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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Entrevista: Desmatamento não é desenvolvimento


Morello: desmatamento não é progresso
Desde o século 17, países como Alemanha, França e Reino Unido passaram a estimular a silvicultura e adotar leis para regular o manejo sustentável das suas florestas. Veja entrevista dada por Thiago Fonseca Morello à revista PLANETA, em Outubro do ano passado.
Por Renata Valério de Mesquita – da revista PLANETA
A velha história de que os países desenvolvidos chegaram aonde estão à custa da perda das suas florestas está incorporada há séculos no imaginário coletivo brasileiro. Mas o economista Thiago Fonseca Morello, especializado em aproveitamento econômico florestal, aponta que já passou da hora de se rever essa ideia. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Morello desenvolve atualmente uma tese de doutorado sobre a agricultura de corte e queima na Amazônia brasileira, no Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (IPE-USP). E já defendeu um mestrado sobre o ciclo do carvão vegetal em Minas Gerais.
Como subproduto de suas pesquisas, recentemente publicou o artigo “Desmatamento e Desenvolvimento: O Que o Brasil Tem a Aprender com a História dos Países Desenvolvidos”, demonstrando que a autonomia econômica alcançada por muitos dos países ricos se deu justamente porque souberam entender a importância da conservação da sua cobertura vegetal – mesmo sem contar com tamanha biodiversidade como a brasileira. Eles investiram no reflorestamento e na exploração racional da mata nativa. Morello mostra que o caminho para o sonhado Primeiro Mundo se assemelha mais a uma trilha do que a uma rodovia sobre a floresta.
PLANETA - Por que a opinião pública no Brasil associa desmatamento a progresso?
MORELLO - Esse discurso é uma abordagem distorcida, criada pela classe política. Vem desde o início do país, quando os brasileiros tomaram as rédeas da administração pública. A preocupação era industrializar o Brasil e diversificar a produção. A selva era sinônimo de selvageria e de confusão, portanto, as florestas estavam no meio do caminho do progresso. Mas essa associação é infundada. A literatura mostra que a área florestal (incluindo florestas plantadas) está crescendo desde o século 19 na Escócia, Dinamarca, França e Suíça, e desde o século 20, na Alemanha, Coreia do Sul, Inglaterra e nos Estados Unidos, países que adotaram mecanismos indutores de reflorestamento e regeneração de mata nativa.
O bordão “eles já destruíram tudo e agora querem que preservemos” está equivocado?
Está errado. A Inglaterra conquistou poder bélico graças ao seu poderio naval. Precisou de madeira para construir navios ao mesmo tempo que a agricultura estava em expansão, e que havia guerras em curso e a construção civil crescia. Tudo isso demandavamuito das florestas, o  que fez o preço da madeira subir. O país, então, começou a tomar medidas, criando uma série de leis no século 17 para regulamentar a exploração das florestas. Leis essas que, conceitualmente, não são muito diferentes do nosso Código Florestal.
Existem lições e exemplos que possamos tomar das leis e políticas florestais dessa época?
Sim. Os países pioneiros no aprendizado do manejo de floresta, como Alemanha, Japão e França, cometeram erros mas aprenderam com eles. O Brasil também tem condições de aprender. A história da França é bem interessante. O país cabe dentro de Minas Gerais, mas nunca teve cobertura vegetal e biodiversidade como o Estado brasileiro ainda tem, mesmo depois de tanto desmatamento. Eles também tiveram problema de escassez de madeira. Os franceses não adotaram regras para proibir o uso das florestas, mas já no século 17 começaram a implantar normas para usar as florestas racionalmente, sem destruí-las. As regras surgiram para a sociedade aprender a utilizar e recompor a cobertura arbórea. Desde a metade do século 19, a área florestal francesa não sofreu mais reduções; ao contrário, aumentou. Algumas dessas leis se mantêm até hoje. A França é autossuficiente em madeira e tem, assim como os Estados Unidos, leis muito mais restritivas do que as nossas.
O sr. não mencionou o Japão, que também é um exemplo, não? Apesar da alta densidade demográfica, 69% do território do país está coberto por vegetação.
Sem dúvida se trata de um dos principais exemplos a serem seguidos, pois a industrialização japonesa não veio acompanhada de redução da área nacional de florestas, mas sim da sua expansão, graças ao estabelecimento de plantações florestais com biodiversidade não desprezível no século 18 e, depois, após a Segunda Grande Guerra. O historiador Conrad Totman, especialista em Japão, defende a tese de que a “silvicultura regenerativa” – algo próximo ao que se entende por manejo florestal de baixo impacto – foi desenvolvida no Japão independentemente da Alemanha, país ao qual se atribui a origem da silvicultura.
O que o sr. acha da crítica ao Código Florestal Nacional, de termos leis muito restritivas quanto ao uso de território?
Uma pesquisa realizada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de Belém, sobre legislações internacionais apontou que muitos países desenvolvidos têm leis tão ou mais rígidas do que se diz que o Brasil tem hoje, ou pretende ter com o Novo Código Florestal.
Continuar desmatando significaria seguir a lógica dos séculos antes da primeira Revolução Industrial?
Com certeza. É como se o Brasil estivesse no período medieval. O correto seria dizer que, no aspecto florestal, o Brasil não é um país em desenvolvimento, mas um país em desmatamento. Entre 2005 e 2010, o Brasil ficou no primeiro lugar do ranking da ONU (empatado com Austrália e Indonésia) em perda líquida florestal – ou seja, descontando-se todo o eucalipto plantado. Mas, se olharmos para o ranking de PIB per capita, continuamos no mesmo lugar, não evoluímos  nada. A questão é: será que esse desmatamento realmente está gerando desenvolvimento? Não está. Não nos restam mais do que 7% da Mata Atlântica e já foram embora 20% da Floresta Amazônica. O Cerrado está entre 20% e 30% do que era. Na prática, essa necessidade de desmatar para desenvolver não é verdadeira. Porque, se fosse assim, já estaríamos lá – no Primeiro Mundo.
Chegamos ao ponto em que os países desenvolvidos, lá atrás, começaram a fazer o manejo sustentável das florestas, mas não tomamos a atitude que eles tomaram.
Exato. No Brasil, a tecnologia evoluiu para florestas plantadas, mas quanto às florestas nativas a exploração continua a ser muito atrasada. O cultivo do eucalipto, aqui, nasceu da nossa escassez de madeira. Ainda predomina a exploração de alto impacto nas florestas nativas – aquele tipo de extração que, para obter uma árvore, acaba destruindo um hectare inteiro. Por outro lado, sempre existiu a ideia de que após o corte da madeira bastava deixar que a floresta se regenerasse por um período de cerca de 15 anos, e se obteria um potencial – em volume de madeira por hectare – equivalente ou não abaixo do que a floresta oferecia. Só que nunca se considerou o estrago causado na floresta. Quanto mais uma floresta fica fragmentada, menor é a sua capacidade para se regenerar. Mudar a concepção das pessoas de como explorar florestas demora. Precisa de qualificação e de mão de obra, que não é barata. Precisa de investimento em tecnologia. No início, o custo disso é maior. Produzir de maneira sustentável, hoje, é mais caro. Mas se todos os países passassem a monitorar a madeira que estão comprando esse panorama poderia melhorar.
O sr. é um crítico da ideia de que os países desenvolvidos deveriam “financiar” o desenvolvimento verde dos mais pobres, como foi defendido na Rio+20?
É um equívoco. Não se justifica pedir dinheiro porque queremos crescer sem desmatar. Isso significaria reiterar que precisamos avançar mais sobre a Amazônia e o Cerrado para nos desenvolver, o que é falso. O que precisamos mesmo é produzir melhor, com maior rendimento. E ter melhores práticas de distribuição. O desmatamento não é condição necessária ao desenvolvimento. Não é preciso depredar recursos florestais para ter desenvolvimento. Isso é mito. Primeiramente, temos de analisar se fazemos bom uso do que estamos destruindo. Se estamos destruindo, já existe algo errado, porque não é necessário. É perfeitamente possível explorar as florestas nativas de forma sustentável.
Precisamos mais de tecnologia do que de dinheiro?
Precisamos dos dois. A pesquisa científica é cara. A gente precisa entender a riqueza da Amazônia, e isso requer um esforço global. Precisamos de apoio para modificar a estrutura tecnológica e institucional que temos para que nossa economia possa andar sem precisar derrubar mais nenhuma árvore.
O sr. acredita que a fartura de vegetação e biodiversidade dificulta ao brasileiro entender o valor da preservação?
A dificuldade não é a escassez ou a abundância. A questão é que estamos longe de nos preocupar realmente com a disponibilidade de madeira (exceto a de lei), pelo bem e pelo mal. Países como os Estados Unidos e a Austrália, ricos em recursos, fazem um aproveitamento melhor. É complicado discutir o que está na cabeça das pessoas, mas acho que a diferença social no Brasil pesa muito. Temos, principalmente, dois grupos: o que dirige o trator que vai passar a corrente para derrubar a floresta e o que comanda a passagem do trator. É isso o que acontece na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Por mais que sejamos a sétima economia do mundo, o nosso nível de desigualdade social é comparável ao de países da África. Enquanto existir o elo maligno entre aquele que aufere o lucro e a pessoa sem opção de trabalho, isso vai continuar a acontecer.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Douglas Alves foi contemplado no Programa Cultural do BNB


