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terça-feira, 21 de maio de 2013

A Literatura Brasileira Informativa e Catequética


                                                             por: Landisvalth Lima

                                 Período vai de 1500 a 1601.

- Não forma escola literária.
- Os jesuítas da Companhia de Jesus iniciaram a nossa literatura. Chegaram em 1549.
- A literatura desenvolvida nesse período é catequética, informativa e de pouco valor artístico.
- A literatura de informação foi desenvolvida por cronistas e viajantes. A preocupação básica era com a descrição da terra, da gente e dos costumes do lugar.

Principais cronistas:

1 – Pero de Magalhães Gândavo:

         Obra principal: História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil.

A “História da província de Santa Cruz”
                              Maria Clara Paixão de Sousa
“A causa principal que me obrigou a lançar mão da presente história, e sair com ela a luz, foi por não haver até agora pessoa que a empreendesse, havendo já setenta e tantos anos que esta província é descoberta”... (Trecho do "Prólogo ao leitor")             
Com essas palavras Pero Magalhães de Gândavo abre o Prólogo ao leitor da sua História da Província de Santa Cruz, o primeiro livro inteiramente dedicado ao Brasil escrito por um autor português.
Esta obra de Gândavo hoje ocupa um incontestável e merecido lugar de destaque: considerada “a primeira história do Brasil”, leitura obrigatória para os interessados no período colonial, foi recentemente objeto de excelentes edições comentadas e diversos trabalhos acadêmicos. É difícil imaginar, diante disso, que este relato pioneiro tenha permanecido escondido do mundo durante os trezentos anos que se seguiram à sua primeira impressão em 1576.
Mas a verdade é que a atenção em torno da obra de Gândavo só teve início no século XIX, depois da tradução francesa de Henri Ternaux em 1837 – até então, o livro de Pero de Magalhães havia sido deixado em relativo esquecimento pelos portugueses, como observa o tradutor em seu prefácio: “Desgraçadamente, a indiferença dos portugueses e espanhóis, mesmo para os seus melhores autores, impediu que esta obra fosse outra vez reimpressa. Tornou-se tão excessivamente rara, que não se encontrariam agora senão três ou quatro exemplares; não se acha em nenhuma Biblioteca Pública de Paris, e é raramente citada pelos autores portugueses que têm tratado do Brasil”. De fato, os séculos XVII e XVIII só viram surgir duas cópias manuscritas – anônimas – do livro impresso em 1576, que circularam obscuramente entre aficionados em Portugal.
Duas décadas depois da tradução de Ternaux, surgem duas novas edições impressas portuguesas da “História”, as duas no ano de 1858: uma oferecida pela Academia de Ciências, a outra pelo Instituto Histórico e Geográfico – ambas agora disponíveis em versão digital na Brasiliana-USP.
O “esquecimento” secular da obra de Gândavo se insere no contexto geral das discussões sobre o lugar reservado pelos portugueses às notícias, relatos de viagens e descrições das suas possessões na América ao longo do século XVI. Interpretado por alguns historiadores como simples desprezo, e por outros como estratégia diplomática perspicaz, esse “esquecimento” – ou segredo ? – resultou, de todo modo, na dificuldade que hoje encontramos na tarefa de contextualizar algumas dessas obras e seus autores.
É esse certamente o caso da “História” de Gândavo: pouco se sabe sobre o autor e o contexto da construção de seu relato, estando hoje em debate até se Pero Magalhães algum dia chegou a colocar os pés nas terras que descreve no livro. Alguns especialistas consideram mais provável que Gândavo tenha reunido as informações apresentadas na “História” ao longo dos anos que antecedem a publicação do texto, quando teria trabalhado nos arquivos da Torre do Tombo justamente com a tarefa de reunir e traduzir papéis relativos à ocupação das colônias. Outros, ainda, afirmam que Pero Magalhães teria estado na verdade na Índia enquanto escrevia a primeira história do Brasil...
No texto de Gândavo, por outro lado, o que o leitor vai encontrar são momentos de grande prazer de leitura. A obra é apresentada por ninguém menos que Luís de Camões, que ofereceu tercetos e sonetos inéditos para anteceder as páginas em que Magalhães “tece sua breve história para ilustrar a terra Santa Cruz pouco sabida”. Camões e Gândavo foram contemporâneos e companheiros em diferentes contextos – entre os quais, o de compartilharem a mesma oficina tipográfica, de Antonio Gonçalves. A obra de Gândavo é, na esfera historiográfica, também companheira da obra de Camões, no seu desejo de elevar e imortalizar os grandes feitos dos portugueses. Na sua “História”, Gândavo relata as “cousas dignas de grande admiração” que há nesta província, para “dá-las a perpétua memória, como costumavam os Antigos: aos quais não escapava coisa alguma que por extenso não reduzissem a história, e fizessem menção em suas escrituras de coisas menores que estas, as quais hoje em dia vivem entre nós como sabemos, e viverão eternamente”
E por fim, tenha sido ou não o autor “testemunha de vista” (como diz ter sido) dos acontecimentos e das cenas dignas de admiração que relata, uma coisa é certa: o texto de Gândavo é tão vivo, corre com um estilo tão limpo e fluente, que as imagens que ele desenha com as palavras se levantam vivas diante dos olhos do leitor: imagens de rios caudalosos e seus peixes estranhos; imagens de tatus, onças e antas; imagens de batalhas medonhas e terríveis monstros marinhos... Quase nos sentimos “testemunhas de vista” nós, que o lemos quase quinhentos anos depois.
 (http://www.brasiliana.usp.br)
Em suma:
- Faz um histórico da descoberta do Brasil e de suas primeiras povoações.
- Há descrições das capitanias hereditárias.
- Registra o modo de viver dos habitantes brasileiros na época dos governos-gerais.

Outra obra do autor: Tratado da terra do Brasil

2 – Gabriel Soares de Souza:
Colonizador dono de engenho, comerciante, sertanista e navegador português nascido em Ribatejo, conhecido por ter escrito Tratado descritivo do Brasil (1587), um tratado que constitui um dos primeiros e mais extraordinários relatos sobre o Brasil colonial, que contém importantes dados geográficos, botânicos, etnográficos e lingüísticos, e publicado postumamente por Varnhagen (1879), em Lisboa.
Membro da expedição naval de Francisco Barreto, que partira com destino à África, mas acabou por chegar ao Brasil. Estabelecido na Bahia (1569), montou o engenho Jaguaripe. Voltou a Portugal (1584) para obter da corte o privilégio de exploração de minérios e pedras preciosas ao longo do rio São Francisco.
Enquanto aguardava a permissão régia escreveu seu famoso tratado, dividido em duas partes: Roteiro geral e Memorial das grandezas da Bahia, descrevendo informações sobre geografia, costumes dos índios, agricultura, animais e plantas brasileiros.
Nomeado governador e capitão-mor da conquista das Minas, regressou ao Brasil com 360 colonos, quatro freiras carmelitas e o governador-geral do Brasil, D. Francisco de Sousa. Chegando à Bahia, empreendeu uma expedição que percorreu mais de cem léguas do rio São Francisco, mas morreu de uma febre em pleno sertão, após atingir as nascentes do rio Paraguaçu.
Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/
        
Obra principal: Tratado descritivo do Brasil
Tratado descritivo do Brasil – Gabriel Soares de Sousa.

- Em Tratado descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa, há uma pequena enciclopédia que registra observações sobre a natureza e a gente do Brasil. A capitania da Bahia aparece com destaque.
- Há preocupação constante do autor com a possibilidade de aproveitamento, povoamento e exploração da terra brasileira.
- Na obra há referências à expedição costeira de 1501, comandada por Gonçalo Coelho, para reconhecimento da nova terra.
-  O autor cita que a expedição de Cristóvão Jacques encontrou 2 navios franceses na Bahia de todos os santos e os bombardeou. O nome da baía foi dado pelo navegador.
-  No documento há um relato sobre a capitania de São Vicente, primeira vila do Brasil e primeira a produzir açúcar. O capitão era Martim Afonso de Sousa.
-  No texto há citações sobre a empreitada de Martim Afonso de Sousa em direção ao interior do rio da Prata. Nesta investida, várias embarcações foram perdidas e muitos morreram.
-  No texto há referências a Tomé de Sousa, fundador da cidade do Salvador.
- Há ainda detalhamento de como a cidade do Salvador foi edificada. Casas foram construídas, muros foram edificados e a artilharia  protegia a cidade. Um colégio de Jesuítas também foi erguido.
-  O autor relata a falta de 3 letras no idioma dos Tupinambás, o Tupi: o F, o L e o R.
- Há relatos também dos índios que, desgostosos, resolvem cometer suicídio comendo areia.

3     – Padre Fernão Cardim:
 Obra principal:
Tratado da terra e da gente do Brasil
- Registra as frutas nativas e as trazidas de outros continentes.
- Há o relato de uma estranha arvora que tem água.
- Descreve as árvores que fornecem madeira de qualidade.
- Fala ainda das ervas, dos animais nativos e daqueles que vieram da Europa.
Fernão Cardim nasceu em Viana de Alvito, em 1548 ou 1549. Entrou em uma companhia em 1566 de fevereiro no qual passou 20 anos com o irmão e padre.Na viagem ao Brasil ele acompanhou o padre visitador Cristóvão de Gouveia,no mesmo navio embarcou o primeiro governador Felipe II,no qual acompanhou ele passando pela Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Vicente, chegando até Itanhaí. Viajou com Anchieta para o sul do Brasil e assistiu as festas do trigésimo aniversario da cidade de São Paulo. Dois anos depois o visitador Cristóvão voltou a Portugal, mas Fernão permaneceu. Passou alguns anos no Rio,e depois para a Europa,pois ele foi eleito procurador da província do Brasil e levou seus manuscritos. Quando retornou em 1601seu navio foi capturado pelo pirata Frances Francis Cook e seus manuscritos foram vendidos por Cook que publicou em 1605.

