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sábado, 5 de maio de 2012

Revivendo a Guerra do Contestado V


A GUERRA
PARTE II
Do portal: HID0141 HISTORIA LICENCIATURA(http://hid0141.blogspot.com) – de EDSON DAY.
TERRAS EM DISPUTA
A bandeira do Contestado
Nos primeiros tempos de sua história, o Planalto de Santa Catarina foi habitado pelos índios Gê, tradicionais inimigos dos Guarani, que viviam no outro lado do Rio do Peixe. Ao longo do século XVIII, o tropeiro, um homem branco, percorre a região no sentido sul-norte, conduzindo bois e cavalos entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. Com o passar dos anos, surge o homem típico do Planalto, conhecido como caboclo. Ele trabalha na condução das tropas, nas fazendas de criação de gado ou na colheita da erva-mate. Esse novo habitante não consegue receber um título de propriedade, pois mesmo as terras devolutas estão reservadas para os “coronéis” do Planalto ou para os políticos do Litoral. Além disso, Santa Catarina e Paraná disputam a administração do território, numa velha rixa começada em meados do século XVIII. Assim começa a história do caboclo sem terra e sem governo, personagem central da Guerra do Contestado.
ALEMÃES SOBEM A SERRA
Em 1868 esgotam-se os lotes rurais na Colônia Dona Francisca para instalar os novos imigrantes alemães, que continuavam a chegar da Europa. A falta de terras para cultivar e o número considerável de alemães-sem-terra obrigam a direção da Colônia a abrir um novo núcleo Serra acima, onde existem 247 quilômetros quadrados de terras no campo de São Miguel, em direção ao rio de São Bento, também pertencentes à Dona Francisca. Nos primeiros dias de setembro de 1873, as autoridades de Joinville escolhem 70 imigrantes robustos e desejosos de arriscar a odisséia de subir a serra para abrir picadas e preparar os ranchos necessários à instalação das respectivas famílias. Em 26 de novembro chegam as primeiras famílias para fundar o núcleo, que recebe o nome de São Bento. As mulheres e as crianças seguiram em carroças até o limite do trecho carroçável da estrada Dona Francisca, no quilômetro 33, do Alto da Serra. O restante da viagem foi efetuado em lombo de burros e a pé. As crianças foram carregadas em cestos grandes, colocados um em cada lado da mula, os mesmos cestos utilizados no transporte da erva-mate. Este primeiro transporte foi efetuado com 30 mulas. Sete dentre elas levavam cargueiros e mantimentos formados por seis sacos de farinha, três de feijão, seis arrobas de carne, três de toucinho, 30 quilos de açúcar e 15 de café. Outras três mulas levavam, além de sacos com sal, panelas e apetrechos de cozinha, pregos, ferramentas e dobradiças para portas e janelas. O novo povoamento, localizado em terrenos que o Paraná afirma estarem sob a sua jurisdição, vai desaguar em uma sucessão de enfrentamentos entre os novos colonos e as velhas autoridades de Curitiba.
DIREITOS ADQUIRIDOS PELO ESFORÇO
A região na época do conflito
No segundo semestre de 1876, a presidência da Província de Santa Catarina é ocupada por Alfredo d’Escragnolle Taunay, o famoso autor do romance Inocência e do livro de memórias sobre a Guerra do Paraguai, A Retirada da Laguna. Nascido no Rio de Janeiro, engenheiro militar e com pouca ligação anterior com o Estado, o novo presidente sente de perto os problemas resultantes da questão de limites com o Paraná. Em dezembro, poucas semanas antes de deixar o governo, Taunay visita o núcleo de imigrantes alemães, há pouco instalado no alto da Serra do Mar. Em relatório, diz o governador: “O sentimento das populações vivendo ao sul da linha do Rio Negro, ou melhor, à margem esquerda desse rio, excelente limite natural, é contrário, e de modo veemente, a qualquer possibilidade de desanexação desta província. O núcleo de São Bento encerra muitas esperanças e apresenta um rápido incremento. Tudo isso é efeito único da iniciativa particular e da emigração espontânea. Todos os colonos aí estabelecidos abraçaram com ardor a causa de Santa Catarina e mostram-se receosos de qualquer decisão que vá perturbar o bom encaminhamento que tem a prosperidade e o engrandecimento. Como se vê, a questão tornou-se hoje mais complexa, indo afetar direitos adquiridos pelo esforço de uma grande sociedade particular que busca, por meio da atração de boa e moralizada colonização, desenvolver seus meios de ação, concorrendo simultaneamente para a grandeza do Brasil.”
CONFLITOS AUMENTAM EM SÃO BENTO
Os rebeldes
O progresso do núcleo de São Bento, fundado em 1873, exige a constante ajuda de novos imigrantes. Dois anos depois chega um outro grupo de alemães. Mas seis famílias não conseguem entrar no respectivo lote porque ele já está ocupado com posseiros oriundos do Paraná. Para evitar um previsível conflito, as autoridades de Curitiba aplicam uma série de medidas que garantem a jurisdição paranaense sobre os imigrantes recém-instalados.

Três dessas medidas aumentam o conflito.

1. Os seis posseiros permanecem em seus lotes e as famílias alemãs precisam buscar o novo pouso mais para dentro da floresta.
2. O inspetor de quarteirão, nomeado por Santa Catarina, é multado ao recusar-se a entregar a lista com os nomes dos imigrantes jovens em idade de prestar o serviço militar.
3. Quatorze policiais invadem a localidade, aprisionam um morador e o levam para a cadeia, no outro lado do Rio Negro, território paranaense.