Douglas Alves é da cidade de Fátima-Ba, aluno do curso de pedagogia da UFS e autor do livro "Humanidade e outros pensamentos", recentemente lançado.
Douglas Alves foi contemplado em programa do BNB
O projeto "LEITURAS DE NOSSA VIDA: AS VOZES DO SERTÃO", de José Douglas Alves dos Santos, da cidade de Fátima-Ba, foi contemplado no Programa de Cultura Banco do Nordeste/BNDES - Edição 2012, e já teve sua primeira reunião de execução realizada com sucesso no último sábado (16/02). O autor em breve criará um grupo no Facebook e uma página na Internet para postar informações semanais sobre o projeto.  
O projeto "LEITURAS DE NOSSA VIDA: AS VOZES DO SERTÃO" tem objetivo geral promover a discussão e reflexão sobre a vida em áreas rurais de Sergipe e Bahia, através da produção e publicação de um livro escrito através das vozes daqueles que vivem a incerteza da vida sertaneja e também apresentar imagens captadas naquele espaço. A ideia é promover a socialização de experiências destacadas no livro, através de palestras, exposições, seminários, entre outros, refletir sobre práticas sociais a partir dos dados recolhidos nas entrevistas, debater temáticas sócio-políticas da contemporaneidade.
A produção e publicação do livro podem vir a ser um marco referencial na vida daqueles que fizerem parte do mesmo e na vida dos leitores que terão a oportunidade de apreciá-lo, por agregar fatos e histórias de uma realidade que não é incomum a todos, principalmente daqueles que moram no sertão nordestino. Quem tiver oportunidade de fazer sua leitura, mesmo não vivenciando essa realidade expressa na obra, estará em contato com uma parte do Brasil que muitos, infelizmente, desconhecem. O livro, através da fala dos personagens; personagens reais, não fictícios, discutirá o ser no sertão para sistematizar informações e conhecimentos populares, de sujeitos que vivem e sobrevivem no e do campo.
O livro terá publicação de 1.500 exemplares e gerará palestras, oficinas, seminários, exposições, com objetivo de atingir um público de 5 mil pessoas nas cidades de Fátima, Cícero Dantas, Heliópolis, Paripiranga, Adustina, Poço Verde, Simão Dias, Lagarto, São Cristóvão e Aracaju.
Humanidade e outros pensamentos
Num ano que começou bem produtivo, Douglas Alves fez também sua estreia na literatura, lançando em fins de janeiro o seu livro "Humanidade e outros pensamentos". A obra leva ao leitor a encontrar muitas histórias, dentre as quais, algumas devem ser familiares. O lançamento foi no Hall de entrada da Didática 5, na Universidade Federal de Sergipe (UFS). O livro estará sendo vendido ao valor promocional de R$ 10.
De acordo com Douglas, a obra inicialmente foi produzida entre janeiro e maio do ano passado. Era um projeto planejado para 2012, porém, devido às dificuldades de encontrar apoio para o financiamento da obra, só conseguiu finalizar o projeto no fim do ano, fato que o levou a transferir o lançamento para 2013.
Douglas Alves explica ainda que a necessidade de escrever o motivou a desenvolver a obra. “Tenho outros seis livros escritos, entre romances e livros de contos e poemas. Sinto essa necessidade de escrever, pois observo muito as coisas ao meu redor, o mundo ao meu redor. Gosto de prestar atenção aos detalhes e isso me fascina, pois percebo que são poucos que dão atenção a isso. É algo que é tão simples de se observar. Basta parar um pouco e ver”, diz.
Questionado sobre o que o leitor vai encontrar nas páginas de seu livro, Douglas garante que o leitor vai encontrar muitas histórias. “O livro é composto de histórias reais e fictícias, a respeito de diversos assuntos que assolam a humanidade. Entre essas histórias, estão aquelas que costumam fazer parte da vida de inúmeras pessoas, que têm um significado peculiar a cada um. Acredito que estarei compartilhando o meu ponto de vista através do olhar de muitas pessoas. Quero aproveitar e fazer um convite ao leitor para um diálogo, através da leitura de meu livro. Não espero que concorde com tudo que digo, peço apenas que mantenhamos um diálogo aberto”, conclui.
Com informações e fotos da página do autor no Facebook e do portal Infonet.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sob sigilo, Dom Pedro I e suas duas mulheres são exumados pela primeira vez