4 – Pero Vaz de Caminha:
        
Obra: Carta do achamento do Brasil

 A Carta

-  Relata ao rei de Portugal o descobrimento.
-  Indica que os índios eram pardos e andavam nus.
-  As datas sobre a descoberta são precisas.
-  O contato entre portugueses e indígenas foi pacífico. Houve até troca de objetos.
-  Registra as duas missas acontecidas em 1º de maio.
-  Indica que só uma mulher participou da missa.
-  Registra que dois degredados, os primeiros habitantes brancos, foram aqui deixados.
-  Prega a necessidade de difundir a fé cristã entre os indígenas.
-   Há clara preocupação comercial com a terra descoberta.

Senhor,

posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado.
E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:
E digo quê:
A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !
Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais !
E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.
Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.
À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.
E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.
Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.
Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

5 – Pero Lopes de Souza:
Navegador português nascido em Lisboa (1497), autor do famoso Diário da navegação de Pero Lopes de Sousa (1530-1532) que se tornou o mais importante relato sobre a expedição de seu irmão ao Brasil, no início do século XVI. Irmão mais velho de Martim Afonso de Sousa, o acompanhou como piloto e imediato na expedição enviada ao Brasil pelo rei D. João III (1530) e explorou o estuário do rio da Prata (1531). Na volta a Portugal (1532), aprisionou nas costas de Pernambuco, dois navios franceses, o que aumentar seu prestígio junto à corte. Em Portugal escreveu um roteiro de sua viagem ao Brasil, o Diário da navegação de Pero Lopes de Sousa, descoberto pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagem e publicado em Lisboa (1839). Além de conter a sua biografia e a do irmão, a obra narra, entre outros episódios, a fundação das vilas de São Vicente e Piratininga. As elucidações e notas tratam do descobrimento do Rio de Janeiro, do rio da Prata e da ilha de Fernando de Noronha. Em sua última viagem, partiu como capitão-mor de uma esquadra de seis navios, o navegador zarpou novamente de Lisboa (1539) rumo à Índia, porém na viagem de retorno, no mesmo ano, naufragou com a nau Galega em São Lourenço, perto de Madagascar, e desapareceu para sempre.
         Diário da navegação, em suma:
- Documenta dia-a-dia os acontecimentos da expedição comandada por Martin Afonso de Sousa, seu irmão.
-  É um texto técnico com o registro freqüente de referências náuticas.
-   O início do relato é de 12 de março de 1531.
-  Registra o encontro com Diogo Álvares Correia, o Caramuru, na Bahia.
-  Relata que a expedição passou 91 dias na baía da Guanabara.
-  Registra o encontro com a figura do Bacharel, provavelmente um dos degredados deixados por Cabral, encontrada em Cananeia, ao sul de São Vicente.
-  O relato do texto vai até o dia 28 do mês de setembro de 1531.

6 – O Piloto Anônimo

A Relação do piloto anônimo é, ao lado das cartas de Pero Vaz de Caminha e de Mestre João, um dos três testemunhos diretos do descobrimento do Brasil. Depois da Carta de Caminha, relata o momento inicial da construção da imagem do nativo pelo portugueses (vide "Brasiliana da Biblioteca Nacional", Rio de Janeiro, 2001, página 26). O relato foi publicado, em italiano, na coletânea de viagens organizada por Fracanzano da Montalboddo e intitulada: "Paesi Novamente Retrovati et Novo Mondo de Alberico Vesputio Florentino Intitulato" (Vicenza, 1507, folhas 58 a 77, capítulos 63 a 83).
Diz a Brasiliana da Biblioteca Nacional", Rio de Janeiro, 2001, página 26:
"A política de sigilo, verdadeira ou falsa, do governo português referentemente ao Brasil gerou uma perda irreparável, representada no diminuto número de obras que noticiavam a existência da ilha de Vera Cruz, conforme constatou Francisco Leite de Faria (1972, Moçambique) ao lembrar que ´os impressos publicados em Portugal, no século XVI, respeitante exclusivamente ao Brasil, são poucos, raros e preciosos.´" A própria Carta de Caminha só seria publicada pelo Padre Manuel Aires de Casal em sua "Corografia brasílica", pela Imprensa Régia, no Rio de Janeiro, em 1817!
Montalboddo diz ter traduzido um original em português do qual nunca se achou o paradeiro. A primeira versão em português data de 1812, de autoria de Trigoso de Aragão Morato. Trata-se de uma retroversão, vinda a público na "Coleção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas". Baseia-se numa versão italiana publicada por Giovan Battista Ramusio, em 1550, com o título "Navigationi del Capitano Pedro Alvares Cabral Scrita per un Piloto Portoghese et Tradotta di Lingua Portoghese in Italiana" (In: "Primo Volume della Navigationi et Viaggi...").
Giovan Battista Ramusio é o primeiro a atribuir a um piloto a autoria da relação (cujo significado aqui é o de "relato") mas é pouco provável que o autor desempenhasse esse ofício. A própria narrativa quase desautoriza a suposição, desprovida das observações de natureza técnica comuns em diários escritos por pilotos de navio.
Alguns historiadores creem que Giovanni Matteo Cretico, núncio em Lisboa, seria o autor, tendo compilado ou traduzido uma narrativa anônima, remetendo-a, em seguida, ao cronista de Veneza, Domenico Malipiero. Daí a edição italiana de 1507. Há restrições a essa suposição, pois o núncio não dominava a língua portuguesa, sendo-lhe impossível compilar ou traduzir um texto. Mais plausível é a hipótese de William Greenlee, que, depois de promover cuidadoso levantamento dos homens alfabetizados que retornaram com a armada cabralina, asseverou ser o autor João de Sá, escrivão da armada.
Incertezas à parte, a "Relação..." é um documento importante para os que querem conhecer a empresa marítima de Cabral. No que se refere ao descobrimento, a narrativa pouco acrescenta à Carta de Pero Vaz de Caminha (da qual o autor, aliás, morreu em Calecute). Nada mais nos dá a conhecer sobre a viagem entre Cabo Verde e a costa do Brasil, sobre as características dos nativos ou sobre os primeiros contatos com eles. Limita-se a confirmar o que, de forma mais colorida, descrevem as outras duas testemunhas do acontecimento.
O interessante do relato é continuar com a armada de Pedro Álvares Cabral e narrar suas desventuras. Trata-se do único testemunho direto sobre a segunda viagem dos portugueses à costa da Índia, viagem importante para realizar o que Vasco da Gama não conseguira em 1497 e 1498: estabelecer relações comerciais permanentes com a cidade de Calicute e firmar presença na região. Cabral, quando retornou a Lisboa, foi recebido mais como o responsável por um desastre político e comercial do que como o audaz descobridor de uma rica e promissora terra.
Assim sendo, conclui o autor de "Brasiliana da Biblioteca Nacional", página 33, evocando o Relato do Piloto Anônimo e a "Copia de una littera del Re de Portogallo" etc. mencionada no verbete sobre Pedro Álvares Cabral: ´O fato de as duas primeiras fontes impressas sobre a viagem da armada de Pedro Álvares Cabral terem sido divulgadas no estrangeiro anonimamente contribuiu para o conhecimento imperfeito desse evento histórico que abre o Atlântico Sul à expansão do capitalismo e inaugura o advento da idade moderna. Essa primeira coletânea de viagens organizada por Montalboddo logo no início do século XVI teve grande fortuna editorial no século XVI e, com reedições e traduções, chegando a 35 diferentes impressões, conforme demonstrou Francisco Leite de Faria.´ (Wikipédia).

Relação da viagem de Pedro Álvares Cabral – Piloto anônimo


- Relato de autor desconhecido, publicado alguns anos após a descoberta.
- Datas diferentes das existentes na carta de Pero Vaz de Caminha. Aqui o Brasil foi descoberto dia 24 de abril de 1500.
- Indica que a primeira missa foi realizada na praia, dia 26 de abril.
- Trata da vida indígena, inclusive relatando a pesca de um peixe do tamanho de um tonel.
- Registra que os índios consolavam os degredados quando foram deixados no Brasil.
- Relata que Cabral mandou uma embarcação para levar a carta de Caminha ao Rei de Portugal.
- Faz todo o relato da viagem, inclusive o retorno a Portugal.
- Registra o texto que apenas seis naus retornaram da viagem.
- No retorno, encontraram a expedição de Américo Vespúcio – que faria a 1ª expedição ao Brasil, em 1501.

                       Trecho para leitura:

     Dos papagaios da terra há pouco descoberta
Não vimos neste lugar nem ferro nem outros metais. Os homens da terra cortam a madeira com pedras. Pássaros há muitos e de variados tipos, especialmente papagaios, os quais podem ser de muitas cores e alcançar o tamanho de uma galinha. Há outras aves igualmente belas, cujas plumagens são usadas pelos homens da terra para fazer os chapéus e barretes que usam. A terra é abundante em árvores de diferentes tipos e tem uma água excelente, além de inhames e algodão. Não vimos nenhum animal. 
     O lugar é grande e não sabemos se é ilha ou terra firme, porém, por sua grandeza supomos tratar-se de terra firme. O clima é muito bom. Os homens da terra, que são grandes pescadores, confeccionam umas redes e pescam variados tipos de peixe. Vimos um exemplar por eles pescado que tinha o tamanho de um tonel, mas era mais comprido e mais redondo, sem dentes e com a cabeça semelhante à de um porco. Seus olhos eram pequenos e suas orelhas, longas como um braço e largas como meio braço. 
     Por baixo do corpo, esse peixe tinha dois furos e sua cauda era do comprimento e da largura de um braço. Pés não se viam em nenhum lugar. A sua pele tinha pêlos como a do porco e era da grossura de um dedo. A sua carne era branca e gorda como a do porco. 
     Durante os dias em que estivemos ancorados, o capitão fez saber ao nosso sereníssimo rei do achamento desta terra e deixou nela dois bandidos, condenados à morte, que trazíamos na armada com esse propósito. O capitão prontamente despachou um pequeno navio de mantimentos, que acompanhava as 12 naus da esquadra, com cartas para o rei, relatando tudo quanto se tinha visto e descoberto. A seguir, desembarcou, mandou fazer uma grande cruz de madeira e determinou que a fixassem no solo. Os dois bandidos que tinham ficado no lugar puseram-se a chorar quando da partida, sendo consolados pelos homens da terra, que demonstraram ter piedade deles.