A intranquilidade entre os alemães aumenta à proporção que o Paraná intensifica decisões autoritárias para comprovar a sua jurisdição. Assim, por exemplo, na região da Encruzilhada, um posto fiscal instalado por Curitiba, há dezenas de guardas, alguns fardados. E todos eles deixam bem à mostra as facas de ponta e as clavinas engatilhadas para entrar em ação contra o barriga-verde que levantar a crista. O mais grave de tudo é que o Paraná arma conflitos em uma região que nunca havia sido contestada nos tempos da Província de São Paulo.
O VÍRUS DA REBELIÃO
(DIÁRIO DE CAMPANHA DE UM OFICIAL DO EXÉRCITO QUE FEZ PARTE DA EXPEDIÇÃO PARA EVITAR UM ENFRENTAMENTO ENTRE DEMÉTRIO RAMOS E AS FORÇAS DO PARANÁ)
“Indignou-se Demétrio contras as violências que lhe infringiram as autoridades do Paraná e recorreu ao auxílio dos seus correligionários da Vila de Santa Cruz de Canoinhas. Com a alegação de que o Paraná desrespeitava direitos de Santa Catarina, Demétrio Ramos conseguiu facilmente reunir cerca de 600 sertanejos dessa gente inculta e supersticiosa, jeitosamente preparada por Antero Alves, comissário de polícia da vila. Consta mesmo que esse povo foi armado a comblain pelo governo do Estado de Santa Catarina e por ele próprio mantido, com o auxílio de algumas casas comerciais. Uma série de conflitos mais ou menos criminosos foi desenvolvida por partidários apaixonados desses dois estados, vindo daí por diante alimentada a luta pelos maiores interessados na questão da zona contestada”. O movimento organizado por Demétrio Ramos deixou nas terras contestadas o vírus da rebelião. Os habitantes do território em litígio continuaram não se sujeitando ao regime de qualquer autoridade dos dois estados, até porque não sabiam a quem respeitar ou obedecer. E sempre aprendiam estratégias que poucos anos mais tarde saberiam aproveitar muito bem no decorrer da Guerra do Contestado.
VOZES DA GUERRILHA
A argumentação do Paraná, perante o Supremo Tribunal Federal, ao reivindicar a posse das terras também contestadas por Santa Catarina, apresenta como suporte básico a história do povoamento da região. Para os juristas de Curitiba, Santa Catarina não tem direito às terras em litígio, pois apresenta em seu favor uma documentação histórica mais ou menos discutível e omite a “situação de fato” em que se encontra o referido território. Enquanto os catarinenses se baseiam em obscuras provisões régias do século XVIII e algumas leis obscuras do tempo do Império, Curitiba comprova que bandeirantes paulistas e povoadores paranaenses desbravaram a região, abriram estradas, fundaram núcleos coloniais, vilas e cidades. Em uma palavra, levaram para o sertão de ninguém todos os elementos da vida de uma civilização. Na linguagem de Curitiba, a decisão do Supremo, ao dar ganho de causa a Santa Catarina, não foi uma vitória do Direito. Ela constitui uma derrota política do Paraná devido à falta de prestígio de sua representação na capital da República, em confronto com a força dos catarinenses, que contam com a presença de Lauro Müller no Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas. O Paraná garante, por isso, que a questão do Contestado jamais se resolverá dentro do terreno jurídico. O senador Alencar Guimarães repete a opinião do ex-secretário de obras do Paraná, Niepce da Silva, em declaração à imprensa do Rio de Janeiro (Jornal A Noite, 24, abril, 1914): “Os paranaenses estão dispostos a defender o seu território até pela força das armas. Para isso, o Estado dispõe de um regimento de segurança, com um efetivo de mil homens armados com carabinas mauser. E existem armas e munições para mobilizar, de um momento para outro, um pequeno exército de 5 mil combatentes. São eles audaciosos bandos de volantes, que no sistema de guerrilhas mais adequadas em certos pontos do território litigioso, são suceptíveis de causar maiores males ao adversário.”
PRELIMINARES DO CONFLITO
Em setembro de 1909, o catarinense Aleixo Gonçalves de Lima, capitão da Guarda Nacional, à frente de 500 homens, invade o território sob a Estrada Dona Francisca, que o Paraná alega pertencer-lhe, mesmo que esteja situado no lado de cá do Rio Negro. O capitão expulsa os funcionários do fisco e os guardas do pequeno destacamento policial. Mas de imediato, um forte destacamento “inimigo” restabelece as barreiras, rastros da presença da jurisdição paranaense. Aleixo Gonçalves de Lima e seu batalhão vingador são recebidos com festas e foguetes na cidade de Joinville. Carros vão esperá-los na entrada da cidade. Passeata pelas ruas, espoucar de fogos, sons da banda de música, tudo anuncia e aplaude o regresso dos heróis. “À frente de um grupo de revoltosos contra as odiadas barreiras paranaenses, o capitão afugentou a força policial daquele Estado que as protegia.” Este é o comentário generalizado entre os respeitáveis senhores e veneráveis senhoras que saíram de suas casas para abraçar os bravos guerreiros da Serra-Acima. Governo e sociedade de Florianópolis e de Curitiba não se dão conta de que os enfrentamentos entre grupos de civis armados já duram mais de 20 anos. Cada desencontro joga lenha na fogueira de uma situação em alta periculosidade. Há um “inimigo” em marcha porque muitos sertanejos e caboclos se familiarizam com o manejo das armas e com as técnicas militares de ataque e defesa. Todos vão aprendendo hábitos e comportamentos que serão postos à prova na hora de se defenderem das forças do governo federal e das polícias militares dos dois estados encaminhadas para impor a ordem pela força da boca do canhão, a partir de 1912. O mais grave: nas terras contestadas, terras de ninguém, todos se acostumam a viver e a impor suas ordens, “sem fé, sem lei e sem rei”, como dizia o colonizador português do século XVI a respeito dos indígenas que habitavam o litoral do Brasil.
ABUSO POLÍTICO E ECONÔMICO
A instalação de barreiras fiscais no alto da Serra de Joinville, pelo Paraná, em uma zona que Santa Catarina sempre considerou como terras que integram o seu território, desencadeia um sério problema econômico e um explosivo problema político. A presença dos fiscais paranaenses impede a circulação da erva-mate produzida em São Bento e industrializada em Joinville, já que os ervateiros não estão de acordo com as duas cobranças: uma, ao fisco do Paraná, antes de descer a serra, e outra, ao Estado de Santa Catarina, na hora do embarque no porto de São Francisco. Mas o problema é também político, pois ele intensifica a animosidade entre os dois estados que, além da Serra de São Bento, enfrentam-se no Planalto, no Vale do Rio do Peixe e no Extremo-Oeste. Para Santa Catarina, a invasão do Paraná constitui um criminoso abuso, tanto mais grave quando a União atravessa um momento de turbulência política. O sistema republicano, implantado em 15 de novembro de 1889, exige uma série de ajustes entre os monarquistas, que não aceitam a perda do poder, e entre os republicanos, divididos em facções ideológicas. Vinte anos depois, quando o governo federal ouve dizer que, na zona do Contestado um grupo de fanáticos, comandados por um monge, estava pretendendo trazer de volta a Monarquia, o mundo vem abaixo. E os canhões vão falar todos os berros de uma boca enlouquecida.
A GUERRA ENTRE SC E PARANÁ QUE NÃO HOUVE