Restos mortais de Dom Pedro I, o primeiro imperador brasileiro, e de duas imperatrizes foram exumados para estudos; corpos estavam no Parque da Independência, na zona sul da capital, desde 1972
Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S. Paulo
A arqueóloga Valdirene Ambiel com o crânio de D. Pedro I
Pela primeira vez em quase 180 anos, os restos mortais de Dom Pedro I, o primeiro imperador brasileiro, foram exumados para estudos. Também foram abertas as urnas funerárias das duas mulheres de Dom Pedro I: as imperatrizes Dona Leopoldina e Dona Amélia. Os corpos estavam no Parque da Independência, na zona sul da capital, desde 1972. 
Os exames - realizados em sigilo entre fevereiro e setembro de 2012 pela historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, com o apoio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) - revelam fatos desconhecidos sobre a família imperial brasileira, agora comprovados pela ciência, e compõem um retrato jamais visto dos personagens históricos.
Agora se sabe que o imperador tinha quatro costelas fraturadas do lado esquerdo, o que praticamente inutilizou um de seus pulmões - fato que pode ter agravado a tuberculose que o matou, aos 36 anos, em 1834. Os ferimentos constatados foram resultado de dois acidentes a cavalo (queda e quebra de carruagem), ambos no Rio, em 1823 e em 1829.
Ao realizar o inventário do caixão de Dom Pedro, nova surpresa: não havia nenhuma comenda ou insígnia brasileira entre as cinco medalhas encontradas em seu esqueleto. O primeiro imperador do Brasil foi enterrado como general português, vestido com botas de cavalaria, medalha que reproduzia a constituição de Portugal e galões com formato da coroa do país ibérico. A única referência ao período em que governou o Brasil está na tampa de chumbo de um de seus caixões (ele estava dentro de três urnas), na qual foi gravado "Primeiro Imperador do Brasil" ao lado de "Rei de Portugal e Algarves".
Ao longo de três madrugadas, os restos mortais da família imperial brasileira foram transportados da cripta imperial, no Parque da Independência, à Faculdade de Medicina da USP, na Avenida Doutor Arnaldo, em Cerqueira César, onde passaram por sessões de até cinco horas de tomografias e ressonância magnética. Pela primeira vez, o maior complexo hospitalar do País foi utilizado para pesquisas em personagens históricos - na prática, Dom Pedro I, Dona Leopoldina e Dona Amélia foram transformados em ilustres "pacientes", com fichas cadastrais, equipe médica própria e direito a bateria de exames.
No caso da segunda mulher de Dom Pedro I, Dona Amélia de Leuchtenberg, a descoberta mais surpreendente veio antes ainda de que fosse levada ao hospital: ao abrir o caixão, a arqueóloga descobriu que a imperatriz está mumificada, fato que até hoje era desconhecido em sua biografia. O corpo da imperatriz, embora enegrecido, está preservado, inclusive cabelos, unhas e cílios. Entre as mãos de pele intacta, ela segura um crucifixo de madeira e metal.
O estudo também desmente a versão histórica - já próxima da categoria de "lenda" - de que a primeira mulher, Dona Leopoldina, teria caído ou sido derrubada por Dom Pedro de uma escada no palácio da Quinta da Boa Vista, então residência da família real. Segundo a versão, propalada por historiadores como Paulo Setúbal, ela teria fraturado o fêmur. Nas análises no Instituto de Radiologia da USP, porém, não foi constatada nenhuma fratura nos ossos da imperatriz.
"Unimos as ciências humanas, exatas e biomédicas com o objetivo de enriquecer a História do Brasil. A cripta imperial foi transformada em laboratório de especialidades, com profissionais usando os equipamentos mais modernos em prol da pesquisa histórica", disse a pesquisadora, que defendeu hoje pela manhã sua dissertação de Mestrado na USP, após três anos trabalhando sob sigilo acadêmico. "O material coletado será útil para que as pesquisas continuem em diversas áreas ao longo dos próximos anos."
A reportagem do Estado acompanha os estudos de Valdirene desde 2010, quando a historiadora e arqueóloga conseguiu autorização dos descendentes da família imperial para exumar os restos mortais dos personagens históricos. Veja neste especial todos os detalhes de um estudo que reescreve detalhes da história do Brasil - confirmando algumas informações, desmentindo outras e adicionando novas verdades.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

¨¨¨Landisvalth Blog: Papa anuncia renúncia

¨¨¨Landisvalth Blog: Papa anuncia renúncia: Da Folha de São Paulo O papa Bento 16 anunciou, nesta segunda-feira, que vai renunciar do cargo no próximo dia 28. Esta é a primeira vez...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Morta há 50 anos, poeta Sylvia Plath ainda confunde