7 – Andre Thevet
    Franciscano, explorador e escritor francês nascido em Angoulême, hoje uma comuna francesa situada no departamento de Charente, na região Poitou-Charentes, cosmógrafo da expedição do calvinista Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571)  que viajou ao Brasil na missão para fundar a França Antártica (1556), objetivando implantar uma colônia francesa no território brasileiro para abrigar protestantes perseguidos e abrir espaço para a exploração mercantil. Cosmógrafo de quatro reis, de Henrique II a Henrique III, era capelão de Catarina de Médicis, quando resolveu acompanhar Villegaignon em sua aventura de colonização francesa no Brasil (1555). Esteve no Rio de Janeiro por menos três meses consecutivos (1555-1556), pois ficou doente e teve de ser repatriado. Escritor prolífico, a brevíssima estada não o impediu de escrever sobre vários aspectos da natureza e dos povos americanos e recebeu o real privilégio para publicação da obra Les singularitez de la France Antarctique, autrement nommee Amerique, & de plusieurs terres et isles decouvertes de nostre temps. Lançado em Paris (1558) com grande sucesso, a obra foi traduzida e publicada em italiano (1561) e em inglês (1568). Com a ajuda dos índios locais, ferrenhos inimigos dos portugueses, os franceses permaneceram no Rio de Janeiro até serem expulsos (1567) pelo Governador-Geral Mem de Sá (1500-1572) e seu sobrinho Estácio de Sá (1520-1567). Na obra descreveu as suas impressões acerca dos primeiros tempos da tentativa francesa de fundação, na América do Sul, na baía de Guanabara, de uma colônia denominada como França Antártica. Foi ele quem criou a expressão França Antártica (1557) e posteriormente culpou os huguenotes, como eram chamados os calvinistas franceses, pelo fracasso da colônia. Esse ataque envolveu uma grande polêmica religiosa com o calvinista Jean de Léry (1534-1611), justificando a obra deste último Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil, autrement dite Amérique (1578), sobre a mesma aventura. Também escreveu La Cosmographie Universelle, Paris (1575). Foi também guarda das curiosidades reais, abade de Masdion, em Sanitonge, e morreu em Paris, aos 88 anos. Escreveu, em português atualizado, ... Ostras agarravam-se às raízes das árvores de mangue, formando verdadeiros cachos. Estas raízes eram cortadas pelos indígenas quando em maré baixa, que preferiam as ostras menores do manguezal às maiores do mar por serem aquelas mais saborosas e sadias e estas causadoras de febres... Ele assegurava em seus escritos que os selvagens da América não viviam nos campos e florestas como animais e nem tinham seus corpos recobertos de pêlos, como ursos, cervos ou leões, afirmando seguramente que a aparência dos nativos era exatamente o oposto do que os pintores do Velho Mundo pincelavam os selvagens ameríndios. Seus escritos e ilustrações comprovavam a existência de homens com corpos lisos e bem cuidados.
Obra:
                  As singularidades da França Antártida

- Descreve a América como descoberta por Vespúcio e vê seus habitantes como estranhos, selvagens, sem lei e sem religião.
- Descreva uma árvore frutífera chamada Pacoveira, na verdade se trata da bananeira.
- Descreve como os índios fazem orifícios no corpo, inclusive furando os lábios com planta aguçada.
- Mostra como as mulheres gostavam de pintar o rosto de preto quando em visita a doentes.

8 – Jean de Léry

Missionário protestante francês nascido em 1534, em La Margelle, na região de Yonne, e falecido em 1613, em L'Isle, na Suíça. Durante a sua vida publicou duas obras sobre a sua estadia no Brasil e mais duas sobre Sancerre, em que descreve a história e cerco da cidade.
O jovem Jean de Léry embarca em 1556, como missionário para a recém-criada colónia francesa de Fort-Coligny, na baía de Guanabara, Rio de Janeiro, Brasil. Aqui, Nicolas Durand de Villegaignon fundara a França Antártica, mas como católico que era, não acolheu bem os missionários protestantes e expulsou-os da colónia. Após dois meses a viver na companhia dos índios Tupinambás, Jean de Léry e alguns dos seus companheiros decidiram regressar a França. Os que teimaram em ficar em Fort-Coligny acabaram por ser massacrados às ordens de Villegaignon. 
A viagem de regresso foi atribulada e a chegada a solo francês não foi melhor. Sem suspeitarem de nada, os missionários levavam consigo uma carta, em que Villegaignon ordenava a prisão e execução imediata destes. Mas as autoridades francesas, igualmente protestantes, ignoraram a ordem.
Jean de Léry estava em Sancerre quando se deu o Massacre de São Bartolomeu, a 24 de agosto de 1572, em que os católicos perseguiram ferozmente os protestantes. O cerco à cidade foi prolongado e Léry ensinou aos seus companheiros alguns truques de sobrevivência que aprendera com os Tupinambás do Brasil. Desta experiência nasceram os seus dois livros: História Memorável do Cerco de Sancerre e História Memorável da Cidade de Sancerre publicados dois anos depois. Contudo, a fama de Léry enquanto escritor deve-se ao seu livro História de uma Viagem às Terras do Brasil, onde relata as experiências vividas e registadas no seu diário de bordo. Foi publicado somente em 1578 depois de vários contratempos. Viveu os seus últimos anos de vida como pastor em Genebra.

Viagem à terra do Brasil – Jean de Léry

- Registra que as tribos nunca passavam mais de 6 meses em um lugar.
-  Mostra que os índios teciam suas redes de dormir.
-  Indica a bebida preferida pelos índios: o cauim.
-  Registra que as mulheres choravam ao receber os visitantes.
-  O autor teve um desentendimento com um Tupinambá, mas não houve briga.

9 – Hanz Staden

Hans Staden em duas viagens ao Brasil e uma breve comparação com a carta de Pero Vaz de Caminha
(por Felipe Aguiar Chimicatti)

Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal,
que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha
Pero Vaz de Caminha

A literatura de viagem adormece sob um caráter essencialmente revelador: Quer ela nos contar o que o viajante assistiu, projetando em nosso imaginário o aparecimento descritivo de uma realidade diversa, vista através de um olhar particular. O assistir, no entanto, não passa de literatura centrada na impressão pessoal: As narrativas seguem, invariavelmente, pontos de vista. Quando os peninsulares europeus se lançaram ao oceano em busca de especiarias, tinham em mente a menor das idéias do que encontrariam. Estes dois relatos – o de Staden e o de Caminha - dizem muito a respeito do estranhamento eurocêntrico da descoberta das Américas. “Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a barberia [barbárie] deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém” (Folha 3 da carta de Pero Vaz de Caminha). Mas esse estranhamento segue lógicas diferenciadas: Hans Staden ficou preso em uma tribo de antropófagos, vendo-os em suas cerimônias comer a carne humana assada; Pero Vaz de Caminha viu os índios a partir de um escopo mais naturalista, menos amedrontador, embora ambos os tratassem em formas subjugadas, de acordo com a mentalidade da época. Para Staden há formidável justificativa para tanto: a eminência de ser devorado.
A narrativa de um alemão
Hans Staden era um mercenário alemão que empreendeu duas viagens ao Brasil – a primeira em 1548, passando por Pernambuco e Paraíba, e a segunda em 1550, passando ela ilha Santa Catarina, dirigindo-se, posteriormente, a capitania de São Vicente, atual Estado de São Paulo. Suas rotas consistiram em séries incríveis de naufrágios e motins, até ser capturado pelos indígenas. Permaneceu nove meses com eles, sempre na eminência de ser comido. Seu relato é premido de receio e assombro, sempre se referindo aos índios enquanto selvagens. Entretanto, é num navio francês que Staden volta à Europa, antes, claro, de barganhar inteligentemente sua liberdade junto aos índios Tupinambás. O livro é um relato surpreendente, sem demasiada amplitude científica, e com vários intertítulos ilustrando os vários capítulos: “Como comeram Jerônimo, o segundo dos dois cristãos assados; Como os selvagens foram à guerra e me levaram com eles, e o quê ocorreu durante a expedição”. Há ainda fascinantes xilogravuras como ilustrações do tempo de cativeiro de Hans Staden. Essas obras foram feitos por ele ou, quando muito, sobre sua supervisão. A esclarecedora introdução de Eduardo Bueno que figura na obra da L&PM traz ainda diversas informações valiosas para a maior compreensão, dentre elas à relação da obra com a ocasião do seu lançamento na Europa. A recepção do texto de Staden no antigo continente atingiu escalas formidáveis, sendo traduzido para o Latim, Holandês, Flamengo, Inglês e Francês, e, já no século XVIII contava com 70 edições. Teria ela influenciado sobremaneira o movimento modernista de 1922 em sua acepção antropofágica. A obra teria sido apresentada a Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp por Paulo Prado, sobrinho do milionário Eduardo Prado, que havia adquirido um exemplar original em um antiquário parisiense. O quadro Abaporu de Tarsila (em tupi-guarani comedor de gente) tem inspiração no então relato antropofágico. Até mesmo o Cinema Novo, sob direção de Nelson Pereira dos Santos, compôs uma obra cinematográfica inspirada no relato de Staden: o filme de 1971 chamado Como Era Gostoso meu Francês, filmado na mesma Ubatuba que Hans Staden se viu aprisionado há quase 500 anos atrás. Existe, entretanto, uma obra cinematográfica mais recente, lançada no ano de 1999, do diretor Luís Alberto Pereira, chamada Hans Staden.
Cândido Portinari e Monteiro Lobato também nutriram admiração pelo relato do alemão, compondo a partir dele obras que refiguraram a narrativa nos respectivos modos dos artistas; nas artes plásticas e na literatura. O primeiro título da obra, de notável extensão, era:História verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hessen até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu por experiência própria, e que agora traz a público com esta impressão. Como Staden não era intimamente ligado às letras, pediu ao Dr. Johannes Dryander, professor catedrático de medicina na Universidade de Marburgo para rever, corrigir e, quando necessário, aperfeiçoar o original. Este era doutor dedicado à matemática e à cosmografia, sendo ele extremamente preocupado em relatar a verdade, evocando, inclusive, à linhagem paterna de Staden – a qual conhecia – para auferir idoneidade.
A narrativa de um português
Por detrás de qualquer relato de viagem que remonte centenas de anos, existe (ou ao menos deveria existir) um estudo filológico direcionado ao discernimento das nuances idiomáticas da cada época enunciada. As minúcias de uma língua arcaica podem dizer muitas sobre a sociedade que a usava; é o caso da Carta de Pero Vaz de Caminha. Na edição da carta da Martin Claret, o prefácio de Jaime Cortesão toca justo nesse tema, evocando qualidades do escrito que escancaram processos históricos valiosos. É o relato de Caminha o documento inaugural do Brasil colônia, repleto de um tom polido, mesmo que ainda perplexo. A carta foi endereçada ao então rei de Portugal, D. Manuel I, e nela os índios são vistos por Caminha de maneira bem diversa da ótica de Hans Staden: São tidos como seres puros propensos à catequização: “(...) não duvido que eles [os índios], segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza o Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade” (Folha 11 da carta de Pero Vaz de Caminha). O contato primeiro na costa brasileira, para os portugueses, foi, portanto, um afável escambo. Os índios ganharam uma série de presentes e os lusitanos uma graúda porção de terra. Foi realizada ainda uma cerimônia religiosa na costa, com direito a cruz e participação indígena que, como consta na carta, empoleirava-se a margem da praia em grupos cada vez mais volumosos (grupos de centenas de índios iam ver a chegada lusa).
Correr sobre os dois relatos é perceber, por exemplo, a polivalência dos pontos de vista. É certo que o olhar eurocêntrico cristão imperou sobre as narrativas de viagem desta época; a Europa estava fundada sobre a hegemonia da Igreja Católica; e isso se nota fortemente. Agora, a recepção dos índios aos europeus nem sempre foi à mesma. Ler sobre essas histórias é, assim, uma digressão ao passado de nós mesmos, aos nossos processos de formação. Mas o estranhamento dos povos estrangeiros é certamente tão forte quanto sua recíproca. Ambos os livros estão disponíveis em versões acessíveis. O livro de Hans Staden foi reimpresso pela editora L&PM Pocket a um preço de R$ 13 e a carta de Caminha pode ser lida na íntegra no excelente site da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/carta.html, mesmo que sem o prefácio de Jaime Cortesão.
Do portal:
http://jornalplasticobolha.blogspot.com.