A guerra que não aconteceu fora da manchete de um jornal de Curitiba, em 8 de agosto de 1896. A guerra explodiu desse jeito. Duas semanas antes, 21 de julho, as autoridades paranaenses da vila do Rio Negro derrubam as pontes de madeira da estrada de rodagem que liga as vilas de São Bento e São Lourenço, todas elas construídas pelo Estado de Santa Catarina no território que lhe pertence. Hercílio Luz, o nosso governador, se irrita e faz desabar um telegrama sobre a mesa do colega, Santos Andrade, repudiando o “ato vandálico” das autoridades de Curitiba. Ao mesmo tempo, ele manda reconstruir as pontes. Uma enxurrada de telegramas entre Florianópolis e Curitiba resulta na presença de tropas militares, cara a cara, fuzil contra fuzil, tudo despachado às pressas para o local da confusão pelos dois estados. A guerra quase se acende em 13 de novembro, quando duas centenas de homens armados assaltam um destacamento de Santa Catarina, instalado a seis quilômetros da margem esquerda do Rio Negro, em plenas e catarínicas terras. Vinte e sete soldados barrigas-verdes são metidos na cadeia, evidente que situada no outro lado do rio, onde Santa Catarina jamais reivindicou um palmo de terra. “Vandalismo paranaense”, protestam vozes nos quatro cantos do Estado. O governo do Paraná pede desculpas pela agressão e devolve os 27 prisioneiros sãos e salvos. Embora um tanto assustados. Para esfriar a guerra que não houve, a segurança pública da região é entregue às forças federais, deslocadas de Curitiba.
SEIS POR MEIA DÚZIA
A oposição a Lauro Müller, governador provisório de Santa Catarina, nomeado pelo marechal Deodoro da Fonseca, logo nos primeiros dias da República, cresce rápida diante da inércia com que o jovem tenente enfrenta as contínuas investidas do Paraná contra a jurisdição de Santa Catarina, na região de São Bento. Segundo os adversários do governador, ele se mostra vacilante e frouxo porque está absorvido apenas com a mesquinha questão política da indicação dos nomes às três vagas do Senado, às quatro cadeiras para a Câmara dos Deputados e, principalmente, interessado em esmagar os políticos monarquistas e até os republicanos que não se integraram à nova ordem. Lauro Müller dá um golpe de mestre quando, para vencer o inimigo, aplica uma nítida estratégia militar que se mostra mais do que eficiente para calar o inimigo. O governador faz de conta que se desloca até Joinville para reforçar a lista dos candidatos do governo às próximas eleições de 15 de setembro de 1890. Mas, muito em segredo, ele vai a Curitiba e retorna com uma solução prática para o problema dos limites do Alto da Serra, baseada em quatro princípios, devidamente sacramentados pelos dois governadores:
- abolição do Imposto de Importação e Exportação, excluída a erva-mate;
- cobrança do Imposto da Erva-Mate apenas no porto de São Francisco e sua divisão em partes iguais entre Santa Catarina e Paraná;
- levantamento da planta exata do território contestado com o auxílio da União;
- encaminhamento da questão de limites ao Congresso Nacional.
O Imposto de Exportação da Erva-Mate, que era de 2%, foi elevado para 4%. A mesma taxa que o governo de Curitiba arrecadava no porto de Paranaguá. É sempre assim nas terras do Contestado: Santa Catarina e Paraná vivem trocando seis por meia dúzia!
ENSAIO PARA O CONFLITO
Em 1899, o governador Felipe Schmidt busca uma nova saída para a questão dos limites e contrata os serviços do advogado Manoel da Silva Mafra. Ele deverá voltar ao Supremo Tribunal Federal, desta vez com uma ação de reivindicação de posse, para obrigar o Paraná a recolher-se no outro lado dos rios Negro e Iguaçu. Em 6 de julho de 1904, o Tribunal proclama-se competente para tomar conhecimento da questão, com o argumento que os limites desejados por Santa Catarina foram estabelecidos, através do tempo, pelas autoridades que tinham competência para fazê-lo. E manda respeitar os limites já demarcados desde 1749. O Paraná contesta a ação. Passados cinco anos, 24 de dezembro de 1909, o Supremo reafirma a decisão de 1904. As autoridades de Curitiba não reconhecem a decisão da mais alta corte do país com o argumento de que a Constituição Federal de 1891 estabelecia que os casos de limites entre os estados da Federação deveriam ser resolvidos politicamente e não juridicamente. Logo, a questão só poderia ser definida mediante acordo das respectivas Assembleias Legislativas homologado pelo Congresso Nacional. A maioria das lideranças políticas do território em litígio, principalmente no Contestado Norte - região de Itaiópolis, Papanduva e Canoinhas - não aceita a administração catarinense. São poloneses, inimigos históricos dos alemães! Os poloneses também não gostavam dos alemães que o Paraná havia instalado em Mafra, Rio Negro e Porto União da Vitória. E a recíproca era verdadeira. No decorrer de 1905, a situação torna-se explosiva na região de Canoinhas. O antigo maragato Demétrio Ramos reúne em torno de si alguns sertanejos assalariados, em armas. Ele age protegido pelo governo de Santa Catarina, de cujas autoridades recebe recursos de toda ordem, segundo é voz corrente na região. Assustado, o Paraná também azeita as armas e recorre ao grupo armado do coronel da Guarda Nacional, Fabrício Vieira. Na região disputada pelos dois estados, em Timbó, por questões de ordem policial, na véspera do Natal de 1905, três homens e uma mulher são assassinados por desconhecidos. Antes que as autoridades de Santa Catarina tomem providências para esclarecer o crime, forças policiais e civis do Paraná atacam a residência do coronel Demétrio Ramos, suspeito de ser o mandante dos quatro homicídios. Queimam-lhe a casa e prendem-lhe a esposa e os filhos. Nessa mesma invasão também são presos o inspetor de polícia da cidade e mais três catarinenses. Junto com familiares de Demétrio Ramos, todos são metidos na cadeia em Porto União da Vitória, cidade paranaense. Enquanto isso, o Paraná mantém um vapor nas águas do Rio Iguaçu guarnecido com armas com o pretexto de garantir um território nunca invadido e jamais contestado pelos catarinenses. Tropas federais são enviadas às pressas e se metem entre os dentes afiados dos galos-de-briga. O estopim de um enfrentamento em marcha foi desarmado. Demétrio Ramos concorda em debandar o seu pessoal e se transfere para fora do Estado. Mas o grupo chefiado pelo ex-maragato prefere ficar na região. Combustível fácil para os quadros santos dos seguidores do monge José Maria.
SOLUÇÃO JUDICIAL FALHA
Os últimos 10 anos do século XIX costuram uma difícil convivência entre Santa Catarina e Paraná pela radical impossibilidade de ser resolvida a questão dos 40 mil quilômetros quadrados de terras exigidos, ao mesmo tempo, pelos dois estados. Santa Catarina arma uma tentativa de solução quando a Lei 242, de 1896, autoriza o governador Hercílio Luz a entrar em acordo com o Paraná para que a questão de limites seja resolvida por arbitramento. Os vizinhos também decidem entrar na mesma cartilha e escolhem o nome do vice-presidente da República, Manuel Victorino Pereira, como árbitro, condicionando que a decisão dele deveria ser homologada pelo Supremo Tribunal Federal. Os dois contestadores, com a respectiva documentação, apresentam-se no Supremo Tribunal Federal. “Pelo amor de Deus, ministros, consertem os nossos limites. Já estamos no limite da impaciência”. O Tribunal não aceita pronunciar-se sobre o problema do arbitramento, alegando que só poderia manifestar-se quando fosse acionado por uma ação judicial.
Das memórias do senador paranaense Alencar Guimarães.
