Veja o que diz Tony Goes, do F5
do FOLHA.COM, sobre a nova novela da Globo.
Rita (Mel Maia) tenta fugir de Carminha (Adriana Esteves) em "Avenida Brasil"
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Era uma vez uma linda menininha
que vivia com seu pai e sua madrasta. Um dia o pai morreu e a madrasta resolveu
se livrar da garota. Chamou um capanga e mandou ele a levasse para um lugar
ermo e perigoso, para que ela nunca mais voltasse.
Existem inúmeras variações da
história de "Branca de Neve", mas o ponto de partida é sempre o
mesmo: a madrasta que quer matar a enteada. Agora mesmo existem dois novos
filmes americanos prestes a estrear nos cinemas, "Espelho, Espelho
Meu" e "Branca de Neve e o Caçador", e também uma série de TV,
"Once Upon a Time", que chega em breve ao canal Sony.
É um arquétipo tão forte que
também serviu de premissa para "Avenida Brasil", a novela que estreou
segunda passada na Globo. A floresta do conto original virou um lixão e a
rainha má agora se chama Carmen Lúcia. Que não está interessada em ser a mais
bela do reino: só a mais rica.
Rita (Mel Maia) tenta fugir de
Carminha (Adriana Esteves) em "Avenida Brasil"
"Avenida Brasil"
estreou com aplausos unânimes, inclusive dos críticos mais implacáveis de hoje:
os tuiteiros. Até Aguinaldo Silva, autor da antecessora "Fina
Estampa", admitiu a qualidade da nova novela. Mas claro que ele não se
conteve e apontou que a audiência caiu, olha só que danadjiiinho.
É cedo para saber se
"Avenida Brasil" vai mesmo emplacar, além do mais porque ainda
estamos na primeira fase. Por enquanto a ação se passa em 1999 --mas que ação,
hein? Os três primeiros capítulos foram eletrizantes e com um cuidado de
produção que lembra o cinema. Nem se demoraram a apresentar os personagens,
que, aliás, ainda são poucos.
Mas primeiras fases costumam
enganar. "Renascer", novela de Benedito Ruy Barbosa exibida em 1993,
teve uma primeira fase gloriosa, que durou apenas cinco capítulos. Depois a
trama deu um pulo de uns vinte anos, e o nível nunca mais foi o mesmo. Muita
gente ainda reclama de Mariana, um personagem desagradável feito pela então
novata Adriana Esteves.
A mesma Adriana agora se redime
com o melhor papel de toda sua carreira. Ela está sensacional como Carmen
Lúcia: vulgar, egoísta e totalmente crível, coisa que a "falecida"
Tereza Cristina nem tentava ser. Mas será que Débora Falabella será uma
antagonista à sua altura?
Implico um pouco com Débora
Falabella. Para começar, ela já tinha 20 anos em 1999, enquanto que Mel Maia
--a menina-prodígio que interpreta Rita nesta primeira fase da novela-- tem
apenas sete. Até aí, tudo bem: é mais do que comum atores interpretarem
personagens mais jovens do que eles mesmos.
Acontece que eu simplesmente
não vou com a cara de Débora. Coitada, ela nunca me fez nada. Nutro-lhe uma
antipatia completamente gratuita, e quero só ver se ela vai ser capaz de
segurar essa peteca.
O desafio não é só dela. Branca
de Neve era uma figura totalmente passiva, que caía em sono profundo enquanto
os anões e o príncipe cuidavam da bruxa. A Rita/Nina de "Avenida
Brasil" não será: o autor João Emanuel Carneiro já avisou que ela é uma
espécie de Flora, a vilã de "A Favorita", mas "do bem". Vai
ser interessante ver como ele consegue resolver esta contradição. Ou melhor, se
consegue.
Tony Goes tem 50 anos. Nasceu
no Rio de Janeiro mas vive em São Paulo desde pequeno. É publicitário em
período integral e blogueiro, roteirista e colunista nas horas vagas. Escreveu
para vários programas de TV e alguns longas-metragens, e assina a coluna
"Pergunte ao Amigo Gay" na revista "Women's Health".
Colaborador frequente da revista "Junior" e da Folha Ilustrada, foi
um dos colunistas a comentar o "Big Brother 11" na Folha.com.