Duas viagens ao Brasil – Hans Staden

- O autor foi prisioneiro de índios antropófagos.
- O local de prisão do autor é onde hoje se localiza a cidade de Ubatuba, em São Paulo.
- Há o relato de índios que estavam casados com até 14 mulheres.
- Os casamentos entre os índios são tratados ainda quando crianças.
-  Há o relato detalhado de um ritual antropófago.

                         A Literatura Catequética

Principais escritores jesuítas:

1-     Padre Manoel da Nóbrega
(1517-Minho-PT-1570 – Rio de Janeiro)

- Considerado o iniciador de nossa literatura.

Missionário jesuíta português, Padre Manuel da Nóbrega nasceu em 1517 e morreu no Rio de Janeiro em 1570. Se hoje já se tem visão crítica do que significou o dito "descobrimento" do Brasil e o concomitante processo "civilizatório" dos povos que habitavam essa terra, fatos que se tornam bárbaros aos olhos modernos, não se pode negar que os textos produzidos naquela época são o melhor testemunho não apenas dos eventos que deram origem ao que, no futuro, se tornaria o estado brasileiro, mas que, principalmente, revelam o pensamento político e religioso que estava na base de todo o colonialismo. Os escritos do Padre Manuel da Nóbrega formam um marco literário genuinamente produzido no Brasil. Nas cartas de Nóbrega encontra-se o início da história do povo brasileiro, dentro, é claro, do ponto de vista de um catequizador. Está ali, por exemplo, a luta entre cristãos e índios: os primeiros consideravam os segundos como "um papel branco" onde se podia escrever "as virtudes mais necessárias". Ainda que Nóbrega não tenha a estatura lírica de José de Anchieta, seu ‘Diálogo sobre a conversão do gentio’, primeiro texto em prosa escrito no Brasil, tem grande valor literário.

Diálogos sobre a conversão do gentio
- Primeiro texto de valor literário escrito em solo brasileiro.
- É o diálogo entre Gonçalo Alves e Nogueira sobre a conversão dos índios ao cristianismo.
-  Há discussões em torno da não escravidão indígena.
- O texto prega a idéia de igualdade entre todos, a partir da evangelização.

Carta ao padre mestre Simão Rodrigues de Azevedo – Manuel da Nóbrega

-  Escrito logo após a chegada dos padres jesuítas à Bahia.
-  Relata a situação problemática em torno dos habitantes cristãos que não confessavam há anos.
-  Registra que a nudez dos índios não era o principal problema, mas a convivência de cristãos com muitas esposas, dando maus exemplos aos nativos.

2 – José de Anchieta

 (1534- São Cristóvão de La Laguña – Tenerife – nas Ilhas Canárias – 1597 – Reritiba – hoje Anchieta – no Espírito Santo)
·  É o nosso principal nome desse período.
·  Chegou ao Brasil em 1553.
·  É o fundador da cidade de São Paulo.
· Fez poesia lírica, épica, peças de teatro (é considerado o fundador do teatro no Brasil) e uma gramática em língua tupi.
· Toda sua produção literária foi destinada à catequese dos índios.
Nasceu na ilha de Tenerife, uma das ilhas Canárias dominadas pela Espanha no final do século XV, a 19 de março de 1534, dia de São José, motivo de seu nome. Filho de próspera família, tendo por pais Juan de Anchieta e Mência de Clavijo y Llarena, teve a oportunidade de estudar desde a mais tenra idade, provavelmente com os dominicanos. Aos quatorze anos iniciou seus estudos em Coimbra, no renomado Colégio de Artes, orgulho do rei Dom João III.
Lá recebeu uma educação renascentista, principalmente filológica e literária.
Com 17 anos de idade ingressou na Companhia de Jesus, ordem fundada por Inácio de Loyola em 1539 e aprovada por meio da bula Regimini Militantis Eclesiae em 1540, pelo papa Paulo III. No ano de 1553, no final de seu noviciado, fez seus primeiros votos como jesuíta. Assim, acabavam seus temores de não poder permanecer na Ordem por ter sido acometido de uma doença ósteo-articular logo após seu ingresso.
Aconselhado pelos médicos de que os ares do Novo Mundo seriam benéficos para sua recuperação, foi enviado em missão para o domínio português na América.
Veio ao Brasil com a segunda leva de jesuítas, junto com a esquadra de Duarte da Costa, segundo governador-geral do Brasil. Em 1554 participou da fundação do colégio da vila de São Paulo de Piratininga, núcleo da futura cidade que receberia o nome de São Paulo, onde também foi professor. Exerceu o cargo de provincial entre os anos de 1577 a 1587.
Escreveu cartas, sermões, poesias, a gramática da língua mais falada na costa brasileira (o tupi) e peças de teatro, tendo sido o representante do Teatro Jesuítico no Brasil.
Sua obra pode ser considerada como a primeira manifestação literária em terras brasileiras. Contribuiu, dessa maneira, para a formação do que viria a ser a cultura brasileira.
De toda a sua obra, destacam-se a Gramática da língua mais falada na costa do Brasil, De Gestis Mendi de Saa, Poema da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, Teatro de Anchieta e Cartas de Anchieta.
A coleção de Obras Completas do Pe. José de Anchieta é dividida sob três temáticas: poesia, prosa e obras sobre Anchieta; a publicação prevê um total de 17 volumes.
José de Anchieta faleceu na cidade de Reritiba (atual Anchieta) na Capitania do Espírito Santo, em 9 de junho de 1597. Graças ao seu papel ativo no primeiro século de colonização do Brasil, José de Anchieta ganhou vários títulos, tais como: “apóstolo do Novo Mundo”, “fundador da cidade de São Paulo”, “curador de almas e corpos”, “carismático”, “santo”, entre outros.
Das suas contribuições culturais para o nosso país, podemos citar as poesias em verso medieval (destaque: Poema à Virgem), os que misturavam características religiosas e indigenas, a primeira gramática do tupi-guarani (a cartilha dos nativos), além da fundação de um colégio.
De acordo com o crítico Eduardo Portella, o trabalho de José de Anchieta deve ser entendido como uma manifestação da cultura medieval no Brasil, por conta de sua poesia simples e didática, da métrica e do ritmo por ele usados.
Além de Auto da Pregação Universal, Anchieta é considerado como sendo o autor de Na Festa de São Lourenço, também chamada de Mistério de Jesus e de outros autos.
                            Fonte: www.sampa.art.br

Textos: 

A Santa Inês
                         José de Anchieta
Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Cordeirinha santa
de Jesus querida
vossa santa vinda
o diabo espanta.

Por isso vos canta,
com prazer, o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Nossa culpa escura
fugirá depressa
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura

Vossa formosura
honra é do povo
porque vossa vinda
lhe dá nume novo.

Poema à Virgem
Compaixão da Virgem na morte do filho
Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas,
e em pesado dormir, tão fundo assim ressonas?
Não te move a aflição dessa mãe toda em pranto,
que a morte tão cruel do filho chora tanto?
O seio que de dor amargado esmorece,
ao ver, ali presente, as chagas que padece?
Onde a vista pousar, tudo o que é de Jesus,
ocorre ao teu olhar vertendo sangue a flux.
Olha como, prostrado ante a face do Pai,
todo o sangue em suor do corpo se lhe esvai.
Olha como a ladrão essas bárbaras hordas
pisam-no e lhe retêm o colo e mãos com cordas.
Olha, perante Anás, como duro soldado
o esbofeteia mau, com punho bem cerrado.
Vê como, ante Caifás, em humildes meneios,
agüenta opróbrios mil, punhos, escarros feios.
Não afasta seu rosto ao que o bate, e se abeira
do que duro lhe arranca a barba e cabeleira.
Olha com que azorrague o carrasco sombrio
retalha do Senhor a meiga carne a frio.
Olha como lhe rasga a cerviz rijo espinho,
e o sangue puro risca a face toda arminho.
Pois não vês que seu corpo, incivilmente leso,
mal susterá ao ombro o desumano peso?
Vê como a dextra má finca em lenho de escravo
as inocentes mãos com aguçado cravo.
Olha como na cruz finca a mão do algoz cego
os inocentes pés com aguçado prego.
Ei-lo, rasgado jaz nesse tronco inimigo,
e c'o sangue a escorrer paga teu furto antigo!
(...)