“A idéia do arbitramento para definir a questão dos limites entre Paraná e Santa Catarina resultou de estudo feito pelos advogados dos dois estados, Ubaldino do Amaral e conselheiro Mafra, sobre o processo a adotar para a validade e força jurídica do laudo arbitral, em questão dessa natureza, e depois de audiência do conselheiro Aquino e Castro, então presidente do Supremo Tribunal Federal. Era opinião desse eminente jurisconsulto que o processo arbitral em casos desses só poderia produzir efeitos jurídicos se o respectivo compromisso fosse firmado perante o Supremo Tribunal Federal e este homologasse o laudo proferido pelo árbitro escolhido. Foi exclusivamente por tal motivo que os representantes federais dos dois estados, em reunião celebrada a 22 de maio de 1896, na Rua do Ourives, 19, no Rio de Janeiro, firmaram um ajuste, em que incluíram as seguintes cláusulas:
I - Comprometem-se os representantes dos dois estados a promover nas respectivas Assembleias, no corrente ano, a adoção de uma lei autorizando o arbitramento na questão de limites, devendo os governadores nomearem de comum acordo um só árbitro.
II - Dentro de dois meses, depois de publicada a lei nos dois estados, os governadores elegerão o árbitro e nomearão procuradores perante o Supremo Tribunal Federal, e perante o árbitro com os poderes necessários para os fins das leis votadas.
De comum acordo, iniciarão os procuradores a ação perante o Tribunal, requerendo que, distribuído o feito, seja tomado o termo de compromisso e se expeça comunicação ao árbitro nomeado, cuja resposta se juntará aos autos. (...)
V - A decisão proferida será sem novas alegações, nem documentos, submetida à homologação do egrégio Supremo Tribunal Federal.
VI - Desde a homologação, torna-se obrigatória a sentença, mas não terá efeito retroativo e, portanto, serão respeitados os direitos adquiridos pelos particulares.
Essas cláusulas foram aceitas sem divergências pelos representantes dos dois estados, os senadores Raulino Horn, Esteves Júnior, Gustavo Richard, Arthur de Abreu, Alberto Gonçalves e Vicente Machado, bem como os deputados federais Tolentino de Sousa, Paula Ramos, Brazílio Luz, Alencar Guimarães, Lamenha Lins, Almeida Torres, Emílio Blum e Lauro Müller, cabendo a este último, segundo consta da respectiva ata, a exposição dos motivos que justificaram o ajuste feito.
As Assembleias Legislativas dos dois estados, conformando-se em sua unanimidade com tal deliberação de seus representantes federais, votaram sem demora as leis de autorização para o arbitramento combinado. Os dois governadores, em cumprimento e obediência às suas cláusulas, assentaram de comum acordo na escolha para árbitro, o doutor Manoel Victorino Pereira, então vice-presidente da República. Quando, porém, foi necessário requerer ao Supremo Tribunal a assinatura do respectivo compromisso, o eminente Aquino e Castro, com surpresa para os advogados dos dois estados que o haviam ouvido previamente, como já ficou dito, declarou o Tribunal incompetente para intervir no processo arbitral combinado, e isso consta dos dois últimos itens da petição inicial de Santa Catarina na ação ordinária de limites entre os dois estados.” (GUIMARÃES, Alencar. Questão de Limites. Paraná-Santa Catarina. Atos e Fatos. Curitiba, Oficinas de O Estado, 1916, pág. 29-31).
A CRIAÇÃO DE CANOINHAS
Monumento do Contestado em Irani - SC - berço do conflito
Em 1889, Francisco de Paula Pereira, proprietário de um engenho de erva-mate em São Bento, com algumas famílias da região, transfere-se para as margens do Rio Canoinhas, 100 quilômetros na direção oeste do ponto de partida, porque ali estava a erva-mate que em São Bento ele comprava dos caboclos. Estabelecidos a poucos quilômetros da margem esquerda do Rio Negro, era natural que os novos povoadores catarinenses viessem a sofrer os atropelos e as correrias de um território contestado por Santa Catarina e pelo Paraná. Por isso, nos primeiros tempos, o novo núcleo vive uma situação de terra-de-ninguém e de todos. E seus habitantes não contam com o apoio de qualquer autoridade porque nenhum dos dois estados se atreve a exercer a respectiva jurisdição plena. O território em disputa transforma-se num paraíso sem impostos e num refúgio sem castigo para toda a espécie de impostores. Na tentativa de reverter a perigosa situação, em novembro de 1899 o governo do Paraná cria o Distrito Policial de Canoinhas e nomeia Roberto Elke para o cargo de subcomissário. O escolhido recusa o posto argumentando que o território pertence a Santa Catarina e que, portanto, a indicação recebida é nula de pleno direito. Como prova de que exerce a plena jurisdição sobre as terras da região, o coronel Albuquerque, prefeito de Curitibanos, cria o Distrito de Paz e Policial de Canoinhas e nomeia o mesmo Roberto Elke como subcomissário. O indicado aceita a designação. Decorridos nove anos desde a sua fundação, a vila conta apenas com 60 casas e magras centenas de habitantes. Mesmo assim, e antes que o Paraná tome a decisão, com a Lei 907, de 12 de setembro de 1911, Santa Catarina transforma o distrito em município. O major Tomaz Vieira é designado como o primeiro superintendente. A criação do município de Canoinhas desencadeia uma série de protestos do Paraná. Isto porque, por uma lei paranaense, o território do município de Rio Negro incluía toda a área do novo município de Santa Catarina. Ao sul, os limites de Rio Negro iam até Lages. Mais tarde se contentaram em chegar só até Curitibanos, nos campos da Estiva. Anos depois, por sugestão de Oswaldo Rodrigues Cabral, a cidade Santa Cruz de Canoinhas inscreve em seu brasão o lema “Catharinensis semper”. De fato, “sempre catarinense”. Mas ela deverá pagar um alto preço de angústias e mortes durante toda a Guerra do Contestado.
BARREIRAS FISCAIS
O Decreto número 1, de 15 de novembro de 1889, assinado pelo marechal Deodoro da Fonseca, chefe do Governo Provisório, determina que as províncias sejam transformadas em estados e que elas mesmas organizem o respectivo governo. Nenhuma palavra sobre os eventuais problemas de limites que possam existir entre as antigas unidades do Império. Para Santa Catarina e Paraná, a decisão do governo federal é desconfortável, já que os dois novos estados, nos últimos 15 anos do Império, haviam convivido com graves desencontros no alto da Serra do Mar, região de São Bento, pela impossibilidade de fixar o ponto exato dos respectivos limites. Nos primeiros dias de julho de 1890, mais uma vez o Paraná cruza o Rio Negro e planta quatro barreiras fiscais que impedem a livre descida da erva-mate para a sua industrialização, em Joinville, e o posterior embarque no porto de São Francisco do Sul, rumo ao mercado consumidor do Rio da Prata. As barreiras levantam protestos em São Bento, em Joinville, no Desterro e na colônia catarinense do Rio de Janeiro, comandada por Esteves Júnior, respeitado político do novo regime republicano recém-instalado. O governador do Paraná, Américo Lobo, garante que as barreiras foram levantadas fora da zona contestada e que a medida protegia a erva-mate produzida no outro lado dos rios Negro e Iguaçu: o produto paga imposto para descer até o porto de Paranaguá. Como no lado de cá dos dois rios também era território do Paraná, o governador vizinho chega até a estranhar as pretensões de Santa Catarina, já que suas autoridades desejavam ocupar terras que nunca lhes haviam pertencido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Como vive hoje o elenco de "Cidade de Deus"?