MARINA DELLA VALLE – da Folha de São Paulo
Os poetas Ted Hughes e Sylvia Plath, recém-casados em 1956
O suicídio da poeta norte-americana Sylvia Plath, aos 30 anos, em 11 de fevereiro de 1963, deu início a uma questão que acabou por gerar, ao longo dos anos, uma verdadeira indústria de publicações biográficas: quem era, na verdade, Sylvia Plath? Cinquenta anos depois, foram tantas disputas e livros sobre a vida e a morte da poeta que é tempo de mudar a questão ao ler algo sobre ela: Plath era de quem? É o que sugere um dos lançamentos mais interessantes relacionados com a data: "Claiming Sylvia Plath" (reivindicando Sylvia Plath, Cambridge Scholars, 370 págs., US$ 74,99), da norueguesa Marianne Egeland. Professora da Universidade de Oslo, Egeland analisou as publicações sobre Plath escritas entre 1960 e 2010 para traçar a recepção da poeta por diferentes grupos de leitores: feministas, críticos, biógrafos, psicólogos e amigos. Isso porque poucos autores tiveram vida e legado tão debatidos como Plath. As causas de seu suicídio, o papel do marido, o poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), em sua morte, e as origens dos poemas vociferantes publicadas em seu livro póstumo, "Ariel", geraram um turbilhão de análises. Mais que isso: tais disputas pintaram diferentes figuras da poeta. "Fiquei surpresa não só com a quantidade de 'Sylvias' contrastantes, mas com o tanto que comentaristas acreditam que suas versões são as únicas corretas", disse Egeland à Folha. Um ponto interessante colocado pela autora é que Plath acabou sendo usada como um argumento pelos diferente segmentos que escreveram sobre ela, moldando sua figura de acordo com os interesses de cada visão. E é possível, afinal, saber quem foi a verdadeira Sylvia Plath? "Essa decisão fica ao encargo de cada leitor. Mas talvez seja prudente lembrar que hoje ela está escondida sob múltiplas camadas de opiniões e interpretações", afirma Egeland. "Claiming Plath" não é necessariamente uma leitura fácil, principalmente para iniciantes no universo da poeta, mas pode ser um bom guia para quem começa, já que situa --e explica-- as diferentes visões alardeadas como a "verdadeira" face de Plath. Para Egeland, há mais um efeito desejado: "Espero que haja um aumento das questões éticas envolvidas na maneira como ela foi reivindicada por seus leitores".
MUITAS VIDAS
Com os 50 anos da morte de Plath, era inevitável que surgissem novas biografias, ainda que o assunto pareça completamente esgotado. A mais completa é "American Isis" (St. Martin's Press, 336 págs., US$ 29,99), de Carl Rollyson, professor de jornalismo do Baruch College, da City University de Nova York. Na introdução, Rollyson compara Plath a outra loura trágica: Marilyn Monroe, também biografada por ele. A comparação inicial pode soar disparatada, mas Rollyson é um biógrafo experiente, que busca mostrar diferentes lados de Plath, como sua sexualidade e o interesse por cultura popular. Assim como Monroe, consagrada como símbolo sexual, ela buscava leituras como James Joyce. "Quis mostrar que Plath não era apenas uma ótima poeta, mas era ótima em vários aspectos", diz Rollyson. Ele é o primeiro biógrafo a utilizar uma série de cartas entre Ted e sua irmã Olwyn Hughes, liberadas anos após a morte do poeta, em 1998. O autor, ao jogar novas luzes em uma história revista tantas vezes, não deixa de avaliar as maneiras como ela foi contada antes. O último capítulo é sobre as biografias de Plath e suas disparidades. "Sem saber como essas biografias foram escritas, o leitor fica sem referência." O afã de publicações (que começou com o relançamento de "Bell Jar", que também completa 50 anos, pela Faber) não se repetiu no Brasil. Os "Diários de Sylvia Plath", editados por Karen V. Kukil, ganharam nova edição (trad. de Celso Nogueira, Globo Livros, 836 págs. R$ 79). "Ariel", em sua versão "restaurada" (da maneira como a poeta o deixou antes de morrer), traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Glenz de Macedo, será republicado pela Verus neste ano, sem conexão com os 50 anos da morte de Plath. Assim, o leitor brasileiro fica com a opção de ler o que a própria Plath tinha a dizer, tanto para si mesmo, no caso dos diários, como para o mundo, no caso de "Ariel".

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

¨¨¨Landisvalth Blog: Menos da metade dos professores de escolas pública...

¨¨¨Landisvalth Blog: Menos da metade dos professores de escolas pública...: Por Mariana Tokarnia /Agência Brasil – na Tribuna da Bahia Os professores deveriam ser os maiores leitores, mas poucos leem. O profe...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Gannibal: O cavalheiro negro do czar


O africano Abram Petrovich Gannibal, que chegou à Russia como escravo e virou governador, foi o primeiro intelectual negro da Europa
por Emiliano Urbim – da revista Superinteressante 
Gannibal, de escravo a governador
"Dispensado! Após 57 anos de serviço leal, sem razão ou recompensa!", queixava-se o recém-ex-militar em uma carta a Catarina, a Grande, soberana do Império Russo. Como reparação, ele exigia uma promoção ao posto de marechal e pensão vitalícia. Seu pedido, no entanto, foi ignorado, e o jeito foi aceitar a aposentadoria forçada na sua casa de campo. Tudo bem: encerrar a vida como aristocrata rural era bem agradável. E, no caso do negro Abram Petrovich Gannibal, vindo da África para ser escravo na Rússia, lendário. Nascido em 1696 na Etiópia, aos 7 anos o menino foi capturado e despachado para o sultão de Constantinopla, e logo revendido à corte de São Petersburgo - era moda entre os monarcas colecionar crianças exóticas. Inteligente, o menino conquistou o czar Pedro, o Grande, que arranjou sua alforria e se tornou seu padrinho - daí o sobrenome imperial, Petrovich. Quando fez 20 anos, o cavalheiro negro foi enviado a Paris para concluir seus estudos e, nas horas vagas, espionar um pouco. Russo, negro e nobre, o paradoxo ambulante logo se enturmou com a galerinha alternativa da época: Diderot, Montesquieu e Voltaire eram seus amigos e o chamavam de "estrela negra do iluminismo". Seu biógrafo, Hugh Barnes, crava: Abram foi o primeiro intelectual negro da Europa. Formado em belas-artes e na arte da guerra, fez "estágio" em um conflito entre França e Espanha, de onde saiu capitão. A fama de estrategista lhe inspirou um novo sobrenome, Gannibal - em russo, Aníbal, um general africano que assombrara a Europa 2 mil anos antes. A volta para a Rússia, em 1722, foi cheia de glórias - breves. Morto o padrinho, Abram recebeu uma missão supimpa: deixar nos trinques várias fortalezas na Sibéria, que, como ensina o anúncio de TV a cabo, é bem ruim. Foram 4 congelantes anos até que seus dons como engenheiro militar chamassem atenção e o tirassem do exílio. Reintegrado à aristocracia, Gannibal ascendeu na hierarquia política, militar e diplomática. Assim como o Otello de Shakespeare, o "mouro de Petersburgo" havia feito ao Estado alguns serviços, e eles sabiam disso. Tanto que lhe deram, em 1741, um belo sítio na província de Pskov, com milhares de pinheiros e centenas de servos. O escravo africano havia se tornado um nobre russo dono de escravos. Comparando com o Brasil, é como se Zumbi virasse barão das Alagoas. Após apelar e perder com a czarina Catarina, Gannibal terminou seus dias isolado no campo. Apesar da vida singular, na Rússia ele é só um antepassado de alguém mais famoso: bisavô de Alexandre Pushkin, pai da literatura russa.
Grandes momentos
• A história de Gannibal tem mais conexões literárias: o oficial russo que o levou da Turquia para São Peterburgo foi Pyotr Andreyevich Tolstói, bisavô do autor de Guerra e Paz.
• Promovido à nobreza, ele espalhou que era um príncipe africano. Verdade ou não, acreditava na história e criou um brasão de família com a imagem de um elefante.
• Alguns autores defendem que Gannibal se envolveu na conspiração que matou Pedro 3º e colocou Catarina, a Grande em seu lugar. Nessa versão, ele esperava uma grande recompensa e teria sido traído na última hora.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O meio do mundo de Antônio Carlos Viana