A Santa Inês – José de Anchieta

- São poemas de conteúdo bíblico, dedicados à Santa Inês -  mártir da Igreja Católica no século IV, decapitada por se negar a perder a virgindade.
- Os versos são redondilhos e recebe influências populares medievais.

Carta ao Padre Geral – 01.06.1560 – José de Anchieta

- A importância da carta reside nos detalhes sobre a o trabalho intenso de evangelização feito pelos Jesuítas.
- Indica que os padres também cuidavam do tratamento de doenças dos índios.
-  Percebe-se que muitos nativos não aceitavam as idéias cristãs.
-  Registra a prática do aborto e difusão do câncer uterino entre as índias.

terça-feira, 14 de maio de 2013

¨¨¨Landisvalth Blog: O exemplo de Foz do Iguaçu: a cidade que abraçou a...

¨¨¨Landisvalth Blog: O exemplo de Foz do Iguaçu: a cidade que abraçou a...:       A revista ISTOÉ, edição 2368, do dia 3 deste mês, mostrou como a união entre professores, pais, alunos e autoridades de Foz do Iguaçu...

domingo, 5 de maio de 2013

Canudos não se rendeu!


Com a estiagem, cidade de Canudos volta a aparecer após 17 anos. Seca fez o Açude do Cocorobó, construído em 1968, baixar o seu nível em nada menos que 11 metros, fazendo aparecer ruínas de Canudos.
Alexandre Lyrio – do CORREIO

As ruínas da 3ª igreja de Canudos


 - Que desgraça de tanto tiro... Simbora daqui, pelo amor de Deus!  
São as balas das espingardas bate-bucha zunindo nos ouvidos da volante. Na terceira investida do Exército sobre o Arraial de Canudos, o coronel Moreira César é atingido mortalmente.
Apesar de armados com fuzis, os 1,2 mil soldados do governo sucumbem à fé e à fúria da jagunçada e, ante a perda do seu comandante, resolvem debandar como diabos fugindo da cruz. É nesse momento que o Coronel Tamarindo, que assume a tropa, profere a frase famosa. 
- É tempo de murici... Cada um cuida de si...
Mais de cem anos depois, detalhes daquela fuga, um dos capítulos mais marcantes da Guerra de Canudos - entre novembro 1896 e outubro de 1897 - são relatados com entusiasmo pelo poeta e guia turístico José Américo Amorim, 47 anos. Desta vez, o poeta está especialmente empolgado. Não é todo dia que se tem a oportunidade de contar essa história estando com os dois pés sobre o território da Canudos Velha, a pouco mais de 400 quilômetros de Salvador. Estamos no local exato onde, após uma quarta investida, o povoado construído por Antônio Conselheiro foi dizimado.
O poeta e todos que nas últimas semanas transformaram aquelas ruínas em local turístico devem essa experiência rara à seca. Foi ela que fez o Açude do Cocorobó, construído em 1968, baixar o seu nível em nada menos que 11 metros. Dos 245 milhões de metros cúbicos d’água (245 bilhões de litros), restam apenas 20%. A perda fez aparecer ruínas de duas Canudos: a Canudos conselheirista, que viveu as batalhas, e a Canudos pós-conselheirista, ambas inundadas pelo açude.
A última vez que algo parecido aconteceu tem pelo menos 17 anos, na seca entre 1996 e 1999. Com a nova seca, emergiram da primeira Canudos a base do cruzeiro defronte às duas igrejas do arraial, parte do cemitério onde estariam os restos mortais de alguns dos combatentes e a base de um canhão, uma matadeira de fabricação alemã. Da segunda Canudos, reconstruída no mesmo local, aparece hoje boa parte das ruínas de uma terceira igreja, edificada após a morte de Conselheiro, e uma ponte que dava acesso à cidade.
“Apesar dos vestígios mais evidentes serem da Canudos pós-conselheirista, a segunda Canudos foi construída na mesma área. Estamos pisando no centro da guerra”, diz José Américo. Do lugar, na margem esquerda do rio Vaza-barris, é possível enxergar o Alto da Favela, na margem oposta. Ali ficava a campanha mais próxima que o Exército conseguiu estabelecer antes da matança final, a 300 metros do Belo Monte, também se chamava o arraial.
Normalmente, os atuais visitantes avistam a área inundada em que ocorreu a guerra a partir daquele ponto. O mesmo em que Euclides da Cunha se estabeleceu para escrever Os Sertões. “Mas a seca traz a possibilidade da visão a partir de quem estava em Belo Monte e enxergava o acampamento dos soldados. Isso é raro”, observa o poeta.
Xique-xique
As lembranças de quando teve de deixar Canudos Velha seguem firmes na mente e no coração de Maria Antônia dos Santos, 73 anos. Vivia feliz com os pais e irmãos quando souberam da construção do açude. A água da barragem subiu da noite para o dia. Muitos tentaram resistir, inclusive sua família. “Saímos com água no pescoço. Por um lado foi uma tristeza deixar tudo para trás. Por outro, chegou água farta”, conta.
Ao retornar ao local, as ruínas ainda lhe emocionam. Afinal de contas, foi naquela igreja pós-conselheirista, a terceira construída no lugar, que se casou há mais de 60 anos. Dona Maria explica que as construções em forma de arco são da entrada  da igreja e do altar. “E ali a gente se confessava com o padre”, indica.
Fato é que a seca cria um curioso turismo que só ocorre de tempos em tempos. “É a chance de ver de perto o cenário da guerra. É história, né?”, diz a estudante Janaína Coelho, 23 anos, que veio de Petrolina, em Pernambuco. Mas, além desse turismo histórico, há o turismo afetivo. “Inclusive filhos de Canudos que ganharam o mundo vêm de longe para conhecer parte de suas origens”, diz o historiador Manoel Neto, coordenador do Centro de Estudos Euclides da Cunha, na Universidade do Estado da Bahia (Uneb).
Ainda que a seca continue, há pouco a se revelar da primeira e segunda Canudos além do que já existe. Apenas as bases das duas igrejas conselheiristas, feitas de pedra, ainda resistem abaixo do lodo do açude. Dos casebres do arraial, não existe mais nada. Até porque as construções eram de pau a pique.
 Se voltar a chover e, como diz o povo canudense, o açude novamente sangrar (transbordar), tudo vai desaparecer. Se bem que, essa cidade tem como essência a resistência. Destruída pelo fogo da guerra, ressurgiu para ser apagada pela água. Reapareceu pela terceira vez em outro local e hoje segue viva. No presente e no passado. E a cada aparição das suas ruínas, aqueles que têm o mínimo de imaginação, talvez consigam ouvir a munição das espingardas bate-bucha zunindo nos ouvidos.
Arqueólogos realizaram estudos na década de 90
Ao fazer ressurgir o Arraial de Canudos, a seca que atinge o Sertão da Bahia mostra que não é só sofrimento. A aparição das ruínas possibilita, entre outras coisas, o estudo do local.
Na última seca, na década de 90, uma equipe de arqueólogos trabalhou nas ruínas durante 20 dias. Era preciso aproveitar a chance antes que voltasse a chover. Na época, foram desencavadas ossadas, cartuchos de balas, estilhaços de granada. Foram retiradas a lama e o entulho que cobria alguns monumentos. “É a Teotihuacan sertaneja”, disse à revista Veja na época, referindo-se ao sítio encontrado na Cidade do México, o arqueólogo Paulo Zanettini.
Na década de 80, já havia sido criado o Parque Estadual de Canudos. Hoje, no parque, há preservados vestígios da guerra não submersos, como quatro trincheiras conselheiristas que tentaram barrar a aproximação das volantes.
‘Inundação de Canudos foi um equívoco’, dizem historiadores
O ressurgimento das ruínas da velha Canudos serve para demonstrar o equívoco que foi a construção do Açude do Cocorobó, que inundou a área onde aconteceu a guerra. Pelo menos é essa a visão de historiadores que estudam o fato. Para Manoel Neto, coordenador do Centro de Estudos Euclides da Cunha da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), a submersão da cidade foi um erro tanto histórico quanto econômico.
Histórico porque coloca sob as águas vestígios da memória de um episódio importante. “Toda vez que essas ruínas ressurgem é uma oportunidade de rediscutirmos como a memória popular é tratada no Brasil. Jamais inundariam aquele lugar se ali existisse um antigo palácio ou um monumento militar”, critica Manoel Neto.
Mas, acredita, o açude também é um erro econômico. “A renda que o turismo poderia trazer para a região seria maior que os benefícios do açude, que, aliás, é subutilizado”. Eldon Canário, que foi morador da velha Canudos e escreveu cinco livros sobre o tema, concorda. “A seca continua. O problema da água ainda tá lá. Enquanto isso uma parte da história segue apagada. Para nós que nascemos lá, fica a frustração”, diz Canário. “Esse açude foi mais uma forma de encobertar a vergonha nacional que foi a guerra”, emenda o pesquisador e espécie de guia turístico oficial da cidade, José Américo Amorim. Ele diz que a seca entre 1996 e 1999, mais intensa, revelou mais do que a atual. “Por enquanto. Porque a tendência até novembro é piorar”. Naquela época, além da base do cruzeiro, do cemitério, da base do canhão e da igreja pós-conselheirista, emergiram ruínas das duas primeiras igrejas, ponto de maior resistência do conflito.
Na frente da Igreja de Santo Antônio, também conhecida como Igreja Velha, edificou-se um cruzeiro – um pedestal com uma cruz. No pedestal havia uma placa onde se lia: “Edificada em 1893. A.M.M.C”. O A.M.M.C são as iniciais de Antônio Mendes Maciel Conselheiro. A placa e a cruz de madeira foram retiradas do local às vésperas da inundação e hoje estão guardadas no Memorial Antônio Conselheiro, na Canudos de hoje, a 10 quilômetros de distância da Canudos Velha, para onde foi transferida a população.

