que não?" "Para não me influenciar."
Quando fica indignado, seus disparos atingem o programa The Voice, da Globo. "O Brasil precisa tomar vergonha na cara. Enquanto nossa taxa de desemprego é inferior à dos Estados Unidos e nossa economia se fortalece, as pessoas continuam indo para a televisão cantar soul music, fazer cópia de norte-americano. E eu te pergunto: Você acha que um dia vamos fazer soul music melhor do que os americanos?". O circuito que o Nordeste criou para alimentar seu show biz lhe dá vergonha. "Os donos das rádios são os mesmos donos das bandas de forró. Criam uma rede fechada para se apresentar e dizem fazer o que o povo gosta. E como é que o povo vai gostar de outra coisa?" Uma hora e trinta e cinco minutos depois, o repórter consegue fazer a quarta pergunta: "Você pode me mandar o roteiro do seu filme?" E Alceu, o homem que quer viver três anos em um, responde: "Não rapaz, escreve aí que eu dito. Assim a gente continua conversando."

sábado, 22 de dezembro de 2012

Capitães da Areia, o filme, é obra superior


Capitães da Areia, o filme, estreou no dia 7 de outubro de 2011, dirigido por Cecília Amado, tem como tema principal a vida de meninos de rua que viviam em um trapiche na cidade de Salvador. O filme é baseado na obra Capitães da Areia do baianíssimo Jorge Amado, publicado em 1937. No ano de lançamento do filme, faz 10 anos desde a morte do autor. O filme é o marco inicial das comemorações pelo centenário de Jorge Amado. Cecília Amado, a diretora, é neta de Jorge Amado.
Professor (Robério Lima- de óculos) e Pedro Bala (Jean Luís - no centro)

Ana Graciela, no papel de Dora
Não consegui assistir ao filme no cinema. Li resenhas, impressões e críticas e percebi um certo jogo empatado entre “gostei” e o “não gostei”. Neste fim de ano, adquiri minha cópia pela Internet (Original!) e hoje tive a felicidade de desfrutar da obra. O filme custou 9,2 milhões e os atores foram quase todos requisitados, testados e treinados em ong´s de Salvador. Imagino o trabalhão que deu para selecionar 12 atores adolescentes entre mais de mil inscritos. Mas o esforço valeu. Os meninos corresponderam. Destaco o ator Robério Lima, que fez o Professor, e o Jordan Mateus, como Boa Vida, que estavam bem à vontade nos seus respectivos papéis. A atriz Ana Cecília (a Virtuosa de Cordel Encantado, da Globo) não conta. Ela estava extraordinária, como sempre. O papel de Dalva lhe caiu como Tieta, Dona Flor e Gabriela em Sonia Braga. O par Jean Luís Amorim (Pedro Bala) e Ana Graciela (Dora) foram muito bons e serão grandes atores num futuro bem próximo.
Ana Cecília, como Dalva, e Paulo Abade, como Gato.
Para que o leitor tenha as informações completas, os personagens Pedro Bala (Jean Luís Amorim), Professor (Robério Lima), Gato (Paulo Abade), Sem Pernas (Israel Gouvêa), Boa Vida (Jordan Mateus), Dora (Ana Graciela), Dalva (Ana Cecília), Querido de Deus (Marinho Gonçalves), Dona Esther (Jussilene Santana), João Grande (Elielson Conceição), Pirulito (Evaldo Maurício), Volta Seca (Heder Novaes), Almiro (Elcian Gabriel), Barandão (Jamaclei Pinho), Ezequiel (Edelvan de Jesus) e Zé Fuinha (Felipe Duarte) formam a base do filme. Os Capitães da Areia são adolescentes abandonados por suas famílias, que crescem nas ruas de Salvador e vivem em comunidade no Trapiche junto com outros jovens adolescentes. Eles praticam uma série de furtos e roubos, o que faz com que sejam constantemente perseguidos pela polícia. Um dia Professor conhece Dora (Ana Graciela) e seu irmão Zé Fuinha (Felipe Duarte), que também vivem nas ruas. Ele os leva até o Trapiche, o que desencadeia a excitação dos demais garotos, que não estão acostumados à presença de uma mulher no local. Pedro consegue acalmar a situação e permite que Dora e o irmão fiquem por algum tempo. Só que, aos poucos, nasce o afeto entre o líder dos Capitães da Areia e a jovem que acabou de integrar o bando.
Além da direção de Cecília Amado, o filme tem como codiretor Guy Gonçalves. Cecília e Bernardo Stroppiana são os produtores. Na produção executiva, além de Stroppiana, aparecem Bill Fogtman, Pimenta Jr e Camila Medina. O roteiro é também de Cecília Amado, associada a Hilton Lacerda. Música de Carlinhos Brown, o diretor de arte é Adrian Cooper. Guy Gonçalves também assina a direção de fotografia, com figurino de Marjorie Gueller e edição de Eduardo Hartung.
Guy Gonçalves, Carlinhos Brown, Ana Cecília, Cecília Amado (Diretora, no centro), Jean Luís, Ana Graciela e Robério Lima.
Capitães da Areia é um filme brasileiro de qualidade superior. Digo ser uma obra carregada de humanismo e fé no homem. Para Francisco Russo, o filme “carrega consigo o DNA da Bahia, através da sensualidade latente mesclada com uma certa dose de provocação insinuante e malandragem. No filme estes ingredientes ganham ainda o forte tempero da sonoridade do sotaque baiano, inconfundível. Tudo para mostrar, em tela grande, a Salvador de Pedro Bala, Professor, Sem Pernas e companheiros. Jovens unidos pela necessidade, todos moradores de rua, que praticam pequenos golpes sem deixar de lado a ética da camaradagem. Todos delinquentes e, ainda assim, cativantes.” Acho que vai muito além disso e os críticos só perceberiam caso uma elite interpretativa, com cara de “o de sempre”, estivesse à frente do elenco. É difícil no Brasil fazer um filme sobre pobres, negros e afins. Lembro-me de Cidade de Deus. Mereceria um Oscar, mas até mesmo sua indicação foi uma aventura cheia de atrapalhadas. Como tenho fé nos críticos, o tempo fará com que eles descubram que Cecília Amado, Carlinhos Brown e Guy Gonçalves foram geniais. A música de fundo da personagem Dora é de uma harmonia invejável. E o que dizer da cena do carrossel de cavalinhos no parque, cantada pelos Tribalistas! Maravilha! A fotografia, mesmo revelando o mundo pobre da Bahia, consegue passar beleza. Nada no filme parece artificial, exatamente porque Cecília usou uma maioria baiana para falar de si mesma. A minha nota é DEZ!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

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¨¨¨Landisvalth Blog: Notas do MEC para mais de 2 mil instituições mostr...: MEC divulgou o IGC, o CPC e o conceito Enade do ciclo 2008 a 2011.  Confira quais instituições e cursos tiveram conceito considerado sufici...