Antônio Carlos Viana

O escritor sergipano Antônio Carlos Viana, autor de livros, entre os quais se destaca O meio do mundo e outros contos, lançado em 1999, teve um de seus contos adaptado para o cinema pelo cineasta Marcus Vilar. Recentemente lançou Cine Privé, outro livro de contos. A adaptação do conto para o cinema foi vencedora do prêmio de melhor fotografia no Festival de Cinema de Brasília em novembro de 2005. Além disso, O meio do mundo recebeu o prêmio de melhor direção e também o prêmio do Banco do Nordeste no Festival de Cinema de Sergipe, realizado em abril de 2006. O curta também coleciona o prêmio de melhor direção, no Festival de Cinema de Cuiabá, realizado em abril de 2006. Nessa entrevista, dada ao portal Escrita Livre, de João Pessoa-PB, Viana fala de seu trabalho e da adaptação do seu conto para o cinema.  

Escrita Livre - Comente um pouco sobre seu conto O Meio do Mundo
Antônio Carlos Viana - Um de meus temas preferidos é o da perda da inocência. Talvez “O Meio do Mundo” seja o mais emblemático, porque o menino é levado para um determinado lugar sem que saiba muito bem o que vai lhe acontecer. O título remete a um lugar perdido no ermo do mundo, e também à linha divisória entre dois momentos da vida: o da inocência e o desconhecido. Gosto de trabalhar com a infância e a adolescência, porque são momentos cruciais em qualquer existência. Tudo o que coloquei no conto foi muito pensado: o ambiente árido do sertão, a mulher carvoeira, suja e sem voz, a pobreza da casa, tudo para se contrapor à riqueza da experiência que será vivida por Tonho.

EL - Qual foi sua reação ao saber que seu conto seria transformado em um filme de curta-metragem?

A.C.V - Eu não conhecia Marcus Vilar. Quando ele me ligou falando que pretendia filmar o conto, me deixou exultante porque vi que o livro começava a circular, o que é o desejo de qualquer autor. Fiquei à espera de algum filme dele. Foi no Festival de Curtas de Sergipe que o conheci e vi seu magnífico “A Canga”. Não tive dúvidas de que o conto estava em boas mãos e nunca duvidei do seu resultado.

O cineasta Marcus Vilar
EL - O Marcus me contou que o senhor fez um conto baseado numa experiência dele...

A.C.V - Dificilmente escrevo sobre coisas que me contam ou me acontecem. Às vezes um fato qualquer pode desencadear um conto, mas não a história em si. Quanto à história do Marcus, achei-a tão impressionante que, ao chegar em casa, sentei diante do computador e a escrevi de um jato só. Depois foi só reinventar. burilar, trabalhar a linguagem para não ficar chula. Claro que nem tudo o que está lá aconteceu com o Marcus, sobretudo o desfecho. Ele deu o mote e eu criei em torno uma situação nada confortável para o adolescente que lá está. O conto terminou sendo um dos que mais fazem sucesso entre os leitores. Não vou dizer qual é porque não pedi permissão a ele. Está no meu último livro, “Aberto está o inferno”. Agora todo mundo vai querer saber. Isso é com ele.

EL - Qual sua expectativa com relação a esse filme?

A.C.V - Sempre alimentei grandes expectativas e acho que não vou me decepcionar. Antevejo algumas cenas a partir do que vi em “A Canga”. Marcus sempre falou comigo sobre o roteiro, alterações que fez, o cuidado para que o filme não ferisse suscetibilidades. Marcus deve ter captado isso com a sensibilidade que tem.

EL - Como é seu processo de criação?

A.C.V - Criar é algo bem complicado. Há dias em que não somos capazes de escrever uma linha. Outros, basta pôr a primeira palavra que o resto vem de roldão. Sou muito disciplinado e quem não for não faz nada na vida. Todo dia me acho na obrigação de escrever alguma coisa, mesmo que não dê em nada. Seria bom que sempre desse em alguma coisa, mas isso é impossível. O importante é estar disponível, não ter medo de perder tempo com algo que pode resultar em fracasso. Às vezes penso que determinada história não vai dar em nada e, de repente, com mais uma volta do parafuso, eis que ela rende o impensável. Escrever tem dessas surpresas. Como sou muito meticuloso, demoro muito a terminar um conto. E, mesmo quando o dou por concluído, sempre acho que poderia ficar melhor. É aquela eterna insatisfação de quem pretende fazer arte.

Capa de O meio do mundo e outros contos
EL - A literatura sempre foi a grande fornecedora de idéias para o cinema mundial, desde o século passado, haja vista produções como E o Vento Levou, Cidade de Deus, O Pagador de Promessas entre tantos exemplos que poderia citar. Na sua opinião a literatura e o cinema, essas duas formas de arte, se completam e se entendem perfeitamente?

A.C.V - O que nenhum autor pode querer é que o filme seja uma ilustração do romance, do conto ou do poema. Assim não seria cinema. O cinema tem sua linguagem, e muitas vezes o que funciona no papel não funciona na tela. Não gosto quando as pessoas falam assim: “O filme é melhor do que o livro”, ou vice-versa. Cada um deve ser visto dentro da forma que lhe é peculiar: literatura é palavra; cinema é imagem. Cinema, televisão, literatura sempre vão se entender. O que se precisa fazer é dar educação para que o leitor-espectador veja cada um dentro de seus limites. Pior quando dizem “não li o livro mas vi o filme (ou a minissérie)”, como se uma coisa substituísse a outra. Assim não dá.