MATHEUS MAGENTA – do BOL Notícias e do Folha.com
Leandro Firmino, o Zé Pequeno,
continua atuando, participou da série...

..."A Diarista", do longa "Cafundó",
de Paulo Betti, e da peça "Woyzeck",
dirigida por Cibele Forjaz
(foto: Felix Lima/Folhapress)
Ao longo dos dez anos que sucederam sua pré-estreia no Festival de Cannes, o filme "Cidade de Deus" viu sua estética reverberar no cinema brasileiro em obras como "Tropa de Elite" e seu elenco de jovens atores se dividir entre o sucesso, o ostracismo e a marginalidade. Um deles, que fez parte do criminoso Trio Ternura no filme como o personagem Alicate, se envolveu com drogas e hoje está desaparecido.
Thiago Martins, o Lampião
 (um dos integrantes do Caixa Baixa),
protagonizou o filme "Era Uma Vez",
de Breno Silveira,....

e está no elenco da novela das
21h "Avenida Brasil"
"Ele saiu da ficção para a realidade. Virou traficante e hoje está desaparecido. O menino tinha arte, mas ele não soube administrar a potência do sucesso que o filme teve."
O relato acima sobre o destino incerto de Jefechander Suplino foi feito à Folha pelo cineasta Luciano Vidigal. Ao lado de Cavi Borges, ele filma um documentário para mostrar o destino dos atores dez anos após a primeira exibição do longa de Fernando Meirelles, em maio de 2002.
"Uns souberam aproveitar as oportunidades, outros viram que não tinham jeito para a coisa e seguiram outras carreiras. E há aqueles que se descobriram atores ou se deslumbraram, se beneficiaram na época, mas depois perderam o rumo", relatou Borges.
Felipe Paulino, o garoto que toma
um tiro no pé do Zé Pequeno,
deixou de ser ator....

por causa de problemas familiares;
hoje é menor aprendiz em um hotel no Rio
(Foto: Felix Lima/Folhapress)
O documentário mostrará o destino de quase 30 atores. Metade continua atuando, quatro se envolveram com crimes e drogas e o restante desistiu ou não conseguiu seguir a carreira artística.
Com dificuldades financeiras para concluir o documentário, eles correm contra o tempo para não perder a efeméride de dez anos e conseguir participar do Festival do Rio, em setembro. Felipe Paulino, hoje com 18 anos, atuou em uma das cenas mais polêmicas do longa. Seu personagem leva de Zé Pequeno (Leandro Firmino) um tiro no pé. Após o filme, enfrentou problemas familiares na administração de sua carreira de ator mirim. Hoje, é menor aprendiz em um hotel do Rio. "Eu ainda tenho o sonho de ser ator", afirmou. Já o colega de cena hoje se sustenta com os cachês de ator.
Jonathan Haagensen, o Cabeleira,
e Roberta Rodrigues, a Berenice

Jonathan Haagensen, o Cabeleira,
é ator e modelo, participou
do reality show "A Fazenda" e
do filme "Bróder", de Jeferson De
(Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress)
Firmino atuou em séries como "A Diarista" (Globo), e filmes como o inédito "Totalmente Inocentes", de Rodrigo Bittencourt, paródia do gênero "favela movie", consagrado com "Cidade de Deus".
Roberta Rodrigues, a Berenice,
participou da novela
"Insensato Coração" e
de filmes como "Desenrola",
de Rosane Svartman
(Foto: Paula Giolito/Folhapress)
Apesar do pequeno papel que teve no longa, Thiago Martins desponta hoje como um dos galãs da novela das 21h, "Avenida Brasil" (Globo). Preocupados com o destino dos atores após o filme, Meirelles e a codiretora Kátia Lund ajudaram a transformar a oficina de interpretação criada para os quase 200 jovens pré-selecionados para a produção em um projeto social com uma produtora e uma escola de cinema. Chamado hoje de Cinema Nosso, o projeto é presidido por um dos atores do filme, Luis Carlos Nascimento.
Dez anos de "Cidade de Deus"
ESTIGMA
Douglas Silva, o Dadinho,
atuou na série de TV "Cidade dos Homens"... 

...e hoje participa do programa
 "Esquenta", de Regina Casé.
Darlan Cunha (à direita)
(Foto: Daniela Cantagalli)
Baseado no livro homônimo de Paulo Lins --que levou 15 anos até lançar outra obra (leia crítica na pág. E4)--, o filme retrata a comunidade carioca desde a criação nos anos 1960 até os anos 1980, durante uma guerra entre as gangues de Zé Pequeno e Mané Galinha (Seu Jorge). O local tem hoje 36 mil habitantes, segundo o IBGE. Parte deles diz que, após o filme, ficou estigmatizada em outras regiões do Rio.
"No filme, 99% das pessoas eram criminosas. Na época, quem dizia que era da Cidade de Deus não conseguia emprego. Hoje ainda há preconceito", disse o morador Roberto de Carvalho, 55. "O problema é a generalização. Não se pode dizer que todo jovem de cor que mora nesses locais é violento", diz a antropóloga Alba Zaluar, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. "Qual favela não é estigmatizada?", rebate Lins. Para ele, o livro e o filme foram essenciais para atrair investimentos públicos para o local.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ana Dalva News: Eleições 2012: Congresso Municipal do PPS abre o b...

Ana Dalva News: Eleições 2012: Congresso Municipal do PPS abre o b...: Ana Dalva abrindo o Congresso Municipal do PPS       O Congresso Municipal do PPS – Partido Popular Socialista - de Heliópolis foi a...

sábado, 21 de abril de 2012

¨¨¨Landisvalth Blog: Povo protesta contra a corrupção em Brasília, São ...

¨¨¨Landisvalth Blog: Povo protesta contra a corrupção em Brasília, São ...: Da AGÊNCIA BRASIL, FLÁVIO FERREIRA  e LUIZ FERNANDO CARDOSO – reprodução da FOLHA DE SÃO PAULO , com fotos de Ueslei Marcelino /Reuters,...