sábado, 4 de maio de 2013

Karnak: A banda eterna


A banda ultrapassou duas décadas de difusão rítmica e parece estar eternamente jovem para jamais desaparecer.
Karnak decretou o fim de sua morte!
A banda Karnak completou 21 anos de existência. Ela surgiu em 1992, em São Paulo, com a liderança de André Abujamra. Entre vinda e quase idas, Karnak tonou-se a banda da difusão. Do folclore ao rock, eles usaram, e ainda usam, e abusam das expressões artísticas. Assisti a um show completo da banda na SESC TV e não consegui sair da cadeira para beber água, embora estivesse com muita sede. Ao final fiquei revoltado. Estas coisas nunca aparecem por aqui pelas bandas do nosso Nordeste com certa frequência. Tive a impressão de estar 20 anos atrasado em versatilidade musical. A variedade de ritmos e estilos da banda ao longo dos anos somaram-se ao grande número de pessoas no palco, algo bastante incomum. O recorde foi com 15 homens, dois atores, uma bailarina e um cachorro — nada estranho para eles. André Abujamra conta que Karnak durou oficialmente 10 anos, e após esse período uma tentativa de parar foi frustrada. “Quando chegamos em 10 anos eu disse: acabou, não aguento mais. Os fãs ficaram muito bravos e falam que tinha que ter o Karnak”.  No entanto, a banda decidiu fazer um show por ano, que seria o de aniversário, mas foram tantas apresentações que não conseguiram acabar com o Karnak. Depois disso: “fizemos até um manifesto para que a banda se tornasse eterna. Um dia nós vamos morrer, mas o meu filho vai tocar, os filhos dos outros integrantes também, e a banda vai continuar”. Ainda bem! Karnak vai ser eterna. Desfrute então duas letras de música da banda e um vídeo do You Tube.


Alma Não Tem Cor
                    Karnak

Alma não tem cor
Porque eu sou branco
Alma não tem cor
Porque eu sou negro
Branquinho, neguinho
Branco, negon
Alma não tem cor
Porque eu sou branco
Alma não tem cor
Porque eu sou jorge mautner
Percebam que a alma não tem cor
Ela é colorida
Ela é multicolor
Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom
Cê conhece tudo, cê conhece o reggae
Cê conhece tudo né, cê só não se conhece

Oxalá meu Pai
                      Karnak

Oxalá meu Pai tenha pena de nós, tenha dó
Se a volta do mundo é grande Seus poder é bem maior
Oh, meu São Sebastião, fostes preso e amarrado
Nos livrai dos inimigo que nos traz atropelado
Oh! Deus do céu
Oh! Grande Deus
Reforçai estes trabalhos para sempre glorioso
Tem cinco filho, quatro neto, um cunhado , uma mulher
Um cachorro desdentado uma galinha garninzé
E essa galinha foi comida por Emengarda Joaquina
Na cantina da colina da cidade de Igapó
Severino ficou puto e contratou um pistoleiro
Prá matar Emengarda que pulou lá do puleiro,
Prá roubar sua galinha que lhe dava muita sorte
E ele quer a sua morte, da Joaquina que roubou
Emengarda foi embora da cidade de Igapó
E levou tudo o que podia só não levou sua vó
Tinha medo de Jacó um famoso pistoleiro
Que queria lhe matar por muito pouco dinheiro
Emengarda morreu foi Jacó quem matou
Severino não chora, Severino chorou

Com informações complementares do portal Metrópolis.

domingo, 14 de abril de 2013

Uma Clarice acessível


                          Clarice Cardoso – de CARTA NA ESCOLA
Para pesquisadora Olga de Sá, popularidade na internet pode ajudar a trazer
jovem leitor para perto da autora de A Hora da Estrela.
Foto: Claudia Andujar
Sobre o amor ou a amizade. Sobre perdas, animais ou o luto. Todos os dias, em páginas na internet e em redes sociais como o Facebook, incontáveis frases sobre esses e diversos outros temas são compartilhadas e atribuídas a Clarice Lispector. Muitas fora de contexto, outras apócrifas, é verdade, mas que ainda assim podem se converter numa oportunidade para atrair para sua obra leitores abertos a isso, afirma Olga de Sá, reconhecida pesquisadora da obra da autora, diretora-geral das Faculdades Integradas Teresa D’Ávila e do Instituto Santa Teresa, de Lorena, São Paulo, e professora-assistente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
“Só não podemos ficar nisso. É preciso levar o leitor ao texto, porque é lá que vai encontrar a verdadeira Clarice, a escritora que mudou a literatura brasileira de alguma forma, assim como de outra forma Guimarães Rosa também mudou. O importante é não ficar na redução, mas levar ao texto completo”, afirma.
Na esteira da fama virtual, a Editora Rocco vem nos últimos anos republicando e lançando volumes temáticos, caso de De Bichos e Pessoas – Crônicas para jovens, De Escrita e Vida – Crônicas para jovens e De Amor e Amizade – Crônicas para jovens. Presente há anos em listas de leituras obrigatórias em vestibulares, Clarice Lispector torna-se, assim, ainda mais presente na vida do jovem leitor.
“Os livros de Clarice abrem um universo de diálogo com os jovens e com qualquer pessoa, que é muito amplo e significativo. O professor que conseguir tocar essa tecla, de ser capaz de fazer o texto falar, terá resultados muito gratificantes.”
Carta na Escola: Clarice tem ganhado muita fama na internet, em redes sociais, com trechos retirados de seus textos e frases que, muitas vezes, nem mesmo são dela. Esses são leitores de Clarice em potencial?
Olga de Sá: Alguns jovens gostam de frases de efeito retiradas do contexto. Essas pessoas são movidas por esse tipo de leitura, mas, certamente, quando você tira uma frase do contexto, há de ter cuidado, porque, na verdade, o contexto dá sentido à frase. Eu tenho lido algumas coisas dessas e acho que, às vezes, até se altera o sentido do que ela estava dizendo. Existem sim leitores que gostam disso, contudo, é preciso cuidado, porque, na verdade, quando você lê uma obra, pode levantar muitas significações, o que é próprio da obra. Porém, há significações coerentes e incoerentes. Não é tudo que se pode ler, tem de ter certa coerência de leitura e isso, às vezes, escapa a esse tipo de leitor que faz a leitura subjetiva, que lhe agrada.
CE: Isso de alguma forma reduz o peso da obra da autora?
OS: Ela se defende. Não adianta fazer essa redução, porque você volta ao texto e vê que ele não condiz com o que foi dito. Na verdade, autores menores podem ser mais passíveis de certa redução, mas Clarice não se deixa reduzir.
CE: Um educador, de olho nessa tendência, pode aproveitar essa fama virtual para levar o jovem para a obra?
OS: Tudo é válido, desde que você vá até a obra. Eu mesma tenho vários cartões que mando com frases de Clarice, elas são lindas. Por exemplo: “Todas as manhãs, quando me levanto, vou tirar a poeira da palavra amor”. Então você pode, a partir daí, levar o leitor para a obra de Clarice. O que não se pode é ficar nisso. É preciso levar o leitor à leitura do texto, porque é lá que ele vai encontrar a verdadeira Clarice, vai encontrar aquela escritora que mudou a literatura brasileira de alguma forma, assim como de outra forma Guimarães Rosa também mudou. O importante é não ficar na redução, mas levar ao texto completo.
CE: Que características na obra de Clarice podem ser bem trabalhadas com esse jovem leitor?
OS: Quando o leitor já tem certo conhecimento de literatura, pode-se ir pelas figuras, como os paradoxos, as antíteses, as repetições, que chegam e causam surpresa. Pode ser também pela leitura de contos que ficam realmente em aberto, até contos infantis. Por exemplo, O Mistério do Coelho Pensante fica em aberto. Já trabalhei ele com crianças e elas dão um final para o conto. Alguns procuram um final feliz, mas há aqueles como uma menina que me disse: “O coelhinho fugia da gaiola pelo pensamento”. A criança foi na direção daquilo que a própria Clarice poderia querer dizer. Acho que o importante é apelar para esses tipos de abordagem, de não fechar o texto… Porque o adulto é muito apressadinho. Ele já quer saber o que foi, qual a interpretação, o que o autor quis dizer e, na verdade, a gente não sabe, o texto é aberto.
CE: Que obras a senhora indicaria para um professor que está começando a trabalhar Clarice Lispector em turma, pensando na formação de leitores e não apenas em exames vestibulares?
OS: Acho que os contos são maravilhosos para isso. Não se deve começar nunca pela A Maçã no Escuro, que é uma floresta de signos de difícil abordagem. Começar ou pelo Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres ou pelos contos, como eu já disse. Depois de certo tempo, A Paixão Segundo GH, mas esse apenas para certo tipo de leitor. A própria Clarice disse que encontrou um professor no Rio de Janeiro que deixou o livro de lado, não gostou, e que uma mocinha, ainda estudante, fez da obra seu livro de cabeceira. Então você vê que não é questão de idade, mas de afinidade. Perto do Coração Selvagem não é um livro difícil hoje em dia. Então é isso, deve-se começar ou pelos contos, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres e não começar pela A Maçã no Escuro, O Lustre, A Cidade Sitiada… A Hora da Estrela também é ótimo para começar.
CE: Uma separação por temas, como a que vem sendo feita pela Editora Rocco, facilita o trabalho de um formador de leitores dentro da sala de aula?
OS: Sim e não. Na verdade, com isso você começa a dar um sentido à obra, e a obra é mais rica e apela mais ao leitor quando é aberta, com várias significações. Então vai depender muito do tipo de professor e de alunado. Pode, sim, ter uma faixa que seja atingida por esse tipo de leitura, mas a crítica realmente é muito mais aberta do que isso e a leitura também. Assim, um leitor mais inteligente, mais apurado, provavelmente preferirá outro tipo de abordagem. Essa história também de fazer histórias em cima de contos de Clarice é um tipo de leitura que pode agradar a muitos que gostam de histórias com começo, meio e fim, mas certamente não foi avisada dos contos de Clarice, pois ela sempre deixou tudo muito aberto. Então depende do leitor, do professor, da escola e do tipo de cultura.
CE: Em questões temáticas, o que pode ser trabalhado na obra da Clarice?
OS: A morte, o significado do ser, a possibilidade da linguagem de ver o ser, o silêncio. Tenho dois armários só de obras com críticas de Clarice e você vê muitos livros que abordam esses temas, como o Mal também, por exemplo. São temas infinitos. Depende muito da capacidade do leitor em colher o tema. Por exemplo, em A Hora da Estrela, não há dúvida de que a morte, a gente poderia dizer, é a protagonista. Mas muitos não captam isso, não se interessam. Por isso eu acho que a temática na obra da Clarice varia na medida da percepção do leitor.
CE: A propósito, A Hora da Estrela está há anos em listas de vestibular. É uma boa obra para se colocar como leitura obrigatória? Que tipo de leitura essas provas exigem? A senhora concorda com o que costuma se cobrar nesses exames?
OS: Eu não conheço esse mundo de vestibular, o que conheço pelo contato com os jovens, é que a leitura que é feita é um pouco pobre. Por outro lado, o que você vai perguntar no vestibular? São perguntas que têm de ser objetivas, hoje em dias as redações já se abriram mais, mas, de qualquer maneira, você não tem muito por onde andar no vestibular. E A Hora da Estrela é um livro que pode ter uma leitura linear. Aliás, trabalhei um pouco com a (cineasta) Susana Amaral quando ela estava fazendo o filme (em 1986), e ela me disse que iria fazer um filme que o povo entendesse, portanto, com começo, meio e fim, e que não daria para colocar os aspectos metalinguísticos da obra. Nos filmes que têm narrador, ele começa a contar a história, você esquece que tem um narrador, porque você vê a história, e assim vai até o fim. O narrador, no filme, não resolve nada. A Hora da Estrela presta-se a esse tipo de abordagem porque, se você quiser, como acontece no filme, ele fica linear. Todo aspecto metalinguístico não precisa aparecer. É claro que reduz, mas não há outra maneira de fazer para ser objetivo.
CE: Pensando que você vai trabalhar o livro com um jovem para o vestibular, é possível trabalhar essa metalinguagem em outro momento? Como driblar esse viés para que a leitura seja mais completa?
OS: A gente, como professor, quando passa o filme faz a observação: olha, aqui vocês veem a história linear da Macabea. Porém, lendo o livro, vocês vão ver que através ou por trás dessa história linear existe toda uma reflexão sobre a criação, sobre o tempo na narrativa, sobre a morte. São temas significativos que aparecem na obra inteira e que podem não aparecer num resumo. Acho que a questão é só de abordagem.
CE: É necessária alguma formação especial para o professor trabalhar com Clarice?
OS: Penso que o professor, para qualquer leitura de uma obra significativa da literatura, precisa ter sensibilidade, percepção e didática. A formação hoje está prejudicada e ninguém mais quer ser professor. É preciso ter esse gosto para ser professor, é preciso saber ensinar e dialogar, porque o ensino hoje não é só ficar falando e o aluno escutando, é um diálogo. É preciso tirar deles tudo o que for possível e aí construir. Às vezes, eles fazem encenações muito boas, até mesmo as crianças. Isso faz parte da flexibilidade que o professor precisa ter para ir ao encontro do gosto dos alunos sem deixar que a coisa caia no plano.
CE: As traduções recentes para outras línguas mudam o local que Clarice ocupa na literatura?
OS: Acredito que a tradução significa que a leitura está se ampliando, é um esforço de compreender outras culturas. O português é uma língua difícil de ser encarada. Se Machado de Assis tivesse escrito em inglês, ele seria o maior escritor da época. Ele foi, mas não era reconhecido por não escrever em uma língua palatável, coisa que o português não é. Acho que as traduções revelam a influência do autor, como ele está influindo em outras culturas, são um reflexo da influência do autor e do reconhecimento que ele tem.
CE: Entre todos os autores brasileiros, porque Clarice tem ganhado tanto destaque nessa cultura digital?
OS: Penso que é pela significação da sua obra. Uma autora que trata esses temas, que vai ao fundo do que é o ser, que vai a fundo nos problemas de linguagem, que coloca propriamente toda a sua vida em escrever. Tem um livro dela que fala assim: “Agora vou morrer um pouco”. O que é isso de morrer um pouco? É quando ela parava de escrever. Quando ela interrompia para fazer alguma coisa. Por outro lado, ela também se questionava: “Será que escrevendo eu também não perco a vida?” Então esse tipo de interrogação é universal. Os temas de Clarice são universais e por isso interessam a qualquer homem em qualquer lugar do planeta. Os livros de Clarice abrem um universo de diálogo com os jovens, com os alunos ou com qualquer pessoa, que é muito amplo e significativo. O professor que conseguir tocar essa tecla, de ser capaz de fazer o texto falar, terá resultados muito gratificantes. Agora, é claro que aquele professor que fica muito rígido, não tem abertura, esse não vai colher grandes frutos. Há muita margem, como há com outros escritores como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, que dependem muito da capacidade de diálogo do professor.