EL - Fala um pouco do início de sua carreira, de quando o senhor descobriu que era um autor e quando teve a certeza que queria seguir essa carreira.

A.C.V - Escrever todo mundo quer um dia na vida. Eu comecei por acaso, quando comprei minha primeira máquina de escrever. Assim que cheguei em casa com aquela conquista, pus um folha de papel e deixei que viesse da minha cabeça qualquer coisa, sem censura prévia, mas sem pretensão nenhuma de ser escritor. Veio uma história interessante que eu nunca imaginei ser possível eu criar. É o conto “Brincar de manja”, que está em O meio do mundo e outros contos. Gostei da experiência e continuei escrevendo. Quando tinha um bom número de contos, apresentei a algumas pessoas que entendiam do riscado e elas me incentivaram a continuar. Aí veio Brincar de Manja (1974). Depois, Em Pleno Castigo (1981), O Meio do Mundo (1993), O Meio do Mundo e outros Contos, este uma seleção dos melhores contos dos três anteriores, publicado em 1999, pela Companhia das Letras. E agora, Aberto está oIinferno (2004), também pela Companhia. Como vê, trabalho devagar, com muito cuidado. Ter chegado à Companhia das Letras para mim foi o ponto mais importante da minha carreira, que começou praticamente de uma brincadeirinha.

EL - Lembra de algum momento ligado ao seu trabalho que o deixou triste, magoado?

A.C.V - O Meio do Mundo e outros Contos tinha sido indicado como leitura obrigatória para o vestibular da UFS (Universidade Federal de Sergipe) e depois a própria universidade o retirou porque disse que era pornográfico. Uma universidade! Algo inaceitável. Eu não trabalho com pornografia, mas com o erotismo, que refino até onde posso.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Morto há cem anos, autor de "O Cortiço" ainda instiga


MARCO RODRIGO ALMEIDA – do caderno ILUSTRADA, da Folha de São Paulo
Aluísio Azevedo
Quando você leu Aluísio Azevedo pela última vez? Se já saiu da escola há alguns anos, é bem provável que nunca mais tenha passado os olhos por qualquer texto do autor de "O Cortiço" - ou mesmo que o confunda com outros Azevedos ilustres da literatura brasileira do século 19: Artur (de quem era irmão) e Álvares. Não se trata de um azar específico de Aluísio (1857-1913), cuja morte completa cem anos nesta segunda, dia 21. Quase todos os autores brasileiros do século 19 - Machado de Assis é a maior exceção - são mais próximos do universo escolar e acadêmico, lidos mais por pesquisadores e estudantes. São o que se costuma chamar de "autores de vestibular". "Machado é o maior, mas um galo sozinho não tece uma manhã. Não há motivo para um brasileiro não ler Aluísio Azevedo", diz Luiz Dagobert de Aguirra Roncari, professor de literatura brasileira da USP. Houve um tempo, contudo, em que Aluísio ofuscou até mesmo Machado (1839-1908). Em 1881, ambos publicaram obras fundamentais. Machado lançou "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e Azevedo, "O Mulato". Enquanto as inovações do primeiro tiveram repercussão discreta na época, o segundo, de linguagem crua, mais explícito em seu retrato do preconceito, da corrupção do clero e do desejo sexual, gerou escândalo e sucesso. Nos anos seguintes, produziu outros livros importantes, como "Casa de Pensão" (1884) e "O Cortiço" (1890), este último sua obra-prima, conhecido, mesmo que de orelhada, por quase todo mudo que já passou pela escola. Com esses três livros, Aluísio firmou-se como o principal expoente nacional do naturalismo, escola literária fortemente influenciada por teorias científicas, como o evolucionismo, que procura retratar fielmente a realidade. Por suas qualidades, e também pelas controvérsias que desperta, sua obra, longe de engessada, segue bastante viva. "'O Cortiço' é excepcional. Tem grande consistência estética e inaugurou um novo tipo de romance urbano no Brasil", afirma Paulo Franchetti, professor da Unicamp.
ALEGORIAS
Um cortiço no início do século XX
O principal romance de Aluísio retrata a vida de trabalhadores miseráveis que coabitam um cortiço no Rio do fim do século 19. No centro da trama está o comerciante português João Romão, que não mede esforços para enriquecer. Em "De Cortiço a Cortiço", famoso ensaio que dedicou ao livro, Antonio Candido argumenta que Aluísio, mesmo tendo se inspirado na obra do francês Émile Zola, deu cor local à trama, criando uma alegoria do Brasil, do conflito entre as classes e do nosso capitalismo primitivo do final do século 19. O ensaio destaca o pioneirismo do romance ao retratar a menstruação e o lesbianismo. Mas Candido também aponta alguns problemas e chavões, de certa forma característicos do naturalismo. O clima e a mestiçagem são encarados como causa da miséria e desgraça dos personagens. "Aluísio teve o mérito de colocar a miséria em cena, mas alguns aspectos ficaram datados. Com essa visão sobre o clima e a raça, as contradições sociais ficaram diluídas", avalia Cilaine Alves Cunha, professora de literatura da USP. "É um livro complexo. Tem aspectos conservadores, mas, por outro lado, tanta densidade", afirma Franchetti. "A epígrafe, por exemplo, cita uma fábula sobre são Francisco. Mas como isso se articula ao resto do livro? Ainda hoje é difícil de entender."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Caetano Veloso fala sobre seu "Abraçaço"