Carta na Escola entrevista Milton Hatoum


‘A experiência da juventude é decisiva para o escritor’
Por: Lívia Perozim - da revista Carta Capital
O premiado amazonense conta como foi sua experiência na escola pública e como sua trajetória de leitor
e suas vivências políticas o influenciaram. Foto: Rennato Testa
Enquanto conversa comigo, no café de uma livraria paulistana, a voz serena do escritor Milton Hatoum vai se animando e um sorriso treloso explicita a excitação de relembrar momentos que marcaram sua juventude.
Filho de imigrantes libaneses, Milton partiu de Manaus aos 15 anos, rumo à capital federal, “se perder um pouco”. Foi aprovado em um colégio-modelo da Universidade de Brasília, onde estudavam também filhos de políticos e poderosos da República. Fernando Collor era aluno do mesmo colégio, seu contemporâneo, com a devida ressalva de que pertenciam a chapas opostas. Foi lá, conta o  amazonense, durante os repressivos anos do fim da década de 60, que tudo se iluminou para ele do ponto de vista da leitura, do ensino e da formação política.
Nesta entrevista, Hatoum não esconde sua repulsa por “caretices e dogmatismo”, principalmente ao falar dos políticos brasileiros,e revive esse importante período da sua vida – da escola pública, passando pelo Ensino Médio em Brasília e pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em São Paulo, onde se formou. O autor de quatro romances (o mais conhecido, Dois Irmãos) conta também a sua experiência como leitor e fala sobre seu sexto livro, sem pressa e data para ser publicado
Carta na Escola: O seu interesse pela literatura foi despertado na escola?
Milton Hatoum: A experiência da infância e da juventude é decisiva para quem vai ou quer escrever. Nessa experiência está incluída a de leitor. Por um lado, tive muita sorte com meus professores e minha mãe, que me indicaram livros fundamentais. Minha mãe era obcecada por Machado de Assis, escritor mal lido durante muito tempo. Machado era interpretado como o escritor dos triângulos amorosos, e isso excitava os leitores. Claro, a obra machadiana é muito mais complexa, pois fala das contradições da nossa sociedade, da loucura, da crueldade da nossa elite e do lado obscuro do homem. Um dia minha mãe comprou de um livreiro ambulante a coleção das obras completas do Machado, uma edição de 1958, que guardo até hoje. Por sorte, comecei a ler os contos. Tivesse lido os romances primeiro, talvez odiasse Machado. É esse o erro que se faz na escola. Os grandes romances machadianossão muito complexos, têm muitas nuances e uma dimensão simbólica e histórica que está nas entrelinhas. A maioria dos jovens de 14 anos não vai enfrentar essa dificuldade. Se me pedissem para opinar na política do MEC, eu diria: distribuam um livro com uma seleção dos contos de Machado na biblioteca de todas as escolas.
CE: Qual conto machadiano leu primeiro?
MH: Foi Parasita Azul, de Histórias da Meia-Noite. Fui atraído porque achava que haveria algo de mistério, de terror. E não era nada disso. Era um conto machadiano, já dos bons. Acho que Parasita Azul é um marco para os grandes contos do Machado na década de 1880 e 1890. Fiquei fascinado. Fui lendo outros contos e pensava “Como ele escreve bem, que clareza!” Ao mesmo tempo, na escola, os professores trabalhavam com Graciliano Ramos, Jorge Amado e Erico Verissimo. Outro professor trabalhou com Euclides (da Cunha), o que me irritou profundamente.
CE: Por quê?
MH: Explodiram uma bomba caseira no colégio, por travessura, e o castigo coletivo foi a leitura e o fichamento de Os Sertões, cuja edição, de 1967, também guardei. Depois de ter lido os contos do Machado e Vidas Secas e Infância, do Graciliano, fiquei um pouco arrepiado com a linguagem do Euclides, muito retorcida, com um vocabulário precioso. Foi um choque. Não quis saber do Euclides naquele momento.
CE: Quando foi que o Euclides “te pegou”?
MH: Na escola, em 1967, só li um trecho de A Luta, a meu ver, a melhor parte d’Os Sertões. Li o livro inteiro quando já morava em São Paulo, depois de ter passado dois anos em Brasília. Li também os ensaios amazônicos de À Margem da História, onde descobri um texto maravilhoso, Judas Asvero, sobre os seringueiros nordestinos no Alto-Purus. É um texto lindo, obra canônica na literatura brasileira. Eu queria fazer uma tese de doutorado sobre esse relato de três páginas
CE: O castigo virou uma obsessão?
MH: E também um fascínio, pois comecei a entender mais o Euclides, apesar dos seus erros políticos e da sua ingenuidade. Ele era um positivista, acreditava no progresso e na “civilização”, em oposição à “barbárie”. Essa oposição não existe. O “progresso” e a ciência só fazem sentido se servirem à sociedade como um todo, e não apenas a uma elite. Enfim, ele tinha assimilado todos os valores da filosofia positivista do século XIX e, ao lado do Machado, seu contemporâneo, ele é muito ingênuo. Machado não acreditava em nada disso.
CE: A produção escrita veio junto com a sua imersão na leitura literária?
MH: Meu primeiro artigo, meio poético, escrevi nessa época, para o jornal do grêmio estudantil do Colégio Pedro II, em Manaus. Era um artigo sobre educação pública, clamando pela qualidade de ensino, por uma boa biblioteca, salários justos para os professores, tudo que se diz até hoje. O nome do jornal que, aliás, está no Cinzas do Norte, era Elemento 106. Na época, havia 105 elementos na natureza… Acho que eu estava numa caverna um pouco sombria e, em Brasília, tudo se iluminou do ponto de vista da leitura e do ensino.
CE: Com quantos anos foi para Brasília?
MH: Fui fazer o antigo colegial da época, com 15 anos. Era um colégio de aplicação chamado Ciem (Centro Integrado do Ensino Médio), que ficava na entrada do campus e pertencia à Universidade de Brasília. Uma escola-modelo para 350 alunos e mais de 60 professores, um colégio para qual se deveria prestar um exame para entrar. Mas só os caipiras prestavam. Os filhos de deputados e ministros, não.
CE: Sua família continuou em Manaus?
MH: Vim sozinho. Queria me aventurar, me perder um pouco. Brasília foi uma experiência e tanto. Política, inclusive, porque caí no olho do furacão, em 1968.
CE: Foi em Brasília que você deixou de ser um progressista?
MH: Nunca deixei de ser progressista. Desconfio dos valores da civilização, esses valoresdo Ocidente. Sou um progressista de esquerda, mas detesto qualquer dogmatismo e todo tipo de caretice. Muitos traíram, se traíram. Não me arrependo de nada, de nenhuma passeata ou pichação, de nenhuma pedra jogada contra a polícia, que torturava e matava. A ditadura interrompeu brutalmente o processo democrático, esta é a verdade. O ano de 68 foi o mais violento em Brasília. Foi um inferno, houve invasões durante todo o ano na universidade, prisões, expulsões, perseguições. Brasília teve o movimento estudantil mais radical do Brasil e as pessoas desconhecem isso. Eu vivi um pouco isso e vivi também o ambiente do colégio, que era incrível. Era um laboratório criado por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. Li muita coisa de literatura brasileira, francesa, italiana…
CE: Já pensava em ser escritor?
MH: Não. Eu escrevia poesia e tinha um diário. Naquela época, não podíamos falar, então escrevíamos. Toda a nossa energia ia para a escrita, para o sexo e outras coisas. Brasília foi isso também, muita droga. Foi um momento de liberação de tudo. Eu intuí que aquilo não ia dar certo e vim para São Paulo em 1970. Em 71, a ditadura fechou o meu colégio em Brasília. O Collor estava lá, eu era do primeiro ano e ele, do terceiro.
CE: Como era o ex-presidente na escola?
MH: Diziam que ele desfilava para as festas da primeira dama, Iolanda (mulher do presidente Arthur da Costa e Silva – 67 a 69), para arrecadar fundos. Diziam também que ele era lindo. Eu e meus amigos o considerávamos um mauricinho, um bofe cafona, e um baita de um reacionário. Já naquela época ele era pedante e comandava uma chapa de direita. Lamentável que a esquerda, hoje, esteja aliada com o Collor e outras figuras autoritárias.
CE: Há um movimento de criação de cursos de formação de escritores no Brasil. É possível ensinar a escrever literatura?
MH: Acho que não. É uma técnica que veio dos Estados Unidos, onde muitos escritores vivem disso. Mas não acredito que você forme um escritor. É preciso ter talento para escrever. O que eu acredito é que a leitura crítica é fundamental para quem quer ser escritor. Não há lugar para o leitor ingênuo entre os que querem escrever.
CE: Qual foi sua formação crítica de leitor?
MH: Eu fugia da FAU para assistir aos cursos de teoria literária do Davi Arrigucci, da Leyla Perrone-Moisés e outros grandes mestres. Esses cursos me ajudaram a pensar na literatura. Não que isso seja obrigatório. Guimarães Rosa nunca assistiu a uma aula, mas era um gênio, sabia tudo sobre romance e conto. Era um grande leitor. A FAU também foi uma escola formadora e me ajudou a refletir sobre as cidades brasileiras e a habitação popular, cujos projetos ainda são vergonhosos no Brasil, como se o povo não merecesse moradia digna. A FAU era bem maluca, e diferente do que é hoje. Tudo ficou mais convencional.
CE: O seu olhar de arquiteto está muito presente na maneira como você explora a cidade. Isso é intencional?
MH: Acho que sim. Foi introjetado na minha vivência com a arquitetura, nas minhas leituras sobre arquitetura e na minha vivência na cidade. O espaço é importante num romance, mas não como descrição, e sim como um elemento constitutivo da trama e da vida dos personagens.
CE: Manaus é predominante entre as cidades dos seus romances. Que tipo de sentimento sua cidade natal evoca?
MH: Hoje é uma cidade quase irreconhecível para mim. Quando se trata da memória do espaço, as cidades da América Latina têm uma vida curta, vão se sobrepondo umas às outras, se destruindo e se reconstruindo a cada uma ou duas décadas. Isso, por um lado, aponta para um dinamismo econômico e, por outro, para uma destruição da memória urbana. Manaus poderia ser uma cidade maravilhosa, mas está totalmente desfigurada, feia, e sem árvores. Uma cidade equatorial sem sombras.
CE: Você já afirmou não conseguir escrever sobre o passado recente. Como se dá esse processo de criação e memória?
MH: O passado recente está muito próximo do circunstancial. Uma distância longa do tempo é mais propícia à literatura porque você não lembra com precisão. O que há de nebuloso no passado move a nossa memória, que é irmã siamesa da imaginação.
CE: Sobre o que falará o romance que você está escrevendo?
MH: Ele evoca o período em que vivi na Europa. É um romance ambientado em Paris, com histórias sobre exílio, expatriação e tradução. É narrado por uma tradutora franco-brasileira. Tem também um pouco da minha experiência de Brasília e São Paulo. Fico particularmente emocionado quando escrevo. Estou falando com você, e, ao mesmo tempo, meu coração e meu pensamento disparam, mergulham nas lembranças perdidas, que reaparecem por meio da linguagem. No romance também ocorre o alumbramento, esse belo nome que Manuel Bandeira dava ao súbito surgimento da imagem poética.
CE: Tem previsão para o lançamento? 
MH: Pensei que terminaria em fevereiro, mas meu editor fez várias observações relevantes, decidi retomar o trabalho e reescrever várias partes. Você pode matar um livro se for picado pela pressa e pela vaidade. Faz tempo joguei a vaidade para o ar. Eu sei que tem a Feira de Frankfurt e o Brasil vai ser o país homenageado em 2013. Seria maravilhoso lançar este ano. Mas não adianta forçar. O romance é uma arte que exige obstinação e uma entrega total, que é a paixão pela linguagem. Além disso, acho que já escrevi muito. Cinco livros! Tem gente que publica mais de 30. É inimaginável para mim.