domingo, 7 de abril de 2013

O Romantismo e suas marcas

O ambiente de idealismo marcou toda a arte romântica

                                                    Landisvalth Lima

  Dois foram os fatos importantes que marcaram o Romantismo a nível mundial: A Revolução Industrial, na Inglaterra , e a Revolução Francesa. No Brasil , pode-se acrescentar a chegada da família real e as lutas pela independência.
Na segunda metade do século XVIII, surgiu, na Inglaterra, a burguesia industrial. O crescimento dessa classe fez com que surgisse uma outra: o operariado. Nasce, daí, a sociedade de classes.
Na França, a Revolução desencadeada em l789 destruiu o absolutismo, levando a burguesia ao poder. Os ideais revolucionários de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, na verdade, nunca saíram do papel. Eram mais idealização que prática, criando assim uma certa frustração na população .
A Revolução Industrial e a Revolução Francesa provocaram, pois:
- o fim do absolutismo na Europa;
- incentivaram a livre iniciativa, forjando o liberalismo político e o individualismo econômico;
- estimularam o nacionalismo;
- estimularam a geração moderna, urbano-industrial;
- contribuíram para o fim do trabalho artesanal.
No Brasil, os ideais da Revolução Francesa contaminaram nosso estudantes, poetas e pensadores. Entretanto, não se pode dizer que houve uma revolução já que foi o único país da América Latina a não adotar a República após sua independência, preferindo a monarquia.
O Romantismo, aqui, foi , verdadeiramente, nossa primeira escola literária. Cortamos relações de dependência com Portugal e criamos uma literatura independente, nacionalista e lusófoba. Por questões didáticas, l836 é o ano de nascimento do Romantismo no Brasil. A obra inaugural ,  Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, inicia nosso liberalismo literário. No mesmo ano, foi fundada em Paris a revista Niterói, porta-voz das idéias românticas. Quem participa da publicação? Gonçalves Dias, Araújo Porto-Alegre e Pereira da Silva.
 As marcas do Romantismo:
1 - Liberdade de criação - abolição de todos os tipos de formas poéticas preestabelecidas. O escritor estava livre para adotar o melhor padrão possível ao conteúdo da obra.
2 - Sentimentalismo (egocentrismo) - a obra resulta da imaginação, da fantasia, da idealização provocada pelo impulso da não aceitação do real.
3 - Supervalorização do amor - o amor é cultuado como o sentimento dos sentimentos, mas, quase que paralelamente, também é valorizado o sonho, a virgindade, a nostalgia, o saudosismo e a melancolia.
4 - Idealização da mulher, do herói e da paisagem -  é prática romântica adotar heróis grandiosos - históricos , marginais ou trágicos. A mulher é perfeita, exuberante, inatingível e bem distante da realidade. A paisagem não é natural, mas protetora, dócil, exuberante, poderosa e muda de acordo com o estado emocional do poeta.
O trágico e o misterioso marcam os românticos do ultrarromantismo
5 - Mal-do-Século - é uma coletânea de desprazeres: 1 - pessimismo em relação à vida, à sociedade e a si mesmo - 2 - prazer em sentir-se melancólico e sofrido - 3 - busca do isolamento e da solidão.
6 - Evasão - desiludido com a vida, o romântico pratica o escapismo, indo em busca de um tempo, de um espaço e de uma natureza  jamais perceptíveis no mundo real.
7 - Nacionalismo - a literatura romântica cantava o homem voltado para sua pátria. No Brasil, o nacionalismo  foi representado na figura do índio, do herói regional e no historicismo.
8 - Medievalismo - na Europa era representado na figura do cavaleiro medieval. No Brasil não tivemos tal figura, mas o nosso índio tem comportamento idêntico ao cavaleiro de As Cruzadas.
9 - Religiosidade - basicamente com a valorização do cristianismo e do misticismo.
10- Supervalorização da infância - para o romântico, criança é sinônimo de pureza, inocência, amor.
11- Supervalorização do Homem em Estado Selvagem - é a ideia rousseana de que o homem, desprovido dos vícios da civilização citadina, em seu estado natural, é um ser bom.
l2- Historicismo - indo em busca dos fatos históricos, num processo de idealização, os românticos tentavam glorificar Os heróis de um  dado acontecimento. Era uma forma de nacionalismo ufanista.
l3- Supervalorização do Herói -  é o processo de endeusamento do herói, mesmo aquele marginalizado.
14- Aceitação do Trágico - quanto mais lágrimas e sofrimento causar, melhor.
15- Aceitação do Mistério - é a exploração do inusitado, do místico.
l6- Destaque para a “cor local” - valorização de tudo o que é brasileiro. Está implícito no nacionalismo.
l7- Indianismo - afirmação do índio como herói nacional, por ser puro, nobre e nunca ter sido cooptado por outras culturas.
l8- Regionalismo - é a valorização do homem do interior ou de regiões fora do perímetro cultural urbano onde se desenvolve mais quantitativamente o processo artístico. É também uma forma de nacionalismo.
19- Lusofobia - é o desejo de libertar-se cultural e economicamente de Portugal. Exclusividade brasileira.