PAULO WERNECK – Editor da "ILUSTRÍSSIMA" – da Folha de São Paulo.
Nesta entrevista, concedida em novembro de 2012, num hotel em São Paulo, durante uma rodada de divulgação promovida por sua gravadora, Caetano Veloso comentou algumas das canções de "Abraçaço", seu mais novo álbum, que encerra a trilogia iniciada com "Cê", em 2006, e depois com "Zii & Zie" (2009). Ele fala mais demoradamente de "Um Comunista", canção de sabor épico dedicada ao guerrilheiro baiano Carlos Marighella, que foi assassinado em 1969, numa emboscada planejada pela ditadura militar. A canção presta uma homenagem ao guerrilheiro, mas também toma distância em relação à luta armada e sobretudo ao stalinismo. "Aquilo, naquele ambiente romântico do tropicalismo, da contracultura, era muito atraente, era o que eu mais admirava em política", diz Caetano. "Eu gostava de Marighella, e gosto até hoje."
Folha - "Abraçaço" encerra a trilogia com a banda Cê, depois de "Cê" (2006) e "Zii & Zie" (2009). Algum dos álbuns fica como o seu preferido, está no seu coração de maneira mais funda?
Caetano Veloso - Um deles eu acho criticamente mais coeso, que é o Cê. Não sei se ele está no meu coração de modo mais fundo, porque ainda nem me acostumei direito com esse novo, mas sei que o "Cê" é mais coeso. Mas é pra ser assim mesmo, porque compus aquelas canções e planejei aquele disco antes mesmo de formar a banda. Depois [em "Zii & Zie" e "Abraçaço"] é muito diferente, já tenho a banda, estamos acostumados a tocar, e aí eu fiz canções. Então é uma coisa mais solta do que aquele primeiro disco, que foi todo composto antes.
Antes da banda?
Antes da banda ser formada.
No entanto, parece um disco feito ali, com a banda.
É incrível a resposta da banda, porque no "Cê" eu fiz tudo no violão, mostrei a Pedro Sá e disse pra ele me sugerir um baixista e um baterista, e ele sugeriu Marcelo e Ricardo. E eu dizia até o que eu queria que a bateria fizesse, as linhas de baixo. Foi muito assim, ali eu parti para um negócio que era mais ou menos como fiz agora no disco da Gal []. Mas o "Abraçaço" é mais como "Zii & Zie". Deixei fluir o que fosse, as canções, porque a banda já existe. Agora, é muito rápido como eles pegam. Eu apresento um negócio, eles fazem, dá tudo certo.
Mas o "Zii & Zie" foi concebido junto com o público, em shows e num blog. Isso mudou a forma de conceber o disco?
É, foi um negócio de botar na internet. Foi ideia do [antropólogo] Hermano Viana, de botar também na internet. Eu quis fazer um show semanal, e fiz, no Rio, apresentando canções antigas, canções do "Cê" e, pouco a pouco, canções novas. Quando eu disse que ia fazer isso, o Hermano disse: "Então a gente precisa acompanhar na internet". Então nasceu aquele blog que acompanhou a feitura do "Zii & Zie".
E o "Abraçaço", você compôs no violão?
A canção "Um Abraçaço" eu compus quando a gente já estava gravando, já tinha mais da metade gravada. Eu compus e ainda terminei dentro do estúdio, botando letra em cima da base já pronta.
Você disse que "abraçaço" é a forma que você usa para se despedir dos amigos por e-mail. Outra canção do disco, "Parabéns", também parece texto de e-mail, uma canção recortada de um e-mail.
Aquele foi corta e cola, um e-mail inteiro, desde o título, o "subject" dos e-mails. E o texto era o texto do e-mail, até o "hehe" tem, foi o email do [diretor] Mauro Lima para o meu aniversário de dois anos atrás.
A trilogia é marcada por canções melancólicas, como "Desolação de Los Angeles", no primeiro disco, e "Por quem?", no segundo. "Estou triste", do terceiro, parece a mais triste de todas. Está difícil se livrar da tristeza?
É mais um negócio desse período da minha vida, mas eu conheço tristeza desde sempre.
Desde que o samba é samba?
Desde que o samba é samba.
A primeira faixa do disco, "A Bossa Nova é Foda", começa com João Gilberto, "o bruxo de Juazeiro"...
Como se diz "o bruxo de Cosme Velho", Machado de Assis.
Evoca um Rio mítico, do Vinicius...
Tem o Vinicius...
e termina com Anderson Silva, Vitor Belfort...
Começa com João Gilberto, tem o Carlos Lyra, tem o Tom, tem o Vinicius e desemboca nos lutadores de MMA.
Mas como você conseguiu juntar Anderson e João na mesma canção?
Cara, foi muito rápido, veio na minha cabeça porque o João Gilberto gosta de luta.
Ah, é? Ele assiste?
Assiste. Ele era louco por boxe. Caracterizou o estilo dele de ataque dos acordes e de escolha das divisões como um golpe de caratê, quando voltou dos EUA, numa entrevista ao Tárik de Souza. E gostava de ver boxe, era fã de Mike Tyson e seguramente assiste MMA. Mas isso é o fato. Disso eu já gosto. O que eu acho também é que o MMA foi uma criação muito brasileira, porque é uma mistura de lutas, de tipos de luta que nasceu com os Gracie, em Belém do Pará.
É coisa nossa?
É mistura criada a partir do Brasil, entendeu? Então nesse ponto tem um paralelo com a bossa nova. E tem um desejo em toda a canção de fazer um retrato da bossa nova como gesto histórico e estético agressivo. Não o clichê da coisa doce, e suave. Mas não é nenhuma novidade, é apenas uma maneira de dizer. Essa canção é outra maneira de dizer algo que vem sendo dito por mim, pelo Tom Zé, pelo Gil, por diversas pessoas há muito tempo. Tom Zé tem um disco todo sobre isso, e tem muitas falas dele em que ele apresenta a bossa nova como um gesto histórico de grande violência. E eu gosto de dizer assim. Acho que também porque eu leio muito uns jornalistas americanos, ingleses, que falam como se a bossa nova fosse um negócio mole, doce. Eles estão errados.
Por outro lado, você adocicou o funk, que é uma manifestação violenta, e misturou com Noel Rosa...
É, mas o Noel Rosa do tijolo na testa.
A canção é um tijolaço na testa da mulher.
É, eu gosto de brigar com mulher.
E "Um Comunista", sobre o guerrilheiro Marighella, tem um refrão forte, que lembra o da música sobre a base de Guantánamo...