Um Jorge Amado e universal


Por Ana Ferraz – da revista CARTA CAPITAL
Em seu processo de criação, Jorge Amado assumia o papel de executor das vontades de seus personagens. Em Dona Flor e seus Dois Maridos (1966), o escritor queria que a protagonista fosse embora com Vadinho, mas ela quis ficar com os dois maridos. Zélia Gattai, a mulher, e Paloma, a filha, contam em depoimento gravado os caminhos criativos do autor baiano, cujo centenário de nascimento ganha a exposição Jorge Amado e Universal, parceria entre a Grapiúna, Fundação Casa de Jorge Amado, Secretaria de Cultura do Governo de São Paulo e Museu da Língua Portuguesa.
 “A mostra aproximará do grande público um dos autores que melhor retrataram nosso povo através de seus cerca de 5 mil personagens cheios de grandezas, fraquezas, sabedoria popular, sensualidade encantadora, malícia, fé e esperança”, diz Antônio Carlos de Moraes Sartini, diretor do Museu da Língua Portuguesa.
Em seis módulos, vida e obra de Amado. Num deles, originais corrigidos à mão pelo autor, fotos, ilustrações das obras publicadas em 50 países. Em outro, a Bahia reinventada pelo escritor. Na Casa dos Milagres, as coloridas camisas do autor.
JORGE AMADO E UNIVERSAL: UM OLHAR INUSITADO SOBRE O HOMEM E A OBRA
Até 22 de julho
Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, s/nº, Centro, São Paulo

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Eliane Brum, da revista Época, fala da pequenez do pensamento brasileiro



     Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br. Veja o artigo publicado nesta segunda-feira (16).
     A volta do Brasil Grande que pensa pequeno
     Ao contar o passado, pela epopeia dos Irmãos Villas Bôas, o filme “Xingu” ilumina o presente. E coloca a plateia diante de uma questão atual e incômoda: omissão também é protagonismo
       ELIANE BRUM – da revista ÉPOCA.
     Xingu, o filme de Cao Hamburger, conta a saga dos três irmãos Villas Bôas em seu confronto com o Brasil que não sabia que era Brasil. Nos anos 1940, Orlando (Felipe Camargo), 27 anos, Cláudio (João Miguel), 25, e Leonardo (Caio Blat), 23, mentiram que eram analfabetos sem profissão para se alistar na Expedição Roncador-Xingu, que desbravaria o centro do país. O que acontece a partir do momento em que três jovens de classe média partem em busca de aventura e encontram de forma brutal não só uma outra civilização, mas também a si mesmos, é História. E, infelizmente, uma história que vai sendo esquecida. Mas, ao iluminar o passado, Xingu, o filme, ilumina Xingu, a vida. E o ilumina para além do Parque Nacional do Xingu, o grande feito dos Irmãos Villas Bôas, consumado em 1961. Ilumina com verdades suficientes para questionar a plateia em outras verdades: por que permitimos, pela omissão da maioria, que a faraônica obra de Belo Monte – aqui, agora – destrua uma das maiores riquezas culturais e biológicas do planeta? Por que, em um governo dito popular, se reedita o autoritarismo para impor um elefante branco da democracia, com a nossa cumplicidade? A plateia que assiste ao filme precisa responder, ao deixar a sala de cinema, a uma pergunta bem incômoda: por que, na vida, não consegue deixar de ser plateia.
 O filme termina quando a Transamazônica começa a ser construída. Naquele momento, com uma imprensa censurada pela ditadura e um país dominado pelo ufanismo do “Brasil ame-o ou deixe-o”, do “Integrar para não Entregar”, do “Terra Sem Homens para Homens Sem Terra” talvez só Orlando e Cláudio Villas Bôas – além do governo militar e de seus apoiadores – eram capazes de compreender o que aconteceria quando a estrada rasgasse a selva e literalmente a encharcasse de sangue. Hoje, não. Nenhum de nós tem a desculpa de não saber o que já aconteceu. Nenhum de nós tem a desculpa de ignorar a destruição da floresta e a matança de gente, bicho, planta e cultura consumada no Brasil Grande da ditadura militar. Nenhum de nós tem a desculpa de ignorar a ocupação incompetente e a trilha de mortes que só faz aumentar. Não há desculpa para a ignorância do passado. E penso que não há desculpa para a omissão no presente, diante do futuro.
Quando a Transamazônica se desenhava na tela, era Belo Monte que estava bem ali. Assisti ao filme enxergando o presente, e não apenas o passado – e por isso saí do cinema devastada. Vi o passado enxergando o presente porque o passado tornou-se, de novo, presente. E é com esse presente que temos o desafio de lidar. Quando a Transamazônica foi imposta pela ditadura militar, boa parte dos vivos de hoje nem sequer tinha nascido ou ainda era criança, como eu. Agora, não. Estamos todos aqui.
Conhecer a Amazônia exige um movimento – e um desejo maior. Assistir ao filme é muito fácil. Se puderem, assistam ao Xingu e, na última cena, uma das mais belas do nosso cinema, se enfiem na pele de um dos Irmãos Villas Bôas e percebam que, querendo ou não, é diante desse olhar que nós todos estamos – agora.
Acho que este é o mérito dos grandes filmes: não permitir que nos instalemos no conforto eterno da poltrona de cinema. Tornar impossível o pensamento comodista de que aquilo não nos diz respeito – seja porque já aconteceu, seja porque é a dor de um outro muito diferente. Ou ainda porque não nos convém – e nos acreditamos a salvo. E aqui não se trata da arte utilitarista ou engajada, mas do fato de que os bons filmes, assim como a boa literatura, nos confrontam com pessoas complexas num mundo complexo – e não meros heróis em um mundo plano. Como quando Cláudio Villas Bôas diz, ao perceber que, salvando, ele também destrói: “Somos o veneno e o antídoto”. Ou: “Há uma coisa deles que morre pra sempre assim que a gente encosta”.  
É por acolher o conflito que os bons filmes, mesmo que nos contem de mundos e de gentes distantes, ecoam na vida de todos nós. Pescam nossos demônios internos e os fazem dançar diante dos nossos olhos. Os bons filmes, como os bons livros, nos transtornam por dentro, mesmo que ninguém fique sabendo porque só a nós diz respeito; e nos transtornam de dentro para fora, como neste caso, ao percebermos que a omissão também é um tipo de protagonismo. Os bons filmes são como os bons governos: acolhem o conflito e dialogam com o contraditório. Os maus filmes são como os maus governos: calam os conflitos e chamam o contraditório de “fantasia”. Xingu é um bom filme.
Os realizadores de Xingu já tinham deixado explícita a intenção de, ao contar a epopeia histórica dos Irmãos Villas Bôas, criar uma oportunidade para pensar sobre os dilemas do Brasil atual. “Se o filme conseguir trazer a história desses caras para uma discussão do futuro e do presente seria muito legal. Apesar de ser um filme de época, é muito contemporâneo. Uma das coisas que me encantaram nessa história foi essa possibilidade de discutir coisas contemporâneas contando uma história do século passado”, disse à imprensa Cao Hamburger, o diretor, durante o lançamento do filme. E, em outro momento: “A ideia é que a gente repense a maneira como somos. O que é o progresso hoje? Que crescimento a gente quer?”.
Também os atores, ao viverem o Xingu para encenar o Xingu, confrontaram-se com os conflitos vividos por seus personagens – mas também os incorporaram como cidadãos diante da experiência para além da filmagem. “Os Villas Bôas fizeram uma previsão: que o encontro (entre brancos e índios) era inevitável e a civilização ia chegar à fronteira do rio. E eles chamavam isso de ‘abraço da morte’. De avião a gente vê claramente a devastação ao redor. Então esse ‘abraço da morte’ chegou”, contou Caio Blat. “Não teve um dia de filmagem que não vimos fumaça de queimada. Até o set queimou, a equipe toda ajudou a apagar o fogo. E isso acontece sempre: aconteceu quando filmamos, aconteceu no ano passado, vai acontecer este ano de novo”, afirmou Felipe Camargo. “A ecologia não pode mais ser vista como uma coisa bonitinha, ‘vamos preservar a natureza’. Não: vamos preservar a nossa vida.”
Ao refletir sobre a experiência de filmar Xingu no Xingu, Cao Hamburger declarou: “Considero que essa cultura e essa filosofia de vida deles não estão paradas no tempo, elas estão em desenvolvimento, como a nossa. O que está me interessando muito é o que nós podemos aprender com essa cultura. O Brasil tem um tesouro que faz questão de esconder e desprezar, e está perdendo a oportunidade de absorver e aprender com eles. A cultura deles é muito rica, muito sofisticada, e o Brasil tem muito a ganhar”.
O cineasta Fernando Meirelles, produtor do Xingu, foi contundente em suas afirmações ao longo da série de entrevistas sobre o filme: “O que eu acho que vale ressaltar do filme é como ele é atual. Vindo para cá, eu li no jornal que o Megaron Txucarramãe, que era coordenador da Funai no norte do Mato Grosso, tinha sido demitido porque tem uma posição contrária a Belo Monte (outubro de 2011). É a história do filme, da Transamazônica, se repetindo. O filme não poderia ser mais atual, nesse momento em que Belo Monte e o Código Florestal são assuntos muito fortes”. E, mais tarde: “Eu, pessoalmente, acho que Belo Monte é um dos maiores erros atuais. A gente está construindo usinas basicamente para poder aumentar a produção de alumínio. Vai comprometer toda aquela área pra produzir mais alumínio. É esse o progresso que queremos?”.
Em outra manifestação, Fernando Meirelles foi ainda mais direto: “A Transamazônica do filme é a Belo Monte de hoje. Aquele deputado de terninho é a Kátia Abreu (senadora da bancada ruralista pelo PSD/TO). Isso está muito claro”. No filme, há ainda um militar que é a cara desse governo no trato de Belo Monte e das questões ambientais. Só não gritei – “Nossa, é a Dilma Rousseff!” – porque faço uma campanha persistente pelo silêncio no cinema. Quando Orlando Villas Bôas tenta explicar que a Transamazônica vai passar por cima dos Kren Akarore, uma etnia isolada, o militar declara: “Limpe o caminho. Mas tem que ser rápido”.
Há de se eliminar aquilo que “atravanca” o progresso ontem, o desenvolvimento hoje – tirar da frente, custe o que custar. “Resolver”. E rápido. Como a História mostrou, dos 600 Kren Akarore restaram 79 depois da abertura da Transamazônica. Ou seja: o efeito da Transamazônica, apenas sobre uma única etnia indígena, foi um genocídio de mais de 500 seres humanos. E a Transamazônica até hoje é uma picada intrafegável boa parte do ano, apelidada por onde passa de “Transamargura”. As obras de Belo Monte começaram – sem o cumprimento das condicionantes ambientais – e o estrago já é visível.
Os índios recebem "o abraço da morte".
Entre os desafios que um futuro biógrafo enfrentará ao contar a vida e a obra de Dilma Rousseff está o seguinte paradoxo: como uma mulher que entrou na clandestinidade, pegou em armas para lutar contra o autoritarismo e pagou pela sua coerência o preço altíssimo de ter sido torturada vira uma ministra, primeiro, uma presidente depois, que, em se tratando de políticas para a Amazônia e o meio ambiente, incorpora – e o pior, implanta – a mesma visão da ditadura militar que combateu. De novo, estamos de volta ao Brasil Grande que pensa pequeno – mas em plena democracia e numa imprensa sem censura oficial. Acho o paradoxo fascinante do ponto de vista humano, mas um desastre para o país.
Talvez, hoje, a presidente Dilma Rousseff passasse um pito na guerrilheira Dilma Rousseff: “Não há espaço para a fantasia”. E imediatamente esquecesse que foi essa “fantasia” que tornou possível não só a própria democracia, mas a ascensão de um operário à presidência do Brasil. E também a tudo o que veio depois – inclusive ela. Foi essa mesma frase, em minha opinião a mais infeliz de sua trajetória como presidente, possivelmente de sua vida, que Dilma Rousseff declarou aos ambientalistas que combatem Belo Monte, no início de abril, afirmando que não mudará sua política de “desenvolvimento” para a Amazônia. O que nos faz concluir que, diante dos Irmãos Villas Bôas, os indigenistas de ontem, Dilma Rousseff só poderia dizer o mesmo que diz para os indigenistas de hoje: “Não há espaço para a fantasia”.
Cara presidente, se não existisse “fantasia” não existiria humanidade – não existiria nem mesmo o conceito de nação. Como disse Fernando Meirelles, no site da produtora O2 Filmes: “Sonhe um pouco, presidenta. Ou ao menos escute o sonho dos que conseguem sonhar”.