A miséria familiar


Livro da escritora norte-americana Mary Gabriel revela o sofrimento da esposa e filhas de Karl Marx
Rosane Pavam – de CARTA CAPITAL
Capa do livro de Mary Gabriel
Sentado à única mesa de seu apartamento na Dean Street, em Londres, sobre a qual havia papéis, poeira e toda sorte de utensílios, Karl Marx pôs-se a escrever para mudar a consciência do mundo. Mas, enquanto trabalhava, ele nunca estava só. Um dia seus filhos criaram uma brincadeira na qual o cavalo seria Marx. Atrelado a uma fila de cadeiras de pés quebrados, o pai deveria obedecer a um chicote imaginário acionado pelas crianças atrás dele. A diligência ora aceleraria, ora interromperia o curso segundo o desejo de seus cocheiros nutridos a pães e batatas. Enquanto as ideias para o livro em torno do golpe de Luís Napoleão, O 18 de Brumário de -Luís Bonaparte, ferviam na cabeça de Marx, ele obedecia ao ruidoso comando infantil sem perder a ternura. Pelo contrário, convencera-se de que seria possível perdoar à cristandade muita coisa, porque ela nos ensinara a adoração da criança. Os filhos, ele dizia, é que deveriam ensinar os pais.
Talvez por isso, naquele mesmo ano, ele que tinha por hábito distribuir as poucas moedas do bolso aos meninos de rua no Natal, tenha se sentido uma irremediável vítima da orfandade. Franzisca, que estivera entre aqueles delicados cocheiros, sofrera um grave ataque de bronquite e morrera logo após o aniversário de 1 ano, como era de uso entre os 15% das crianças inglesas de então. Estatísticas, segundo Marx, contribuíam para situar a exploração capitalista e compreender o pensamento de uma sociedade a partir de sua estrutura econômica, mas não seriam capazes de lhe fazer aceitar a perda. A família não tinha dinheiro para comprar o caixão de Franzisca.
Marx, Engels e suas esposas.
A esposa Jenny colocou o corpo da menina no quarto dos fundos do apartamento e deslocou todas as camas para a frente, onde a família dormiria até que conseguisse os recursos necessários. Esses não vieram do amigo de toda a vida Friedrich Engels, provedor de sua subsistência, outro pai e outra mãe para seus filhos, porque até o General, como eles o chamavam, não tinha um tostão em 1852. Um exilado francês deu 2 libras para que eles comprassem um caixão, então postado ao lado daquele do irmão de Franzisca, -Fawksy, no cemitério a poucos quarteirões de casa. Contudo, por seus dois meninos, e até por um de seus bebês, morto com 1 mês de idade, eles não chorariam tanto como o fariam por Musch. Aos 8 anos, o rosto, a inteligência e o humor do pai, o menino evitara mostrar os braços finos a Jenny durante sua agonia final. Ele não suportaria vê-la sofrer, e foi Marx quem esteve à sua cabeceira até o fim.
Um dos maiores pensadores do século XIX nada seria sem sua família, diz-nos a pesquisadora dessas histórias, a norte-americana Mary Gabriel, em Amor & Capital – A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução (Zahar, 968 -págs., R$ 89,90 o livro impresso, R$ 49,90 o e-book). Escrito com clareza e acuidade informativa, munido da pena da humanista e do -requinte da literatura realista, o livro também inova ao centrar a ação em uma intimidade feminina sem a qual, para Marx, a vida seria impossível. “Inicialmente considerei fazer uma biografia de Jenny”, conta Gabriel em entrevista a -CartaCapital, “mas depois que li sobre -suas filhas pensei que seria mais enriquecedor se eu me -ocupasse de todas as mulheres de Marx. Essa -história, porém, deveria ser centrada no homem da vida delas, o que ele de fato foi, para o bem ou para o mal”.
Como fontes para seu trabalho, entre as centenas de estudos e biografias envolvendo um pensador que parece ter tido a obra esquadrinhada linha a linha mesmo antes de sua morte, há 130 anos, haveria as bem escritas cartas de Jenny e suas memórias inconclusas. “Minha grande frustração foi não ter podido encontrar o manuscrito original de sua autobiografia”, conta a pesquisadora, por duas décadas editora da agência de notícias Reuters em Washington e Londres. “A versão publicada tem elipses em lugares-chave nos quais a informação parece ter sido omitida.” A supressão que ela mais lamenta envolve o nascimento do filho da babá Helene Demuth, batizado Freddy em homenagem a seu alegado pai, Engels. Mas o pai verdadeiro era Marx, revelou o próprio Engels a uma incrédula Eleanor. Emudecido em razão de doença, o General, inquirido por ela sobre quem seria o pai de Freddy, escreveu-lhe o nome do amigo sobre uma lousa, com giz. Mas, do rumoroso fato, o que Jenny teria sabido?
A escritora norte-americana Mary Gabriel. 
Foto: Mike Habermann, IISG
“Inesquecível parceira amada”, dizia Marx sobre a aristocrata, bela e aguerrida revolucionária cujo irmão, ministro do governo prussiano, Jenny tratava com carinhosa gratidão. Embora seguidamente Marx precisasse sair pela porta dos fundos de seu lar em dívidas, deslocado a Bruxelas, à Trier natal, a Paris ou à Holanda em busca de saldar dívidas, reunir-se com os companheiros ou fugir dos perseguidores políticos, viver sem Jenny lhe pesava a um ponto insuportável. “O meu amor por você, assim que você se afastou de mim, mostrou sua verdadeira face, um gigante, e nele todo o vigor da minha mente e todo o ardor do meu coração estão comprimidos”, escreveu-lhe Marx, a quem os íntimos chamavam Mohr.
Para Jenny, restavam a paciência e o envolvimento ao revisar pela noite as provas dos textos do marido. Ela recebia pobres como reis em sua casa sempre aberta, mas julgava impossível viver o cotidiano sem o modelo familiar conhecido. Embora seus ideais tinissem de novos, agia à moda antiga, submissa a um homem a quem reputava genialidade. E às três filhas que lhe restaram, Jennychen, Laura e Eleanor, insinuaria que idêntico fervor lhes seria inescapável.
Jennychen almejava uma vida como atriz, enquanto se dedicava aos múltiplos talentos como escritora, ensaísta e tradutora. Eleanor ardia pela militância e pelos palcos e Laura não parecia empolgada ao se casar com o revolucionário francês Paul Lafargue, ao lado do qual foi encontrada morta, ele também envenenado em aparente suicídio. Para elas Marx imaginara uma vida em que as finanças estariam estáveis por conta do casamento. Lafargue, em especial, fora aceito na família não pela militância marxista (“Se existe uma coisa certa é o fato de que eu não sou marxista”, assegurou Marx ao genro), antes por ser um médico de solidez familiar. Mas o autor de O Direito à Preguiça, reverenciado anos depois pelo líder russo Lenin, revelou-se errático como os maridos das outras irmãs, todos franceses, indiferentes à sorte de suas esposas.
“Marx era um homem tipicamente do século XIX, no sentido de que não reconhecia a situação das mulheres”, acredita Mary Gabriel. “Ele nem mesmo conseguia ver que condenava as filhas a vidas miseráveis ao não encorajá-las a dedicar seus maravilhosos talentos e mentes a uma existência distante do casamento. Eis um dos maiores enganos de Marx. Creio que ele foi diretamente responsável pelo fim trágico das filhas.” Antes de morrer, e logo depois de perder a esposa, ele viu Jennychen sucumbir a uma infecção generalizada, cercada por quatro filhos pequenos, vítima da solidão, encargos físicos e dívidas acumuladas pelo marido. Eleanor, enganada pelo insensível companheiro de jornada, suicidou-se após a morte de Marx.
Ao jornalista americano John Swinton, que lhe perguntou sobre o que ele imaginava constituir “a lei definitiva do ser”, o pensador respondera: “A luta!” No seu caso, ela fora também íntima e mental. Marx demorava para concluir seus livros, talvez porque julgasse constante a necessidade de atualizá-los e considerasse urgente lançar-se à ação. Mal conseguira concluir o Manifesto Comunista para a revolução de 1848. O Capital, “épico sobre conquistadores e conquistas”, como o define Mary Gabriel, levou quase duas décadas para ficar pronto, enquanto o General Engels precisou estar a postos para concluí-lo a partir das anotações hieroglíficas do companheiro morto. “Marx não conseguia parar de pesquisar”, diz Gabriel, cujo próprio trabalho durou dez anos para ser terminado. A autora estará na Bienal do Livro do Rio em agosto. Nesse momento, de sua residência italiana na costa adriática, ela escreve sobre cinco pintoras expressionistas abstratas americanas dos anos 1940 e 1950.
“Marx era um perfeccionista, e sua vida e de sua família foram duramente atingidas por isso”, afirma. “Ele jamais viveu de seus escritos, a não ser no período em que trabalhou como jornalista para um periódico nova-iorquino. Apesar de necessitar desesperadamente dele, o dinheiro seria a menor de suas preocupações.” Por seu lado, Jenny viveu com o que lhe coube. Mas, depois da morte do quarto filho, esmoreceu. “Não foi fácil perder a coragem”, escreveu em uma de suas belas cartas. “Tudo o que fazemos pelos outros é tirado de nossas crianças.” O marido, contudo, teve a oportunidade de lhe mostrar que não trabalhara em vão. Em 30 de novembro de 1881, uma década e meia depois de a primeira edição de O Capital ter sido publicada sem repercussão crítica, ele leu a Jenny o que escrevera Belfort Bax em um periódico: “O livro encarna o funcionamento de uma doutrina em economia comparável, por seu caráter revolucionário e importância abrangente, ao sistema de Copérnico em astronomia ou à lei da gravitação e da mecânica”. Marx viu os olhos dela nesse momento “maiores, mais adoráveis e mais luminosos do que nunca”. Jenny, que sofria de câncer, morreu dois dias depois, aos 67 anos.