É a música mais longa do disco. Eu gosto desse refrão porque ele parece um três sobre uma base de quatro tempos. Parece canção francesa sobre política, tem muito da tradicional canção de protesto, essa longura, esse tom narrativo e explicativo, embora seja mais complexa do que isso. E eu gosto que ela coincida com a chegada do livro, da biografia [escrita pelo jornalista Mário Magalhães], com o filme da Isa [Grinspum] e com a canção dos Racionais, que foi feita para o filme da Isa. Eu não fiz por causa de nada disso, eu fiz também. E ela contrasta muito com a música dos Racionais. E é interessante, porque ela é bem a canção de protesto feita por artistas da classe média, tal como Chico Buarque comparou [em entrevista a Fernando de Barros e Silva, na Folha, em 2006] quando disse que a canção está desaparecendo e que o rap é uma manifestação... Aliás, o Chico e o José Ramos Tinhorão coincidiram em dizer que o rap era a verdadeira canção de protesto, porque era dita por eles mesmos [as classes baixas], como dizia o Cacá Diegues a respeito dos filmes feitos pelos favelados sobre a favela. Diferentemente de uma referência aos desfavorecidos por parte de um artista da classe média, como era o caso na nossa geração, minha e de Chico. Então, nesse caso, eu volto àquela força da canção de protesto de classe média, mas é uma canção um pouco mais analítica, e também apresenta umas imagens que balançam a cabeça do ouvinte.
O Mário Magalhães...
Eu estive com ele no Rio, nunca tinha estado com ele, encontrei numa livraria.
Ele me mandou uma pergunta: por que o Marighella, 43 anos depois da morte dele, parece provocar mais amor e ódio do que nunca? Por que mexe tanto com as pessoas?
É curioso, parece que esse tempo foi o tempo natural, histórico, de respiração para que essas coisas aparecessem, o filme da Isa, o livro do Mário Magalhães, a música dos Racionais e a minha canção. O Jorge Amado sonhou sempre que se fizesse um monumento a Marighella em Salvador. Ele morreu com esse sonho. E é curioso, porque ele apoiava o Antonio Carlos Magalhães no fim da vida, e no entanto ele queria um monumento a Marighella em Salvador. Ele tinha muito orgulho do Marighella, que naturalmente conheceu pessoalmente, porque eram do mesmo partido (Partido Comunista Brasileiro). Só que o Marighella, no final, deixou a linha central do partido, como todo mundo sabe, e deixou de obedecer às ordens de Moscou. Aquilo, naquele ambiente romântico do tropicalismo, da contracultura, era muito atraente, era o que eu mais admirava em política. Eu gostava de Marighella, e gosto até hoje.
Vocês chegaram a ter relações pessoais?
Nunca vi Marighella. Eu tinha uma colega, Maria de Lourdes Mello Vellame, que foi guerrilheira junto com ele, que era do Partido Comunista, saiu com ele, pra luta armada, foi presa, muito torturada, causou uma impressão forte no Fleury, que era o torturador. Que ele, numa entrevista que eu tenho guardada, tenho uma fotografia das páginas na internet, ele se refere a ela como caso mais impressionante de resistência à tortura. Ela era minha amiga, era minha colega na Faculdade de Filosofia. Ela me pediu na época pra prestar apoio logístico à guerrilha de Marighella, e eu fiquei mais ou menos inclinado a talvez fazer isso, se me fosse possível, se soubesse como, porque eu o admirava, mas eu temia, possivelmente não chegaria a fazer. Mas não sei, porque eu fui preso poucos meses depois, não por isso, porque eles me prenderam sem saber disso. Só se sabe disso hoje, que na altura só sabíamos disso a Lourdinha e eu. Só sabíamos os dois, a Dedé, minha mulher, teve uma altura em que ficou sabendo.
Na canção, você conta um episódio pessoal, do recado que enviou do exílio para o Brasil quando soube da morte de Marighella, recado que ninguém entendeu...
Foi um texto que eu mandei para o Pasquim. Porque nós estávamos em Londres, não fazia muito tempo que tínhamos chegado, ainda no primeiro ano, e chegou uma revista Manchete, ou Fatos e Fotos, uma revista da editora Bloch, foi um fotografo para nos fotografar no exílio. Ele no fotografou, eu e Gil, em Londres, fez uma entrevista. A imprensa brasileira era muito limitada pela censura, não podia-se dizer que gente estava exilado, apenas Caetano e Gil estão em Londres, etc. E tal. E a capa dessa revista era uma fotografia, eu e Gil, sorrindo, na frente do Big Ben, né, na ponte de Waterloo. E num boxe, assim, no alto da página, a foto de Marighella morto, que era a notícia de Marighella morto. Então mandei um texto para o Pasquim, dizendo "A revista chegou e nós estamos na capa. E eu falava de minha tristeza e de Gil, dizendo assim: nós estamos mortos. Ele está mais vivo do que nós. Nem uma só pessoa das que viviam no Brasil e eram minha amigas e que se correspondiam comigo, nem aquelas que conheciam essas, nem depois quando voltei e mencionei, na cabeça de nenhuma pessoa passou. Eles morando aqui e tal não sentiram o impacto que era ter eu e Gil e eu aparecendo na capa da revista depois de exilados, sorrindo, e o Marighella morto. O texto todo era sobre isso, sobre a capa da revista: "na capa duma revista....". Você vê que quando a gente está fora, a gente não pode imaginar como é a cabeça das pessoas que estão dentro, porque ninguém sacou. Eu recebi várias cartas de gente dizendo: você está deprimido porque está aí, não sei quê, e de fato estava, mas não tinha escrito isso porque eu tinha visto uma capa em que eu e Gil estávamos sorrindo no exílio e o Marighella morto a tiros nas ruas de São Paulo, e eu gostava de Marighella, então achei aquilo um negócio meio terrível, assim. Escrevi e ninguém entendeu. É uma parte totalmente pessoal que aparece na letra da canção, que se refere a esse fato.
E na canção você escreve: Não há vida sem utopia/Assim fala um comunista. Você concorda nesse ponto com os comunistas?
Mais ou menos. Eu já fiz uma canção que falava disso: (canta) "Na maré da utopia, banhar todo dia..." Eu digo que a pessoa deve se banhar todo dia, ou pelo menos uma vez, na "maré da utopia". Foi o que eu disse nos anos 80. Eu não posso dizer que eu seja comunista, nem mesmo um socialista. Eu fui mais no meu pensamento socialista do que vim a ser depois. Muita gente fica especulando por que que eu me interesso tanto pelo Mangabeira Unger, e eu falo nele e tal. É que ele representa um negócio de esquerda muito exigente intelectualmente, mas que leva em consideração o essencial do liberalismo.
Que vem a ser o quê, exatamente?
Uma ideia de liberdade e de direitos. De uma certa forma é você poder colocar a ideia de liberdade no mínimo à altura da ideia de igualdade, senão acima, no meu entender.